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OsteRio 10 / 07 / 2015| Julia Meneses

As escolas de samba perdem, os blocos herdam

Debate sobre o carnaval carioca destaca a necessidade de reinvenção do carnaval na Sapucaí, com críticas à gestão e ao patrocínio de enredos das escolas de samba. Enquanto os grandiosos desfiles perdem público e patrocinadores, os blocos de rua já atraem cerca de 6 milhões de pessoas por ano

Uma das festas mais importantes e conhecidas pelo mundo inteiro, o carnaval carioca está numa encruzilhada: de um lado, o festejo na Sapucaí perde patrocinadores e interesse do público; de outro, o sucesso dos blocos de rua se tornou um desafio para a cidade, que precisa buscar meios de gerir e sustentar a festa popular. Entre contradições e polêmicas; crescimento e demanda, "o que queremos dessa festa?", indagou a jornalista Flávia Oliveira, no último OsteRio, realizado no dia 8 de julho. O debate também teve a presença de Rita Fernandes, presidente da associação de blocos de rua Sebastiana e Felipe Ferreira, coordenador do Centro de Referência do Carnaval, da UERJ.

O polêmico e vitorioso enredo da Beija-Flor ’abriu alas’ para um novo debate sobre as contradições dessa festa, segundo Flávia Oliveira. Fã da escola de Nilópolis, a colunista do jornal O Globo afirmou que as escolas de samba estão em um momento de reavaliação e apontou a necessidade de uma reinvenção na Sapucaí. A começar pela má administração das agremiações, ainda dominadas por grupos ligados à contravenção, os ’famosos bicheiros’. A presença dos patronos já não é tão bem aceita e tem afastado apoiadores do desfile. "As transformações na gestão das empresas fizeram crescer a preocupação com a responsabilidade social. Vimos patrocinadores históricos saindo da Sapucaí, disse a jornalista.

As escolas também sofrem com dificuldades relacionadas às regras do desfile, que impedem variadas formas de publicidade. O resultado é que, para financiar uma festa cada vez mais luxuosa, as escolas recorrem a enredos patrocinados, do iogurte a municípios como Campos e países como Angola. "Ao mesmo tempo em que o controle do merchandising é rígido, temos enredos de aluguel", refletiu a jornalista. A consequência é uma crise criativa e o crescente desinteresse do próprio público pelos desfiles, completou.

Ao mesmo tempo, em que o controle do merchandising é rígido, temos enredos de aluguel - Flávia Oliveira

Enquanto o desfile do Sambódromo perde o interesse da população, o carnaval de rua do Rio de Janeiro vem crescendo de forma impressionante por todos os cantos da cidade. Hoje, os 466 blocos oficializados - e mais 50 extraoficiais - já movimentam cerca de 6 milhões de pessoas no Rio, segundo a presidente da associação de blocos de rua Sebastiana, Rita Fernandes. Dois momentos foram fundamentais para esse ’boom’, de acordo com Rita, também jornalista e uma das fundadoras do bloco ’Imprensa Que eu Gamo’.

Depois de uma fase de esvaziamento, quebrada por grupos resistentes como a Banda de Ipanema, o carnaval teve o primeiro boom por volta de 2004, quando começa a retomada das rodas de samba, choro e jongo pelo Centro da cidade do Rio de Janeiro. Foram os músicos envolvidos neste movimento que fizeram proliferar os blocos de rua. Outro fator destacado por Rita foi a cobertura da grande mídia, a partir de 2008, ajudando a divulgar os blocos e "ditar modas".

Depois da Banda de Ipanema e do Simpatia é Quase Amor, o "Monobloco e o Bangalafumenga, com suas novas escolas de percussão, trouxeram uma juventude impressionante para o movimento". Hoje, os blocos reúnem uma grande diversidade de grupos e ritmos: de fanfarra, temáticos... Ou seja, as ruas foram tomadas pelo povo de novo", lembra Rita Fernandes, sobre o enfraquecimento da movimentação nas ruas durante a ditadura militar. Ela lembrou o primeiro desfile do Bloco de Segunda, em 1987, no dia 7 de setembro, dia da independência e famoso pela marchas militares.

Mesma origem, novas disputas

Coordenador do Centro de Referência do Carnaval (UERJ), Felipe Ferreira, relacionou os blocos de rua e os desfiles das escolas de samba. "Parecem duas coisas isoladas, mas não são. O que está acontecendo agora é uma nova expressão de algo que já ocorreu antes. O carnaval do Sambódromo já foi um carnaval de rua", explicou o coordenador.

Felipe lembrou que, durante o final do século XIX e começo do XX, uma série de grupos, parecidos com os atuais blocos, se reuniram para festejar num local popular na época: a Praça Onze. Em contraste com o já conhecido desfile na Avenida Rio Branco e seus ranchos carnavalescos, esses grupos até mesmo se enfrentavam pela disputa do território. Hoje, comparou, a disputa continua, seja nas notas dadas à Sapucaí, às trocas cada vez mais constantes do local de alguns blocos de rua, mencionados por Rita Fernandes. Da Gávea à Presidente Vargas, o Monobloco já passou por Copacabana e Avenida Rio Branco.

