10 Perguntas

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10 Perguntas 10 / 10 / 2016| Saulo Pereira Guimarães

“A cadeira do barbeiro é um divã”

Depois dos dançarinos de passinho, os barbeiros. Deixa na Régua, do cineasta Emílio Domingos, é um retrato do universo das barbearias das favelas e do subúrbio carioca, em cartaz no Festival do Rio. Para o diretor de A Batalha do Passinho, o registro revela a forma de ver o mundo de uma nova geração

Foto: Salão Família Duù Corte, na zona norte (Deixa na Régua/Facebook)

Duas fotos enfeitam a sala onde Emílio Domingos trabalha. Em uma delas, ele aparece ao lado de Eduardo Coutinho, um dos maiores documentaristas brasileiros, morto em 2014. A outra é um registro do velhinho Jean Rouch, cineasta, antropólogo e mentor do chamado cinema-verdade, corrente na qual a realidade das pessoas que aparecem na tela ocupa sempre o papel principal. As duas referências dizem muito do trabalho do diretor de A Batalha do Passinho, que exibe sua nova obra nesta segunda (10), às 16h, no Centro Cultural Banco do Brasil. Batizado de Deixa na Régua, o novo filme é um mergulho no mundo das barbearias das favelas e subúrbios carioca. ”As barbearias se tornaram um espaço valiosíssimo de troca de ideias. Ali, as pessoas falam tudo. A cadeira do barbeiro é um divã”, defende Emílio, que é formado em Ciências Sociais pela UFRJ. Confira a seguir os melhores momentos de um bate-papo com o diretor.

  1. Como surgiu a ideia de fazer o documentário Deixa na Régua? Quando eu estava filmando A Batalha do Passinho, tinha muita dificuldade de marcar conversa às sextas com os meninos. "Vou ao barbeiro", eles me diziam. No começo, eu até achava que era mentira. Então, decidi marcar uma das entrevistas no barbeiro. Foi ali que eu vi a importância desse personagem na vida da comunidade. Não só nas favelas, mas na Zona Norte e na Baixada, o barbeiro é uma figura central. A partir daí, fiquei com a vontade de fazer um filme que mostrasse essa relação entre barbeiros e clientes. Eles desenvolvem laços de amizade, de afetividade mesmo. Para mim, o trabalho dos barbeiros não envolve mais só a estética: é um fenômeno social. As barbearias se tornaram um espaço valiosíssimo de troca de ideias. Ali, as pessoas falam tudo. A cadeira do barbeiro é um divã.
  2. A partir daí, como foi a escolha dos personagens? O primeiro com quem eu fiz contato foi o Ed Duù Corte, por volta de agosto de 2012. Como ele era uma figura muito falada, decidi adicioná-lo no Facebook e achei que ele nem fosse me dar bola. Depois, terminei o conhecendo pessoalmente quando fui jurado de uma batalha de passinho no Morro dos Prazeres. Quando você conhece alguém como o Ed, sabe que ele vai ser seu personagem. Quando fui ao salão dele pela primeira vez, fiquei impressionado. Encontrei lá em Quintino uns 20 garotos de Bento Ribeiro, Realengo, todos os cantos do Rio. O salão abria às 9h, mas havia fila na porta desde 6h30. Tudo isso me deixou perplexo, por conta da importância e do sacrifício envolvido naquilo. Para aqueles meninos, encontrar um barbeiro que correspondesse a suas expectativas era algo muito importante. Fui em outros 10 salões para escolher os outros dois barbeiros do filme. Logo que conheci o Belo, achei que ele era muito figura. Foi numa reunião em que ele falou pouco, mas mostrou que tinha estilo e personalidade, o que despertou minha curiosidade. Mas ainda faltava um barbeiro. Eu já conhecia o Deivão dos vídeos que eu via no Facebook. Mas havia um problema: o salão dele ficava em Piabetá, a 1h30 do Rio, o que encareceria muito os custos. Conversei com o roteirista e o fotógrafo do filme, decidimos fazer mesmo assim e não nos arrependemos.

