10 Perguntas

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10 Perguntas 18 / 02 / 2016| Isabela Fraga

"A atual estratégia de combate ao mosquito vetor da zika é falha e equivocada"

Quando se fala de zika, dengue, chicungunha e de suas complicações, pouco se discute os modelos de combate e prevenção a essas doenças e ao mosquito vetor, o aedes aegypti: são eficazes? São seguros? A questão veio à tona apenas nas últimas semanas, quando surgiram boatos de que o surto de microcefalia no Brasil seria causado pelo larvicida piriproxifeno — utilizado por alguns estados e municípios brasileiros no combate à proliferação do mosquito. A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) desmentiu a relação, mas afirmou, em uma nota técnica divulgada no começo do mês, ser contra o uso de substâncias químicas no combate ao mosquito — como fumacê e larvicidas diluídos em água potável.

"Ao instituir a guerra contra o mosquito, faz-se a guerra química também contra as pessoas expostas a esses venenos e aos trabalhadores que as aplicam", afirma Marcelo Firpo, pesquisador do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da Fiocruz e coordenador do Grupo de Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Nesta entrevista, Firpo explica por que considera o modelo atual de combate ao aedes é equivocado e questiona os critérios de liberação de substâncias como o malathion, classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como "provável cancerígeno".

  1. A estratégia adotada pelos os governos (federal, estaduais e municipais) contra o aedes aegypti falhou? Por quê? Nós consideramos a estratégia atual falha e equivocada. O foco não deveria ser o combate químico ao mosquito. Ao instituir a guerra contra o mosquito, faz-se a guerra química também contra as pessoas expostas a esses venenos e aos trabalhadores que as aplicam. Existem sobretudo duas situações que consideramos um contrassenso sanitário: o caso do fumacê, que usa uma substância chamada malathion [malationa], considerada pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer [órgão da Organização Mundial da Saúde, OMS] como “provável cancerígeno”, e a diluição de veneno larvicida [piriproxifeno] na água potável que as pessoas vão utilizar para beber, cozinhar etc. Somos contrários a essas medidas. Consideramos que existem outros métodos mecânicos alternativos e de saneamento básico que podem ser aplicados no curto, médio e longo prazo. Outra questão importante é que as populações mais atingidas são as populações mais pobres, das periferias, onde há mais precariedade nas condições de vida e de acesso ao saneamento básico.

    "As populações mais atingidas são as populações mais pobres"

  2. Pode dar alguns exemplos de medidas mais eficazes e mais seguras para prevenção de doenças como zika, dengue e chicungunha? São várias. Há vários municípios com experiências de sucesso. Por exemplo, especificamente para locais em que se armazena água dentro dos domicílios onde as pessoas pobres não têm recipientes adequados, existe tanto a possibilidade de colocar tela quanto de fornecer tampas adequadas, e ate mesmo locais de armazenamento de menor porte, adequados para essas famílias. Isso se torna necessário, vale lembrar, porque as pessoas não têm um fornecimento de água mais adequado com continuidade e qualidade. Uma outra alternativa também importante são mutirões para que as pessoas possam colocar para fora de suas áreas domiciliares interna e externas vários tipos de lixo. Em vez de se focar na responsabilização individual das famílias em seus domicílios, [o governo deveria] utilizar a política de educação popular em saúde para resolver esses problemas de maneira definitiva.
  3. Enquanto isso, mais de 40% dos brasileiros não tem acesso a saneamento básico. O foco deveria ser este em vez de combater o mosquito vetor? Sim, deveríamos aproveitar esse momento de crise sanitária para trazer à tona o problema da reforma urbana, da desigualdade social e espacial e do saneamento básico. É preocupante que neste momento em que se fala dessas doenças e, por exemplo, não se fale no ajuste fiscal e da crise atual. Para 2016 o Ministério da Saúde terá seu orçamento cortado para o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) e para a Fundação Nacional de Saúde (Funasa).
  4. Quais substâncias químicas utilizadas pelas diferentes esferas do governo são mais inseguras para a população? Por quê? Todo inseticida é perigoso à saúde por definição. Alguns são especialmente perigosos. Por exemplo, o malathion desde março de 2015 é considerado provavelmente cancerígeno. O Ministério da Saúde adotou esse inseticida para matar mosquitos adultos em fumacê em 2014. E, apesar dessa decisão da AIRC, não houve modificação. O questionamento mais comum à crítica é: “mas a substância não foi aprovada pelas diversas agencias reguladoras?” Acontece que, por exemplo, a maioria dos critérios de aprovação se baseia em dose letal e em experiências em animais – ratos e coelhos. Ou seja, a partir dessa dose letal, os pesquisadores fazem inferências de efeitos de médio e longo prazo em seres humanos. Acontece que muitas vezes os experimentos de dose letal possuem uma serie de incertezas em relação aso efeitos crônicos de médio e longo prazo. Então pode ser que, dentro de 10, 20, 30 ou 40 anos, se descubra que essa substância atinge o nosso sistema nervoso central, causa câncer de tal e tal tipo... E isso é um processo longo, porque muitas vezes o problema tem origem multicausal, e há toda uma complexidade em estabelecer essas correlações e esses nexos. Isso faz com que muitas vezes o efeito só seja descoberto muitos anos depois. Então, por princípio de precaução, nós acreditamos que o uso dessas substâncias deva ser evitado. Da mesma maneira que a Abrasco se coloca — na medida do possível – contrária ao uso de venenos agrotóxicos na agricultura – desde 2008, o Brasil é o campeão mundial no consumo de venenos.

