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OsteRio 14 / 04 / 2015| Isabela Fraga

As dores e delícias do cinema brasileiro

O maior problema do cinema no Brasil é a falta de equilíbrio, afirmam convidados do último OsteRio, realizado na segunda-feira (13/04)

“Vivemos entre o céu e o inferno.” A frase do produtor e cineasta Wagner de Assis, diretor do blockbuster Nosso Lar, traduz bem a vivência dos profissionais de cinema no Brasil. O céu é, nas palavras da pesquisadora Lia Bahia Cesário, o fato de o setor audiovisual ter uma lei e agência reguladora próprias — coisa de que não outros setores não dispõem. O inferno é a dificuldade de manter um filme brasileiro nas salas de cinema e que o público o assista.

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Vera Zaverucha, diretora da Ancine (foto: Pedro de Souza)

Wagner e Lia estiveram ao lado de Vera Zaverucha, diretora da Agência Nacional de Cinema (Ancine), no último OsteRio, realizado na segunda-feira (13/4) na tradicional Osteria Dell’Angolo, em Ipanema.

Num momento em que o Ministério da Cultura examina mudanças nas leis de incentivo, os palestrantes discutiram a estrutura do financiamento para o audiovisual brasileiro. As leis devem mudar? Quais são as alternativas consideradas? Como evitar que apenas nomes estabelecidos no audiovisual brasileiro sejam apoiados?

Desequilíbrio em cena
Ao explicar o funcionamento da Ancine e a estrutura dos financiamentos diretos e indiretos (ou seja, por leis de incentivo) ao audiovisual brasileiro, Vera enfatizou que o maior problema do cinema nacional é a disparidade entre os cerca de 100 filme brasileiros lançados por ano e sua exibição nas três mil salas de cinema.

"A grande questão é que cinco ou seis filmes fazem 80% da bilheteria [anual]. O restante não consegue mais de cem mil espectadores — sobretudo os documentários, que têm um público mais restrito", explicou Vera. A concorrência no mercado cinematográfico é outro fato: segundo a diretora da Ancine, não é raro que dois filmes ocupem 70% das salas de cinema brasileiras.

Para Wagner, esse desequilíbrio no mercado, somado à competição com blockbusters americanos, torna essencial o fomento do Estado ao setor audiovisual. Ainda assim, o financiamento é complexo.

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Wagner de Assis, produtor e cineasta (foto: Pedro de Souza)

"Quando você produtor vai ao governo pedir fomento para uma obra, fica completamente preso ao sucesso ou fracasso daquela obra. O fundamental é a periodicidade. Se eu demorar cinco anos para produzir um longa-metragem, não dá certo. O governo é o único esteio", descreve o cineasta.

Para ajudar nessa distribuição de ’equilíbrio’, Lia sugeriu que os editais foquem não apenas na produção dos filmes, mas também a distribuição e a exibição. "Não é só a produção que gera indústria, é necessário também distribuir e exibir."

Na esfera estadual, Lia, que também é funcionária da Secretaria de Estado de Cultura, mencionou o programa Cinema para Todos. Por três edições, o projeto distribuiu ingressos de cinema para estudantes de escolas estaduais. "Investir em financiamento é também investir na formação de público", opinou a pesquisadora.

Séries e minisséries: nicho de mercado para o audiovisual brasileiro
Os três convidados concordaram que a lei nº 12.485, de 2011 foi fundamental para o avanço da indústria audiovisual do país. Conhecido como ’lei da TV paga’, o projeto — entre outras coisas — regulamenta e cria cotas para produtos nacionais na programação dos canais fechados.

Segundo Vera, entre 2012 e 2013, a quantidade de licenciamentos de produtos audiovisuais brasileiros triplicou. "O número de horas de produções brasileiras na TV fechada também aumentou: nos 14 canais que a Ancine monitora, esse número saltou de 2.000 para 4.000 horas de um ano para o outro."

Para Wagner, a diversidade de produtos desencadeada pela lei da TV paga é fundamental. "O mercado tem que viver dessa pluralidade, de gêneros diferentes, de espaço de exibição", opinou ele. Lia fez coro: "[Essa lei] foi um ganho muito grande para o setor. Acho que não existe indústria do cinema no Brasil se não for integrada com a televisão."

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Lia Bahia Cesário, pesquisadora (foto: Pedro de Souza)

Brasil versus resto do mundo
No momento das perguntas da plateia, a comparação do cinema brasileiro com o de outros países foi levantada mais de uma vez. "O maior inimigo do cinema nacional são os Estados Unidos", provocou Wagner. Vera explicou: "O cinema americano se paga em seu próprio país, o resto do mundo é lucro para ele. É uma concorrência muito estruturada e ocupa muitas salas de cinema no Brasil. O cinema brasileiro não consegue concorrer." A informação de Wagner completou o cenário: "Em 2015, há títulos americanos escalados ate 2019 nas salas de cinema do país."

Rebatendo as críticas sobre a dependência do Estado, Lia explicou que "todos os países, com exceção dos Estados Unidos e da Índia, têm leis específicas para o cinema." O cinema argentino, sempre tão comparado ao brasileiro, teria outro modelo de financiamento, com diversas coproduções internacionais.

Com todos os problemas graves na estrutura de financiamento do cinema brasileiro, ficou claro que houve muito avanço nos últimos anos. Principalmente porque, como lembrou Vera, a indústria audiovisual nacional já passou por "três extinções": a Embrafilme, a Fundação do Cinema Brasileiro (FCB) e o Conselho Nacional de Cinema (Concine), todos extintos no governo Collor, em 1990.

"No ano de 1990, o Brasil não lançou nenhum filme nacional. Agora, lançamos 100 por ano. Nesse cenário, construir uma indústria é muito complicado", concluiu Vera.

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