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Pensatas 10 / 09 / 2015|

A crise existencial dos jornais impressos

A ascensão da plataforma digital levou muita gente a trombetear a morte dos veículos impressos, tão onerosos. Faltou, contudo, combinar com os anunciantes. Pois, no final das contas, é o papel que continua a pagar a fatura nessa complexa equação entre impresso e digital. E enquanto não se acomodam as “placas tectônicas” sob os abalados alicerces da mídia nacional, repórteres experientes e premiados, antes disputados, ganharam a pecha de dinossauro.

A cena já fazia parte da rotina matinal à frente do número 359 da Rua Riachuelo. Mal o motorista encostava o Bentley azul na portaria da antiga sede do jornal O Dia e lá descia ele. Sempre de terno e gravata, seguia pela calçada em direção à vitrine onde todas as manhãs ficava exposta uma edição atualizada do diário. Gostava de ouvir a opinião dos leitores sobre a primeira página, sobretudo a manchete. Era o dono do jornal. Mas ali, na calçada, importante era o leitor.

Era época em que proprietário de jornal tinha orgulho de se dizer jornalista, mesmo sendo empresário. Ary Carvalho era desses. Trabalhou em redação antes de se tornar o dono de O Dia. Quando fui contratado, em 1995, pouco restava do periódico que retratava apenas o violento cotidiano da cidade. A mudança de perfil editorial foi promovida por um timaço trazido do antigo Jornal do Brasil.

Foi em O Dia que ouvi pela primeira vez o conceito de meritocracia. A palavra era repetida feito mantra pelo então vice-presidente, Fernando Portela. Executivo com origem no mercado financeiro, ele tinha apreço por números, mas também pelas letras. Portela não se limitava à retórica. Ao apresentar o projeto que tornaria coloridas todas as páginas do jornal, O Dia full color, anunciou que pagaria em dobro o valor do primeiro prêmio nacional que fosse conquistado pelo repaginado veículo. E pagou.

Em 2002 tive a honra de ter duas reportagens na final do Esso, um dos prêmios mais conceituados na imprensa brasileira. Ganhei a categoria “Reportagem Nacional” com a série “Morto sob custódia”, que levou a Polícia Federal a rever a versão que tinha divulgado sobre a morte do auxiliar de cozinha Antônio Gonçalves. O homem, suspeito da morte de um agente federal, havia sido torturado por policiais até a morte na antiga carceragem da PF, na Praça Mauá. Já a desmascarada versão oficial atribuía o crime a uma briga entre presos.

Era época em que repórteres eram disputados e valorizados pelos furos que traziam às páginas dos jornais. A gente saía da redação após o fechamento de uma edição e ia direto para o Capela, esperar pela chegada da primeira fornada, direto das rotativas. Era estimulante ver na mesa ao lado, mestres como Fritz Utzeri ou Jaguar, comentando uma reportagem exclusiva de sua lavra.

Foi numa dessas madrugadas que li o mega furo dado por Marcelo Auler, enviado especial do O Dia a Maceió (AL), para fazer a cobertura sobre misteriosa morte de Suzana Marcolino e Paulo César Farias, o tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor, em junho de 1996. Os jornalões – Folha, Estadão, Globo e JB – tinham enviado seus melhores profissionais a Alagoas, mas foi Auler, repórter especial com passagem por diversas redações, quem estampou com exclusividade na capa do jornal as fotos do casal morto na casa de praia de PC.

O histórico de furos e prêmios fazia de Auler um dos maiores salários da redação. Aos jovens repórteres, como eu, restava apostar na meritocracia. Lembro de um ano em que recebi três aumentos no Dia. Um reconhecimento raro nas novas redações digitais.

Fazer jornal impresso sempre custou caro. Rotativas e papel eram importados e invariavelmente pagos em dólar, sem falar no também oneroso sistema de distribuição às bancas. Mesmo assim, os donos da mídia lucravam e ainda lucram muito. Quanto maior a venda e, claro, o poder aquisitivo do público alcançado pelo veículo, maior era o valor do espaço em suas páginas. E O Dia chegou a vender 1,2 milhão de exemplares.

É bem verdade que a web rompeu esse equilíbrio. A mídia impressa assistiu a migração dos leitores para a nova plataforma, sobretudo, com a disseminação dos smartphones. As vendas em banca despencaram, atingindo em cheio veículos que não contavam com carteiras de assinantes, como o Dia. Não demorou e os números do Instituto Verificador de Circulação(IVC), antes alardeados, passaram a ser, digamos, anunciados furtivamente.

A ascensão da plataforma digital levou muita gente a trombetear a morte dos veículos impressos, tão onerosos. Faltou, contudo, combinar com os anunciantes. Pois, no final das contas, é o papel que continua a pagar a fatura nessa complexa equação entre impresso e digital. E enquanto não se acomodam as “placas tectônicas” sob os abalados alicerces da mídia nacional, repórteres experientes e premiados, antes disputados, ganharam a pecha de dinossauro.

O mercado pautado pelo corta e cola digital tem pouco espaço para repórteres com um contracheque próximo de dois dígitos. Muitos deles foram os escolhidos, preferencialmente, nas demissões recentes em jornais no Rio. As redações estão cada vez mais jovens. Apesar de muito exigidos, os recém formados raramente são bem remunerados. E em meio a essa crise, tão existencial quanto financeira, sofrem antigos e novos profissionais. Tão cobrados quanto desvalorizados. Basta ver a luta da categoria para conquistar um piso salarial de R$ 2,4 mil. Valor insuficiente para formar um jornalista com todos os predicados exigidos. Imagine para sustentar uma família.

E a crise econômica, sempre alardeada nas primeiras páginas, contraditoriamente foi relativizada pela Associação Nacional dos Jornais. Dez dias antes de o Globo demitir dezenas de jornalistas, a ANJ divulgou campanha informando que em 2014, as edições impressas dos jornais brasileiros não mantiveram a tendência de crescimento da circulação paga diária/média registrada em quase toda a década anterior. A queda, contudo, foi considerada pequena - de 4.393.434 exemplares, em 2013, para 4.392.567, ano passado -, diminuição observada sobretudo nas vendas avulsas. Já as assinaturas cresceram 7,5%. No período, as edições digitais apresentaram expansão de 118% (500.370) na comparação com os 228.944 registrados no ano anterior.

A paradoxal transição entre o impresso e o digital tende a aumentar ainda mais os lucros dos empresários da mídia, que não cultivam o apego dos antigos donos pelo jornalismo e, sobretudo, pelo leitor. Nessa nova composição, CEOs passam a definir as linhas editorias apenas repassadas aos editores executivos. Não demora e os aquarianos, como são conhecidos os diretores de redação, no jargão de jornalista, também serão vistos como onerosos. Dinossauros a caminho da extinção.

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Convidado

Sergio Ramalho

Jornalista investigativo com 20 anos de experiência, trabalhou em O Dia e O Globo. É vencedor do Prêmio Esso (2002).

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