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Os palestrantes e a mediadora Anabela Paiva (Foto: Pedro de Souza)

Daqueles grupos que reuniam e desfilavam em vários bairros da cidade nascem as escolas de samba, também junto ao novo samba de batuque. Incorporando diversos interesses vindos de atores diversos e, principalmente dos intelectuais da época, nasce o samba como essência cultural, ganhando status de identidade nacional, explicou o professor do Instituto de Artes da UERJ.

"Mas, a partir desse momento, as escolas vão se destacar e o processo de disputa volta a acontecer", disse Felipe. De olho na grandiosa festa, vários atores entram em conflito e "alguns atores passaram a ter mais poderes do que outros", critica ele, citando o monopólio da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, a Liesa, por exemplo. "Hoje, a televisão até dita os horários dos desfiles. A transmissão é chata e afasta as pessoas", disse ele, concordando com comentários da plateia.

Com 500 blocos, temos um impacto imenso na vida das pessoas. A rua é livre, mas alguém precisa regular - Rita Fernandes

Parte do público também comentou os efeitos da passagem dos blocos pela cidade. Moradora de Ipanema, a jornalista Julia Michaels se disse chocada com a quantidade de lixo deixada nas ruas. "O carnaval é um espaço de disputa: pelo poder e espaço. Mas de quem é a rua?", perguntou Felipe Ferreira.

Rita Fernandes concordou sobre a necessidade de discutir o direito sobre a cidade: "Como trabalhamos junto com o poder público? Com 500 blocos, temos um impacto imenso na vida das pessoas. A rua é livre, mas alguém precisa regular". A presidente da Sebastiana acha que o Rio de Janeiro ainda não apoia o carnaval, ainda que a festa resulte em ocupação de 98% dos hotéis. Os blocos não contam com qualquer subsídio governamental e o patrocínio da fabricante de bebidas Ambev se destina apenas a despesas de infra-estrutura, como o pagamento de agentes de trânsito e banqueiros químicos. "Todo país valoriza o que tem de melhor. Por que não fazemos isso também? O governo do estado não entrou de verdade no carnaval como deveria ter entrado", criticou Rita.

Para os três convidados, a saída está em uma maior intervenção do poder público e na realização de novas formas de diálogo e mediação. Expandir o debate e chamar novos atores para o diálogo também é essencial para o desenvolvimento de uma das festas mais conhecidas no mundo.

Alguns perdem, outros ganham. Mas todos enfrentam problemas

Certo é que, entre dificuldades de patrocínio e conflitos pelo uso da rua, os blocos são o veículo do chamado espírito folião, que parece cada vez mais distante do desfile da Sapucaí. O professor Felipe Ferreira diz que as escolas de samba precisam aprender mais sobre espontaneidade com o carnaval de rua. Para ele, os atores que deixaram o Sambódromo foram esses blocos que "são lindos e tem vigor. As escolas de samba deviam ter a humildade de reconhecer isso e aprender um pouco com os blocos", salientou o coordenador do Centro de Referência do Carnaval.

Amante da Sapucaí, Flávia Oliveira descreveu emocionada a sensação de desfilar, mas não foge da discussão da festa como atividade econômica: "O carnaval define muito a alma do carioca, mas também tem muito a ver com indústria cultural e geração de trabalho e renda", lembrou a colunista do O Globo. Para Flávia, "o carnaval podia ser a nossa Las Vegas durante todo o ano", criando empregos, renda e favorecendo a qualificação profissional.

"O barracão é um ambiente muito acolhedor do ponto de vista do mercado de trabalho. Já pensou viver daquilo que se ama? E hoje, não se tem carteira assinada e nenhuma preocupação com o desenvolvimento local", ponderou a jornalista. A comentarista da Globo News ainda elencou algumas soluções, como mudar o regulamento da festa, ou seja, deixar mais flexíveis as regras de patrocínio, e estimular a criatividade.

"Eu queria que o carnaval desse mais dignidade a esse povo que vive e produz essa festa e traga algo além da alegria e do batuque para cidade do Rio. Ver essa desidratação é muito triste, tanto pelas nossas tradições históricas e culturais, como pela perda de geração de trabalho de renda", concluiu a jornalista.


Assista aos melhores momentos do debate:

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Convidados

Flávia Oliveira

Colunista do jornal O Globo e comentarista da Globonews.

Felipe Ferreira

Coordenador do Centro de Referência do Carnaval e professor do Instituto de Artes da UERJ

Rita Fernandes

Presidente da associação de blocos de rua Sebastiana e colunista do jornal O Dia.

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