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Burburinho 5 / 11 / 2015| André Costa

Boaventura revisita Pasárgada

Sociólogo português Boaventura de Sousa Santos retorna ao Jacarezinho, comunidade que estudou na década de 1970, em período de intensa agitação política e social. Favela homenageia antigo líder comunitário [Foto: Edimilson da Silva].

Pasárgada, a terra onde Manuel Bandeira era amigo do rei, foi também o nome que o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos usou para ocultar a identidade da favela do Jacarezinho em sua tese de doutorado. O estudo foi escrito nos primeiros anos da década de 1970, época em que a comunidade vivia uma intensa atividade política de esquerda, e o pesquisador valeu-se do termo criado por Bandeira para proteger a mesma dos órgãos de repressão.

No último sábado (31/10), Boaventura voltou a Pasárgada com dois objetivos: devolver à comunidade o livro que escreveu a partir do tempo que passou ali, com lançamento (a obra só foi publicada em português em 2014) e sessão de autógrafos, e repetir um costume praticado durante a sua estadia de três meses em 1970 — tomar cerveja e conversar com moradores, mais propriamente ouvindo do que falando.

"O Direito dos Oprimidos" (Editora Cortez), como a tese foi chamada, é uma análise sociológica do direito informal na favela do Jacarezinho. Ao lado do direito estatal, defende o livro, as relações na favela são reguladas por "um sistema jurídico não oficial, relativamente autônomo" de prevenção e resolução de litígios.

Boaventura, o mais renomado sociólogo português contemporâneo, foi parar no Jacarezinho por seu interesse em estudar uma favela grande e com forte presença operária. Antes de chegar até lá, cogitara se instalar na Maré, de onde foi expulso ao declarar a um líder comunitário que pretendia realizar "uma investigação" no local — o homem achou que o estudioso era informante da polícia.

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Irineu Guimarães, Congresso da Federação das Favelas do Estado da Guanabara, 1968 [Autor desconhecido].

Na época, indústrias de sapatos, materiais farmacêuticos, vidros, roupas, metalurgia, entre outros, geravam cerca de 40 mil empregos na região do Jacarezinho, contingente em larga medida abastecido por moradores da região. A principal fonte de Boaventura foi o líder comunitário Irineu Guimarães, sapateiro e "comunista convicto", nas palavras do pesquisador.

"Era um homem absolutamente humilde, que dizia coisas maravilhosas sobre a cidade, mas sem se obstruir. Ele é que me entrevistava, queria saber como era tudo em Portugal. E à medida que ganhamos confiança, fazia-me perguntas políticas diretas: mas tu achas que é possível o socialismo? Achas que uma vez vamos dar cabo do capitalismo? Achas que as classes são o único critério? E aqui o racismo no Brasil, a questão negra?", contou, em entrevista realizada no sábado.

Boaventura disse que, à época, acreditava que a luta política deveria se concentrar no restabelecimento da democracia, o que não o impedia, contudo, de admirar intensamente o interlocutor: seu livro é dedicado a Irineu. A obra inclui, além do estudo do doutorado, uma entrevista de 2012 com o líder comunitário, realizada meses antes da morte deste, e um ensaio de reflexões pessoais do autor sobre sua pesquisa de campo.

O lançamento sábado, realizado na escola de samba da comunidade, também contou com uma homenagem a Irineu, que foi três vezes presidente da Associação de Moradores. O evento teve a participação de antigos companheiros de militância e uma exposição de fotos da década de 1970.

Um destes antigos companheiros é Milton Gomes, que conheceu Irineu em 1974. Os dois eram parceiros no trabalho comunitário no Jacarezinho e na Federação das Associações de Favelas do Estado do Rio de Janeiro (Faferj), organização à qual ainda é próximo.

"Na época, mesmo com quase um milhão de pessoas vivendo em comunidades, os governos achavam que não tinham de ajudar as favelas, porque elas não pagavam impostos. O Jacarezinho era cheio de barracos de madeira e papelão, e havia uma lei que proibia que se mudasse para alvenaria. Nós criamos uma proposta na Federação para poder construir com alvenaria, e ela foi aprovada", contou, em entrevista por telefone.

Segundo Milton, o Jacarezinho "teve progresso muito grande na época. O Irineu mobilizava a comunidade para cobrar das autoridades: convocava assembleias e discutíamos água, esgoto, fornecimento de energia elétrica. Até a entrada de Irineu na Associação de Moradores, a distribuição de energia era feita através de pontos de luz: um conseguia um ponto, distribuía para cem casas, outro conseguia outro ponto, levava para mais cem casas. Então criamos uma comissão geral, e conseguimos levar para toda a comunidade", disse.

