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Política de drogas 18 / 05 / 2015| Isabela Fraga

Da proibição nasce a dúvida

O que pensam motoristas de ônibus, cobradores e passageiros sobre a campanha ’Da proibição nasce o tráfico’, que circulou por um mês no Rio em busdoors de 43 linhas

Terminou neste final de semana a temporada carioca da campanha ‘Da Proibição Nasce o Tráfico’, que circulou nos ônibus da cidade desde 20 de abril na ação lançada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC). Com busdoors ilustrados por cartunistas brasileiros, a ideia era promover o debate sobre a política de drogas no Brasil. A partir do dia 26 de maio, serão os ônibus paulistanos que circularão com os cartuns provocadores de Laerte, Angeli, Andre Dahmer, Leonardo e Arnaldo Branco, ao lado de frases como “Drogas: quem manda na sua opinião” e “A guerra às drogas não funcionou”.

Ao longo deste mês da campanha no Rio de Janeiro, as 43 linhas de ônibus que circularam pela Zona Norte, Zona Sul e outras regiões da cidade provocaram dúvida, polêmica e reflexão. Foi o que constatou o Vozerio durante uma tarde em que passou no terminal de ônibus da rodoviária Novo Rio, ponto final das linhas 128 e 181, que exibiam cartuns da campanha.

Nós conversamos com motoristas, cobradores e passageiros para entender algumas visões possíveis sobre a campanha — e sobre a descriminalização das drogas de maneira geral.

“Cada um é dono do seu nariz. É isso, né?”, comentou o motorista Fabiano Medeiros, 37 anos, quando perguntamos o que ele entendia do cartum de Leonardo (acima), exibido pelo ônibus da linha 128 que estava parado à sua frente. Quando perguntamos o que Fabiano achava da descriminalização das drogas, ele foi enfático: “Não tem que legalizar, não.”

Questionado sobre o que aconteceria caso a maconha fosse descriminalizada, contudo, o motorista admitiu que o negócio “se tornaria menos lucrativo para muita gente”. Mas e o cigarro e o álcool, que também são drogas, deveriam ser proibidos? “Na minha opinião, sim. Acredito muito na palavra de Deus”, disse o motorista.

As respostas de Fabiano foram tímidas, assim como as de quase todos os entrevistados que abordamos num primeiro momento — um deles inclusive comentou, baixinho: "Esse negócio de drogas não dá para falar muito, né?".

Os comentários do motorista também ilustram alguns resultados da pesquisa realizada pelo próprio CESeC sobre a percepção das pessoas para a questão. Eles mostraram uma população conservadora, que é contra a legalização das drogas e ainda quer a proibição do tabaco e do álcool, mas que ao mesmo tempo vê muitos malefícios no combate ao consumo. A pesquisa teve uma vertente qualitativa, com análise de treze grupos focais; e outra vertente quantitativa, na qual foram entrevistadas duas mil pessoas, de diversos perfis.

Mesmo quem vive as consequências desastrosas do consumo excessivo das drogas consegue identificar os danos causados pela proibição. Moradora da Cidade de Deus, a motorista de ônibus Thaís, de 30 anos, contou precisar lidar com a agressividade do marido, causada, segundo ela, pelo consumo quase diário de maconha e cocaína. Ela nos mostrou uma cicatriz no couro cabeludo que teria sido causada por uma escova de cabelo atirada pelo cônjuge durante uma briga. Ainda assim, a motorista disse não ser contra a descriminalização e a legalização. “Se fosse legalizado, não teria tanta desgraça”, ponderou Thais. “Ser proibido torna a coisa mais gostosa, se legalizasse perderia a graça.”

"Viraria um caos"

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Francisco Pinheiro, motorista: "Legalizar não ia adiantar nada" (foto: Pedro de Souza/Vozerio)

Um resultado expressivo da pesquisa pôde ser constatado em quase todas as entrevistas do Vozerio naquela tarde: o medo de que a legalização das drogas possa causar uma explosão no consumo.

