Reportagens

  • Compartilhe:
Desemprego na construção civil 15 / 04 / 2016| Saulo Pereira Guimarães

A crise esvazia os canteiros

Entre janeiro e fevereiro de 2016, a construção civil fechou 4 mil postos de trabalho na região metropolitana do Rio. O setor, que chegou a registrar falta de mão de obra no passado, passa hoje por uma desaceleração. Na opinião de especialistas, o apoio do governo pode ajudar o ramo a sair da crise.

Foto: Enésio Dias na varanda de casa, na Gardênia Azul (Saulo Pereira Guimarães/Vozerio)

Enésio Dias começou a trabalhar em 1979, aos 15 anos. A vaga era de servente de pedreiro em Volta Redonda, sua cidade-natal. Daí em diante, ele praticamente não parou mais. As obras o trouxeram para o Rio em 1992. Na capital, conseguiu um emprego de vigilante dois anos depois. Em 2004, voltou para a construção civil. Ele trabalhou com carteira assinada no setor até fevereiro do ano passado, quando foi dispensado. "Só não estou trabalhando porque ainda não apareceu nada", afirma o desempregado.

Enésio não é o único nessa situação. De acordo com levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego, a construção civil fechou mais de 5 mil postos de trabalho no estado do Rio nos dois primeiros meses de 2016. Quatro mil deles ficavam na Região Metropolitana fluminense. "Os patrões estão sem dinheiro para manter os contratos", afirma Josimar Souza, presidente do Siticommm, sindicato que representa os trabalhadores do setor na Baixada Fluminense. O cenário atual é um reflexo da situação econômica do país.

Os efeitos da crise são claros para quem trabalha na sede do Sintraconst, entidade sindical que reúne os operários da construção civil na capital. As 150 demissões homologadas diariamente pelo órgão hoje representam um número três vezes maior do que o verificado em 2014. "E só não atendemos 300 pessoas porque não temos gente para isso", afirma Waguiner Moura, coordenador de fiscalização do sindicato. Segundo ele, a maioria dos peões dispensados vêm dos canteiros da Rio 2016. "Foi a área que mais contratou no passado e, por estar no fim, é o que mais demite hoje", explica o sindicalista. De agora até julho, Waguiner espera que as obras olímpicas demitam mais de 5 mil trabalhadores.

Antes e depois

O último canteiro em que Enésio trabalhou foi o de um prédio residencial no Recreio. Ele chegava ao local às 6h30. Tomava café, trocava de roupa e iniciava os trabalhos às 7h. Enésio atuava como armador, operário responsável por lidar com a ferragem durante a construção. Com uma hora para o almoço, a jornada ia até às 17h. Seu salário era de cerca de R$ 1.300. "Fazendo horas extras todos os sábados e dois domingos por mês, dava para dobrar esse valor", afirma ele. Outra forma de ganhar mais era entregar o trabalho antes do prazo. "Em geral, quando isso acontece, o encarregado fica com uma parte do dinheiro para o período inicialmente previsto e divide o resto com os peões", diz ele.

"Chegou a faltar trabalhador aqui no Rio para obras como a reforma do Maracanã"

"O setor da construção civil teve um crescimento muito forte entre 2007 e 2013", afirma Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos de construção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (IBRE/FGV). De acordo com números da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), mais de 2 milhões de vagas foram abertas no setor neste período. Segundo a economista, o bom momento da economia e as facilidades oferecidas para quem queria obter empréstimos foram alguns dos fatores que permitiram os resultados apresentados pela área. Em 2010, por exemplo, o crescimento da construção civil no Brasil foi quase duas vezes maior do que o verificado na economia como um todo, como mostram os relatórios do CBIC. "Nesse período, chegou a faltar trabalhador aqui no Rio para obras como a reforma do Maracanã", lembra Josimar. "Eu mesmo trabalhei com gente do Piauí, Maranhão, Ceará, Pernambuco e Bahia", recorda Enésio.

