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Rio, 451 anos 1 / 03 / 2016| Isabela Fraga Saulo Pereira Guimarães

Cinco visões sobre o futuro do Rio

Como será o amanhã? No aniversário de 451 anos do Rio de Janeiro, Vozerio conversou com especialistas em economia, saúde, cultura e outras áreas para ouvir suas expectativas em relação ao futuro da cidade. Numa metrópole em transformação, os entrevistados apontam tendências e esboçam cenários possíveis para os próximos anos.

Foto: Museu do Amanhã, na Zona Portuária (Porto Maravilha/Divulgação)

Thereza Lobo, socióloga e diretora do Rio Como Vamos

Há questões-chave para se entender o futuro do Rio. Em educação, houve um aumento no número de vagas nas creches e na pré-escola. Entretanto, ainda há alunos atrasados em relação à série em que deveriam estar. Já mobilidade é um tema no qual os cidadãos prestam atenção e as autoridades investem pesado. A expectativa é de que os serviços melhorem, até porque é difícil que fiquem pior do que estão. Na saúde, a porcentagem da população atendida por UPAs, clínicas da família e outras unidades pulou de 4% para 60% nos últimos anos. Mas o maior acesso não significou mais qualidade. Em segurança, houve avanços, como a redução dos números totais de criminalidade. Porém, o aumento dos roubos de rua e de carros desde 2014 preocupa. Quanto mais acesso as pessoas tiverem aos serviços, mais exigências elas farão em relação à qualidade. Essas demandas devem aumentar cada vez mais. Mesmo com a crise, a gente não pode perder a esperança de que as coisas vão melhorar.

Alberto Mussa, escritor

Os divertimentos populares estão acabando. O caso do Maracanã é escandaloso. Já se sabia que o estádio seria palco dos jogos olímpicos há seis anos e a reforma feita para a Copa não serve para as Olimpíadas. A questão não é só o gasto público, mas o prejuízo para o divertimento popular. O novo Maracanã é um crime equiparável à destruição do Morro do Castelo. O Estado tinha de permitir que pessoas assistissem aos jogos na geral. O mesmo fenômeno acontece no Sambódromo. Você vê uma política de vendas e ocupação dos espaços também equivocada. Deveria haver uma política para que públicos de menor renda pudessem assistir nas arquibancadas a preços mais baixos. Não vejo muito futuro para o divertimento popular.

Quanto às transformações urbanas (pelas quais a cidade tem passado), há algumas coisas interessantes, desde que elas não afetem as populações dos lugares onde são realizadas. A gente percebe que certas modificações na área do Valongo tendem a criar uma valorização meio absurda dos imóveis e acabam dificultando a vida de quem vive de aluguel. Mas várias transformações viárias são positivas e também a recuperação de algumas partes das cidade, como a Praça XV, o Museu de Arte do Rio, etc. Agora, eu acho que essas intervenções não deveriam estar vinculadas às Olimpíadas. Deveria ser um projeto de cidade. Porque, daqui a pouco, acabam os eventos no Rio e você não tem mais nada.

Binho Cultura, escritor e criador da Flizo - Festa Literária da Zona Oeste

Acho que vai ser importante para o futuro da cidade o investimento pesado que a Prefeitura tem feito em cultura. O Rio é hoje a cidade do Brasil que mais gasta com isso e acredito que toda essa mobilização vai se refletir em novas gerações mais informadas e intelectualmente desenvolvidas.

Entretanto, precisamos do estado presente nos subúrbios e favelas não só por meio da secretaria de Segurança, mas de outros órgãos também. Enquanto houver mais PMs do que agentes educacionais nessas regiões, não vamos ter desenvolvimento urbano real. Desse jeito, não vai adiantar nada construir novos museus. Precisamos de uma polícia que respeite os cidadãos e atue com inteligência. E precisamos que o Estado dialogue mais com as lideranças das comunidades.

Essa é a única forma de projetos como a Polícia de Proximidade darem certo no Rio. Para mim, o grande erro de muitas UPPs foi não ter levado isso em conta. Outro ponto que foi desconsiderado é que cada favela é uma favela. As comunidades têm diferenças entre si. Na minha visão, esse diálogo entre moradores e autoridades vai prevalecer no futuro porque é a única saída. O governo hoje já fala mais com a gente do que no passado e vemos os resultados disso, como o investimento de 60% do orçamento de cultura nas Zonas Norte e Oeste. Seja no nível municipal, estadual ou federal, governar no futuro só será possível por meio do diálogo.

José Márcio Camargo, economista e professor da PUC

A cidade recebeu grandes investimentos em infraestrutura e mobilidade. O principal legado das olimpíadas será nessa última área. Metrô, VLT e BRTs são serviços que os cariocas aproveitarão por décadas. O boom de commodities e o aumento no preço do petróleo nos últimos anos foram positivos para o Estado e para a cidade. O problema é que agora teremos um futuro complicado. 2015 já foi um ano difícil, com queda no preço do petróleo e crise na Petrobrás. Após a Rio 2016, os investimentos devem diminuir e a cidade deve sofrer mais com o desemprego.

O Rio ganharia muito se a Baía de Guanabara pudesse ser mais explorada. O Estado perdeu uma grande oportunidade de conseguir recursos para limpá-la com as Olimpíadas. Limpa, ela atrairia para o Rio uma mão de obra mais qualificada, que valoriza o bem-estar e aceita receber menos em troca de mais qualidade de vida. É um ativo ambiental precioso que poderia servir de alavanca para a economia. Agora, será preciso que tenhamos novas ideias para atrair capital para a cidade.

Nelson Nahom, vice-presidente do Cremerj

O principal destaque em saúde no Rio nos últimos anos é a expansão da rede de atenção primária do município. Ainda não é o ideal, mas houve um aumento substancial no número de UPAs, clínicas da família e outras unidades. E atenção primária é fundamental. Mas temos muito problemas a resolver.

O Rio é a cidade com a maior rede de hospitais federais do Brasil. Também temos um grande número de unidades estaduais e municipais. Mas isso não tem reduzido os problemas de atendimento. O melhor exemplo disso é o fato dos sistemas do município, estado e do governo federal não conversarem entre si. Há um déficit no número de leitos de CTI para adultos na cidade, por exemplo, que poderia ser sanado se isso fosse melhor resolvido. Falta dinheiro, mas falta principalmente gestão na saúde carioca.

Não estamos otimistas em relação à saúde na cidade hoje. A prefeitura não dá sinais de que vai mudar sua política atual em relação à gestão de unidades hospitalares. E a privatização delas tem oferecido resultados desastrosos. A situação é muito preocupante.

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