No evento sábado, além da recordação de outras atividades realizadas no período – oferecimento de serviços médicos comunitários, promoção de cineclubes, realização de eleições locais – foram lembrados também momentos dolorosos vividos sob a ditadura.

Uma das mais tristes dessas lembranças foi narrada por Boaventura. Em 1974, após ter concluído o doutorado em Yale, o pesquisador voltou ao Jacarezinho, para compartilhar o resultado de seu estudo e conversar sobre política. Segundo o sociólogo, três dias após uma reunião na comunidade, alguns de seus participantes foram presos. O sociólogo soube, mais tarde, que haviam sido torturados.

Aspectos de Pasárgada
A real identidade de Pasárgada foi mantida em segredo, de acordo com Boaventura, até 2005, quando, visitando a favela, ele contou a uma rádio local que a terra idílica, afinal, era o Jacarezinho. “Produziu-se então um grande alarido na rádio. O homem disse que costumavam vir pesquisadores americanos ou alemães querendo saber se Pasárgada era o Jacarezinho, e ali estava desfeito o mistério”, disse.

Questionado por que, num cenário sombrio como o vivido na década de 1970, escolher “Pasárgada” – provavelmente a mais famosa utopia da literatura brasileira – para alcunha de disfarce, Boaventura afirmou que percebia na comunidade politizada uma espécie de utopia.

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Associação de moradores, 1977 [Autor desconhecido, http://jacarezinhorj.blogspot.com.br/].

“Não era um paraíso, mas era uma utopia. ‘Quero ir para Pasárgada, em Pasárgada sou rei’ (sic). Isso é bonito, porque aqui considerava-me rei, de alguma maneira. Não era rei de nada. Mas senti-me bem acolhido por uma população que viu que estávamos em uma luta comum, contra a injustiça, em condições muito difíceis. A minha luta era em Portugal, mas nossa luta era comum, contra a ditadura, pela democracia. O que quis dizer é que este é um lugar que podia ser um lugar ideal de viver se estivéssemos em uma sociedade melhor que esta”.

Sua rotina na época ajuda a entender também como o Jacarezinho de então pode ter lhe sido tão agradável: “Jogava, ia à sinuca, tomava cachaça. Punha-me a conversar e a coisa fluía”, disse. “E aí fora havia uma briga de galo que era uma maravilha. Tomávamos umas cervejas e tal. Agora somos ecológicos, contra a violência contra os animais... naquela época eu dava tudo, por uma brigazinha de galo”.

Apesar de tudo indicar que as brigas de galo pertencem ao passado no Jacarezinho (ou ao menos um morador de cerca de 35 anos disse que nunca viu nada parecido acontecendo por ali), parte do caráter boêmio da comunidade ainda perdura, com uma profusão de bares e botequins.

Um deles acolheu Boaventura e uma volumosa comitiva no sábado depois do lançamento, que incluía, além deste repórter, duas equipes de filmagem, pesquisadores, outros jornalistas e moradores.

A despeito da permanência da cultura de botequim, muita coisa mudou na favela desde 1970, desde o fechamento de várias indústrias à desmobilização do movimento comunitário, questões de certa maneira interconectadas, e que se relacionam ainda ao crescimento do tráfico de drogas e da violência.

Moradores afirmaram que, devido a pressões ligadas ao crime, até mesmo Irineu se afastou da Associação de Moradores em meados da década de 1990, tendo continuado a fazer trabalho comunitário, mas ligado à Igreja.

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Boaventura conversa com Mauro de Paula, autor do próximo samba-enredo da Unidos do Jacarezinho.

Segundo Boaventura, a desorganização do movimento comunitário no Jacarezinho foi a pior das mudanças entre o Jacarezinho de ontem e o de hoje. “Dantes, como não havia o problema do narcotráfico e havia eleições, as lideranças comunitárias eram muito mais fortes. Isso foi o que mais mudou. Pouca gente apercebeu-se disso, mas o lugar mais democrático no Brasil durante a ditadura eram as favelas, porque havia eleições. Havia discussão, havia debate. Eu tinha mais discussões aqui do que nos fins de semana, quando visitava amigos em Copacabana”, afirmou.

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