    Para uma nova geração, ir ao barbeiro é algo quase religioso

  3. O que mais lhe chamou a atenção durante as filmagens? A primeira coisa é esse alto grau de vaidade masculina. Para uma nova geração, ir ao barbeiro é algo quase religioso. Há garotos que, se não forem à barbearia, preferem nem sair, ficar em casa mesmo. O segundo ponto é o debate que a barbearia abriga sobre a realidade ao redor. Ali dentro, a conversa vai de violência à vida sexual. Existe intimidade para isso e todos opinam, embora todos sejam muito diferentes. E a terceira coisa é o fato de você não precisar ser um galã de TV para fazer um trabalho artístico que vai emocionar as pessoas. Os barbeiros fazem isso, como qualquer profissional pode fazer. O filme é extremamente inspirador nesse sentido. No fim, eu não queria parar mais de filmar para continuar vivendo isso.
  4. E que tipo de assunto se discute na barbearia? A TV morreu. Eles só falam de internet. Ninguém conversa mais sobre o jornal ou a novela. No máximo, falam sobre futebol, o filme do cinema e tal. Também discutem muito o cotidiano do próprio salão. Um cliente que leva a namorada junto vira assunto de várias conversas. Temas como violência e racismo também são discutidos. O filme não é sobre tristeza. Tem, inclusive, zoação a todo momento. "Eu não sou o Pitanguy, só vou cortar o cabelo", diz o Ed a um cliente num determinado momento. Mas a galera vai do trivial ao barra pesada muito rápido. Como diretor, eu não poderia tirar isso do filme, porque é assim que é. Mudar isso seria fazer ficção. E acho bom que eles falem sobre tudo, porque é uma forma de sensibilizar quem se acha "fora" daquela realidade. Para mim, tudo que acontece na nossa sociedade diz respeito a todos nós.
  5. Você considera que a barbearia, enquanto espaço de convivência, cumpre hoje um papel que já foi dos botecos? Concordo que botecos e barbearias têm isso em comum. E acho legal que são dois espaços autênticos, que não respeitam padronizações. Essas instituições revelam muito sobre a identidade das pessoas. Os barbeiros mais antigos provavelmente vão discordar, mas acho que os meninos do filme mantêm a tradição que os mais velhos criaram. Todos eles têm esse humor mais crítico, que é típico do carioca e que pode estar se perdendo. Isso me preocupa e também quero discutir isso com o filme.
  6. E o que Deixa na Régua tem em comum com A Batalha do Passinho? É a mesma geração. Eles têm, em comum, a preocupação de demarcar identidade. Você tem que ser autêntico, seja barbeiro ou passista. É uma afirmação sua no mundo enquanto indivíduo, você quer mostrar como é legal ser diferente. No passinho, cada um tem sua manha, seu estilo de dançar. Aquilo é o que você tem que é só seu. Acontece o mesmo com barbeiros. Há alguns que nem usam tesoura, fazem o corte todo só com máquina, por exemplo. E muito dançarino de passinho já virou barbeiro. É um negócio relativamente fácil de começar e que dá grana, embora você faça muita besteira até pegar o jeito e garantir sua freguesia.

    Quem eu quero conhecer é aquele garoto que eu mostro

  7. Você considera seus filmes têm um lado político? Acho interessante quem não considera meus filmes políticos. Porque o que eu mostro na tela também deveria ser considerado na elaboração de políticas públicas e em outras áreas. Passinho e barbeiros são temas lúdicos e, por isso, são vistos como coisas menores pelas pessoas. Mas, a partir dessa primeira camada, quem eu quero conhecer é aquele garoto que eu mostro. Considerar isso menor diz mais sobre quem pensa assim do que sobre o que eu apresento. Admiro muito o Eduardo Coutinho, embora não siga sua escola ao pé da letra. Em comum com ele, com quem até cheguei a trabalhar, eu tenho esse interesse de contar a história do outro.
  8. Que outras diretores lhe inspiram? Minha principal referência é o Jean Rouch. Não só pela estética e temática, mas pela valorização e reconhecimento dos personagens como coautores. No Deixa na Régua, os barbeiros são co-diretores. Os salões são espaços pequenos, com muito barulho, em que eu não conseguiria filmar sozinho. Foram eles que organizaram aquela "loucura" para que eu pudesse registrá-la. Eu não faço nenhuma pergunta durante o filme todo. É o tempo inteiro uma conversa entre barbeiros e clientes. Isso, inclusive, foi um risco que eu escolhi correr, porque nem sempre as pessoas estão dispostas a falar. Mas, às vezes, o silêncio também diz muita coisa. Outra influência minha que eu percebi com força nesse filme foi o Spike Lee, que eu assisti muito a vida toda.
  9. Como você migrou das ciências sociais para o cinema? Para mim, essa transição foi quase natural. Eu cursava Ciências Sociais na UFRJ e estava meio sem saber o que fazer no terceiro período quando aconteceu aqui no Rio a primeira Mostra Internacional do Filme Etnográfico, em 1993. Acompanhei de perto esse evento e me achei. Sempre amei cinema e comunicação e vi ali a possibilidade do meu trabalho dialogar com mais gente. Fiquei deslumbrado. Não é uma crítica, mas, muitas vezes, a produção acadêmica não sai da academia. E, no Brasil, o audiovisual tem mais alcance que o livro. Vi quase tudo da primeira mostra, trabalhei de novo na segunda e cheguei a ser curador de uma delas. E, desde 1997, estou no cinema. Nunca mais voltei à universidade depois de formado, mas aproveito as técnicas de trabalho de campo e a ética que aprendi nos meus filmes.
  10. Quais são seus planos para o futuro? Tenho dois projetos em andamento no momento. Um deles aborda a memória da cultura negra do Rio. O outro é sobre o universo feminino e fecha essa espécie de trilogia sobre o corpo da qual A Batalha do Passinho e o Deixa na Régua fazem parte.
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Convidado

Emílio Domingos

Cineasta e cientista social formado pela UFRJ

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