“Se liberasse, o pessoal faria em qualquer lugar. Tenho três filhos adolescentes, tenho que me preocupar”, refletiu Anderson Freitas, 33 anos, funcionário da empresa Real.

Essa mesma opinião foi reiterada por mais quatro entrevistados. O motorista da Francisco Pinheiro, morador de São João de Meriti, disse que "legalizar aumentaria o índice de criminalidade, porque daria coragem a quem usa escondido para usar na rua”. Já o servente Marinaldo Rodrigues, 45 anos, brincou: "O povo não tem controle bebendo, imagina com drogas.”

A doméstica Cida Maria, de 39 anos, também comentou que, se "já é assim escondido, imagina se fosse liberado"; mas lamentou a guerra entre traficantes e policiais. "Tem criança, gente inocente morrendo", ponderou.

"É contra as drogas, né?"
Algumas pessoas também se mostraram em dúvida quanto à "mensagem" passada pelos cartuns da campanha. Francisco Pinheiro, que temia um aumento do consumo de drogas caso ocorresse a legalização, viu o cartum de Arnaldo Branco e comentou: "Isso [arma] não resolve isso [cigarro de maconha]." Ao mesmo tempo, Francisco disse que leis mais rígidas seriam a solução. "Indonésia é um bom exemplo", lembrou, referindo-se à pena de morte para tráfico de drogas em voga no país asiático.

Já Julio Cesar, 44 anos, cobrador de um ônibus da linha 181 que exibia um busdoor da campanha, explicou como entendia o cartum de Arnaldo Branco: "Não, não é uma crítica [à guerra contra as drogas]. Tem que combater."

A interpretação de Marinaldo Rodrigues também seguiu essa linha. "Onde há droga há violência", explicou ele sobre o cartum.

Curiosamente, a única pessoa entrevistada que, desde o princípio da conversa, mostrou uma posição mais libertária em relação às drogas, foi também a mais idosa: Ana Maria Carvalho Laurindo, de 72 anos, moradora de Muriaé (MG). "[Descriminalizar] é a única solução, não tem jeito. Vai parar de matar", refletiu ela, enquanto esperava um ônibus da linha 128.

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A mineira Ana Maria Laurindo, 72 anos; e Cida Maria, 39 anos (foto: Pedro de Souza/Vozerio)

Desafiando o senso comum

Se os cartuns da campanha podem ter gerado alguma confusão, isso não é necessariamente um problema aos olhos da coordenadora do CESeC, a socióloga Julita Lemgruber. "Não importa que as pessoas não entendam num primeiro momento, quando batem o olho", explicou. "Os cartuns não passarem uma mensagem direta foi uma decisão deliberada. Respostas prontas provocam reação ou de absoluta negação ou de absoluta identidade." A pesquisa do CESeC, acrescentou ela, mostrou que a falta de informação é um dos efeitos mais nocivos do proibicionismo.

A legalização das drogas tem sido debatida no mundo inteiro e ganhado cada vez mais adeptos. Mais de vinte países já descriminalizaram o consumo de determinadas drogas, com resultados que vão desde a diminuição da criminalidade (caso do Colorado, nos EUA) até o aumento do número de pessoas que procuram tratamento (como em Portugal). No Brasil, a lei atual não penaliza o uso pessoal, mas não discrimina diretamente as quantidades que caracterizam um usuário comum de um traficante.

"A população do Rio, ao contrário do que muita gente pensa, é conservadora. Queremos quebrar essa resistência, esse tabu que rodeia o tema", explicou Julita.

As entrevistas realizadas pelo Vozerio constataram justamente essa posição dúbia entre a negação absoluta e a percepção de um cenário mais complexo — após alguma reflexão. O maior exemplo foi Julio Cesar, que disse logo de início ser "contra as drogas." Alguns dedos de prosa mais tarde, contudo, o motorista de ônibus afirmou "É, se maconha vendesse em farmácia seria tranquilo."

Veja aqui todos os cartuns da campanha.

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