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Burburinho 17 / 05 / 2016| Isabela Fraga

Criador do Hotel da Loucura, programa de saúde mental da Prefeitura do Rio, é exonerado

Fundador de ala psiquiátrica chamada de "Hotel da Loucura" no Instituto Nise da Silveira, o psiquiatra Vitor Pordeus classifica a medida como "ataque político"; secretaria argumenta que o médico "quebrou o vínculo" com órgão e pacientes ao aceitar proposta de realizar doutorado no Canadá.

Foi por meio de uma amiga que o médico psiquiatra Vitor Pordeus descobriu ter sido exonerado do cargo de diretor do Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde (NCCS) e do Hotel da Loucura, fundados por ele no Instituto Nise da Silveira, no Engenho de Dentro, em 2011. A notícia foi publicada no Diário Oficial do município em 11 de maio, mas Vitor só ficou sabendo nesta segunda-feira (16/5).

Ele está em Montreal, no Canadá, realizando sua pesquisa de doutorado sobre a experiência do Hotel da Loucura na Universidade McGill. A demissão do psiquiatra gerou dezenas manifestações de apoio a Vitor nas redes sociais, como do historiador Luiz Antonio Simas e do deputado federal Jean Willys (veja abaixo).

O Hotel da Loucura é uma ala psiquiátrica do Instituto Nise da Silveira que utiliza manifestações artísticas como forma de tratamento de pacientes e oferece estadia para médicos, artistas e outros interessados passarem a noite no local. A iniciativa é inspirada nos trabalhos da psiquiatra Nise da Silveira, pioneira na utilização de pintura e escultura no tratamento dos pacientes do então Centro Psiquiátrico Pedro II, hoje renomeado para homenagear a médica. Nos últimos anos, o Hotel da Loucura foi objeto de reportagens de diversos jornais nacionais e estrangeiros, como a BBC.


Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o motivo para a demissão foi "o fato de [Pordeus] estar residindo no Canadá". "A alteração na coordenação das atividades do NCCS se deu após o afastamento, sem comunicação ou pedido oficial do profissional, que era contratado para cargo de dedicação exclusiva com 40 horas de trabalho semanais. Ao se mudar para outro país, o profissional quebrou o vínculo com a secretaria e seus pacientes", afirmou a secretaria em nota.

Já Vitor conta uma história diferente. "É uma desculpa burocrática usada por um secretário que esperou a crise política para agir, achando que ninguém notaria", afirma o psiquiatra, acrescentando que "a inimizade política do secretário por mim é declarada". Ele conta que teve o salário reduzido em 80% após a nomeação do atual secretário municipal de saúde, Daniel Soranz, em agosto de 2014. De cerca de R$ 8 mil, Vitor passou a receber R$ 1.900 líquidos, no cargo comissionado de coordenador fundador do Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde.

"Falei por telefone com o próprio secretário [sobre a redução], e estaria morto de fome se tivesse esperado pela palavra dele. Ele disse que ia ver minha situação e me ajudar", conta Vitor. Ele também diz ter consultado a subsecretaria de gestão, que o aconselhou "a deixar rolar a situação burocrática."

Inicialmente, a SMS negou ter reduzido salários de servidores. Interpelada sobre a redução no contracheque de Vitor, a assessoria de imprensa do órgão negou-se a enviar uma resposta por escrito. Por telefone, informou que houve uma "redução de gratificação devido ao não cumprimento de atribuições". A redução no contracheque ocorreu no mês seguinte à troca de secretários em 2014. A assessoria de imprensa da SMS informou que o secretário não estava disponível para entrevista.

Segundo o psiquiatra, ao aceitar realizar o doutorado no Canadá, não deixou de cumprir sua função no Instituto Nise da Silveira. "Mantenho contato regular e supervisão mesmo a distância. Eles querem falar sem saber quem eu sou e o que é o trabalho", desabafa Vitor. "A desculpa burocrática é desculpa política. Eu tive meu meio de subsistência reduzido, consegui uma oportunidade e toquei minha vida", desabafa o psiquiatra, acrescentando que vem ao Brasil regularmente.

Em seu perfil no Facebook, Vitor afirmou que, desde maio de 2015 até agora, "retornei 3 vezes, julho de 2015, setembro de 2015 e março de 2016, falo todos os dias com minha equipe e meus pacientes pela internet, o trabalho nunca esteve tão bem e tão forte."

A SMS afirma que o trabalho do Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde no Instituto Nise da Silveira não acabará, tampouco o Hotel da Loucura. O novo diretor — o fotógrafo Marcelo Gonçalves Moura Valle "ocupará o cargo reforçando as atividades e coordenando os projetos presencialmente, sem qualquer redução das atividades", reforça a SMS. Uma promessa que certamente será acompanhada pelos profissionais da área.

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