    "Por princípio de precaução, nós acreditamos que o uso dessas substâncias deva ser evitado"

  5. O uso contínuo dessas substâncias químicas pode gerar mosquitos mais resistentes? Provavelmente. É quase um ciclo inevitável muito conhecido na agricultura. Depois de algum tempo, a aplicação contínua de inseticidas, fungicidas etc. acaba também produzindo resistências e, com o passar do tempo, essas substâncias tornam-se mais inócuas, perdem a efetividade. Entra-se então num novo ciclo de químicos. Só que muitas vezes, o momento em que se troca de substância é justamente quando se descobrem os efeitos danosos que não haviam sido vistos inicialmente.
  6. O uso de fumacê e de outras substâncias químicas não deve ser usado nem de maneira complementar a outras medidas de combate ao aedes aegypti? Na nossa visão, essas substâncias devem ser evitadas de qualquer maneira. Claro que há casos muito particulares, muito extremos, em que esses usos se justifiquem, mas são absolutamente excepcionais. A regra deve ser o não uso do veneno. E, de qualquer maneira, nós somos radicalmente contra o uso de substâncias classificadas como provavelmente cancerígenas em espaços públicos onde circulam gestantes ou mulheres grávidas.
  7. Em sua opinião, há um "sensacionalismo" na abordagem da questão que acaba justificando a adoção de medidas inseguras de combate ao mosquito? Quando há uma situação tão complexa, com tantas incertezas como é a atual, claro que há diferentes abordagens. E muitas delas são relacionadas a interesses específicos. Muitas vezes não é simples para a população, para a mídia, seguir e acompanhar com clareza a origem das varias abordagens e suposições. Isso é um problema complexo que deve ser abordado de forma ampla. Um dos problemas que temos é que muitos especialistas analisam somente um efeito particular. Em especial, existem muitos especialistas em vigilância epidemiológica focados no extermínio do mosquito, sem considerar os efeitos dos usos do veneno. A nossa perspectiva é tentar superar a abordagem restrita em prol de uma visão mais ampla e holística. A nossa questão é que o foco não deve ser a eliminação do mosquito, mas a origem de criadouros que permitem um maior índice de infestação. Na nossa avaliação, são as mulheres mais pobres em periferias do Nordeste ou em outras áreas do Brasil que mais sofrem com esse problema. É preciso ter uma visão abrangente e, sem duvida, a questão de fundo é a do saneamento básico, do acesso à água e da desigualdade socioespacial.

    "A questão de fundo é a do saneamento básico, do acesso à água e da desigualdade socioespacial"

  8. O senhor acha que há uma falha de controle por parte dos órgãos reguladores, como a Anvisa? Nós somos muito críticos aos métodos de liberação de vários agrotóxicos. Há algum tempo, a Anvisa vem caminhando para uma postura mais voltada para a proteção da saúde. Quando isso começou, houve uma pressão politica que gerou inclusive a saída de um dos coordenadores do setor de toxicologia do órgão, o pesquisador da Fiocruz Luiz Claudio Meirelles. Existem pressões do setor industrial e do setor do agronegócio para flexibilizar a liberação de agrotóxicos em nome do crescimento do agronegócio.
  9. Há então um paralelo, uma ligação entre a indústria do agrotóxico e a que produz as substâncias químicas usadas no combate a mosquitos vetores de doenças? É claro. São as mesmas indústrias. Eu diria inclusive que as guerras químicas para enfrentamento de pragas na agricultura e contra vetores e mosquitos na saúde publica têm uma lógica muito similar. Estão interessadas em mostrar que a questão é um problema especifico de acabar com um tipo de espécie [de inseto]. A gente pode se perguntar: por que os mosquitos se proliferam tão intensamente? Existem desequilíbrios ecológicos na formação das cidades e das periferias. Quando se elimina a biodiversidade de um local para se fazer um plantio único, que é o caso dos monocultivos, por exemplo, de soja, de milho etc., se transforma uma área de biodiversidade e se forma uma espécie de mar de uma planta única. E toda a complexidade e complementaridade que a biodiversidade garante para a sobrevivência das varias espécies acaba: um organismo local prolifera e é considerado inimigo. A dependência química de agrotóxicos na agricultura industrial moderna é uma consequência da destruição desses agrossistemas e da dificuldade de lidar de outras maneiras com o conjunto dos ecossistemas.

    "As guerras químicas para enfrentamento de pragas na agricultura e contra vetores e mosquitos na saúde publica têm uma lógica muito similar

  10. Até os anos 1950, a dengue era considerada uma doença benigna, assim como a zika o era ate 2015. O agravamento dessas doenças pode ter relação com os modelos de combate ao vetor adotados pelo poder público? Essa é uma hipótese que apontamos em nossa nota técnica. É preciso fazer pesquisas nessa direção. Por exemplo, nós consideramos importante entender por que certas populações atingidas pela dengue tiveram uma sintomatologia mais grave do que outras, em outras regiões — embora o tipo de dengue fosse o mesmo. O mesmo raciocínio pode valer para a zika. Por que, em certas condições, certos sintomas são mais graves do que em outras? Nós levantamos essa hipótese, por exemplo, numa região de São Paulo onde houve um claro incremento de utilização de substâncias químicas [malathion] e o agravamento da sintomatologia da dengue. Não estamos afirmando uma relação direta, mas dizemos que é importante investigar. Afinal, existe uma possibilidade de que a exposição a substâncias químicas perigosas possam se alinhar a outros fatores no agravamento do sistema imunológico e de certos sintomas. Isso precisa ser mais bem investigado.
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Convidado

Marcelo Firpo

Pesquisador da Fiocruz e coordenador do Grupo de Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco)

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