Pensatas & paixões

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Pensatas 1 / 03 / 2016|

A aniversariante

Eu poderia, neste aniversário, colocar pimenta no vatapá do mito do carioquismo, louvando o carioca maneiro e descolado, de bem com a vida, sorriso no rosto, havaiana nos pés e pele curtida de sol. Mas acho que efemérides são propícias também para reflexões.

[Imagem: "O Último Tamoio" (1883), pintura de Rodolfo Amoêdo]

A cidade do Rio de Janeiro completa hoje 451 anos. Foi para combater os índios tupinambás, reunidos na Confederação dos Tamoios, e os desejos franceses de estabelecer uma colônia no território, que Estácio de Sá, sobrinho do Governador-Geral, estabeleceu um arraial no sopé do Pão de Açúcar, no primeiro dia de março de 1565. Esta é a data hoje consagrada pela historiografia oficial para se comemorar o aniversário da cidade.

A fundação da cidade, em certo sentido, já escancara alguns dilemas que nos marcam até hoje: bravos canoeiros, guerreiros entrincheirados nas paliçadas de Uruçumirim (o atual Morro da Glória), os índios resistiram, infernizaram a vida dos colonizadores, foram escravizados, combateram até o final de suas forças e acabaram relegados ao subterrâneo da história oficial. Quem ficou bem na fita foi Araribóia, o chefe temiminó que se converteu ao catolicismo, aliou-se aos portugueses, virou cavaleiro da Ordem de Cristo e recebeu, por ter lutado ao lado dos europeus contra os tamoios, a sesmaria do Morro de São Lourenço, origem da cidade de Niterói. São, todavia, os tupinambás derrotados que descem nas umbandas cariocas para saravar a nossa banda.

À caça aos índios — marca fundadora da nossa terra —, a História acrescentou o drama da escuridão dos tumbeiros e mais de trezentos anos de chibata. Estudos recentes indicam que, entre os séculos XVI e XIX, uma em cada cinco pessoas escravizadas no mundo colocou os pés no chão da Guanabara. O vento carioca, que traz em suas asas o brado lancinante dos tamoios, sopra também os zumbidos dos chicotes nas costas lanhadas do povo do Congo e a melancolia de muitos fados.

O vento carioca, que traz em suas asas o brado lancinante dos tamoios, sopra também os zumbidos dos chicotes nas costas lanhadas do povo do Congo e a melancolia de muitos fados

Eu poderia, neste aniversário, colocar pimenta no vatapá do mito do carioquismo, louvando o carioca maneiro e descolado, de bem com a vida, sorriso no rosto, havaiana nos pés e pele curtida de sol. Mas acho que efemérides são propícias também para reflexões.

É neste sentido que percebo, mirando as cidades que formam a grande cidade, que uma pista para se pensar o Rio é atentar para a relação, aparentemente paradoxal, que marcou marca as relações entre as elites cariocas, o poder público e os pobres da cidade.

Em certo momento crucial para o Rio, aquele da transição entre o trabalho escravo e o trabalho livre e entre a Monarquia e a República, a cidade encarou os pobres como elementos das classes perigosas (a expressão foi largamente utilizada em documentos oficiais do período) que maculavam, do ponto de vista da ocupação e reordenação do espaço urbano, o sonho da cidade moderna e cosmopolita. Ao mesmo tempo, era dessas classes perigosas que saíam os trabalhadores urbanos que sustentavam — ao realizar o trabalho braçal que as elites não cogitavam fazer — a viabilidade desse mesmo sonho: operários, empregadas domésticas, seguranças, porteiros, soldados, policiais, feirantes, jornaleiros, mecânicos, coveiros, floristas, caçadores de ratos. Pouca coisa mudou neste embate disfarçado de cordialidade desde então.

Coloquemos ainda, neste caldeirão carioca, aqueles que, sobrevivendo, ousaram inventar a vida na fresta, dando o nó no rabo da cascavel e produzindo cultura onde, amiúde, só deveria existir o esforço braçal e a morte silenciosa: capoeiristas, malandros, sambistas, chorões, vendedoras de comida de rua, mães de santo, devotos da Senhora da Penha, centenas de zés devotos de Seu Zé, minhotos pobres, alentejanos atrás dos balcões de botequins vagabundos, polacas, marujos, jongueiras, funkeiros, festeiras e quizumbeiros de todos os lugares e matizes.

Para muitos é difícil admitir isto, mas os inventores do que há de mais potente na nossa cidade não discutiram a alta filosofia nas academias e universidades, não escreveram tratados, não pintaram os quadros do Renascimento, não foram convidados a frequentar bibliotecas, não compuseram sinfonias, não conduziram exércitos em grandes guerras, não redigiram as leis, não fundaram empresas e só frequentaram os salões empedernidos para servir às sinhás.

A aniversariante, minha aldeia de flor e faca, pernada e afago, gemido de amor e som de tiro, chibata e baqueta de surdo, incomoda

Os nossos grandes inventores rufaram tambores pela Noite Grande, chamaram Zambiapungo em alguma estrela, riscaram o asfalto preenchendo de dança o intervalo entre as marcações do surdo, subiram o São Carlos e as escadarias da Penha, bradaram revividos em seus cavalos nas matas e cachoeiras, celebraram seus mortos na palma da mão.

A aniversariante, minha aldeia de flor e faca, pernada e afago, gemido de amor e som de tiro, chibata e baqueta de surdo, incomoda. Desconfio sinceramente dos que acham que ela precisa ser consertada. O Rio precisa é de um concerto. Uma letra e está feita a diferença: que a beleza dos nossos instrumentos, em suas potentes e múltiplas percepções da vida, possa soar como inclusiva harmonia das gentes cariocas em suas artes de fazer insistentemente a vida. No chão tupinambá virado em Valongo, a morte, convidada de honra que deveria campear soberana na nossa História, perdeu, mas insiste. O Rio sobrevive.

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Convidado

Luiz Antonio Simas

Historiador dedicado à história e à cultura do Rio de Janeiro.

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