Segundo Ana, os primeiros problemas no setor começaram a aparecer no segundo semestre de 2013. "Foi então que o número de vendas e lançamentos de imóveis começou a cair", diz ela. No Rio, no terceiro trimestre daquele ano, foi registrada uma queda de 30% na quantidade de residências postas à venda em relação ao mesmo período de 2012, conforme noticiou à época a Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário. De acordo com a economista, o aumento da inflação e o cenário de incertezas nos meses seguintes colaboraram para o surgimento da crise. No Rio, a demissão de operários em grandes obras é o sinal mais visível dessa situação (veja quadro ao fim da matéria). "O cenário seria pior se não fosse a olimpíada", afirma Ana.

Futuro

Onze mil reais e cinco parcelas de R$ 1.300 do seguro-desemprego. Foi isso que Enésio recebeu depois de ser demitido. Para se manter, o operário tem feito trabalhos temporários. Pintou recentemente um apartamento em Jacarepaguá e trabalhou por três meses em uma obra na Gávea. Tudo sem carteira assinada. "Agora, o dinheiro acabou de de novo. E o pior é que eu nem tenho como ir ao sindicato, porque daqui para lá gasto duas passagens", afirma ele na sala do apartamento alugado na Gardênia Azul, na zona oeste. O sindicato fica no Estácio. Sua sorte, ele diz, é que a mulher continua trabalhando. "Ela é governanta", conta.

"É difícil reinserir os trabalhadores no mercado porque não há novos postos de trabalho surgindo", afirma Josimar. Para Ana, a melhor solução para a atual situação da construção civil seria o governo investir em obras de habitação, saneamento e outras áreas de infraestrutura. "Até pelo déficit que existe nesses setores", diz ela. Waguiner também defende a ideia. "Cada nova vaga aberta na construção civil gera outros cinco empregos indiretos em venda de material de construção, alimentação e outros ramos", explica ele.

Da varanda de casa, Enésio vê prédios em construção no Anil. As obras dão esperança de dias melhores. "Mandei meu currículo outro dia para disputar uma vaga de porteiro no Jardim Botânico", conta o desempregado. "Temos aqui no sindicato 16 mil currículos de pessoas em busca de trabalho", afirma Josimar. Hoje, o dirigente não enxerga perspectiva de melhora para o setor. "O que o trabalhador quer é voltar a ter emprego. Mas, com a crise, está tudo parado", diz ele.

  • Compartilhe:

Ouça as vozes do Rio

Preencha o formulário abaixo para assinar o boletim do VozeRio

Mais sobre economia

Após 30 anos de trabalho na rede estadual, aposta nos salgados para comprar comida e pagar dívidas que ultrapassam R$ 600

Empresas em dívida com o Estado do Rio receberam isenção fiscal

Levantamento aponta que 22 empreendimentos somaram débitos que ultrapassam R$ 9 bilhões. PSOL quer que MP investigue o governo por crime de improbidade administrativa

Cinco desafios para o próximo prefeito do Rio

Especialistas em saúde, educação, mobilidade, segurança e economia apontam os principais problemas que o novo gestor da cidade vai precisar resolver

Investidores já podem comprar ações do futuro

Títulos de impacto social oferecem mecanismos de financiamento para projetos de saúde, redução do desemprego e reincidência de presos

Mais sobre crise

Testemunhas contam o que viram de um dos anos mais agitados dos últimos tempos

Biblioteca Parque amanhece fechada no Centro

De acordo com Governo do Estado, fechamento é excepcional e prefeitura deve manter espaço aberto em 2017

"Não somos black blocs"

Policiais e outros servidores enfrentam bombas de gás e spray de pimenta em protesto contra pacote de medidas de austeridade enviado à Alerj

Crise no Rio de Janeiro: o vilão é mesmo o servidor público?

Para o presidente do Instituto de Estudos sobre o Rio de Janeiro (Ierj), não há excesso de servidores na maioria das áreas do governo estadual — mas, sim, falta

Mais sobre Região Metropolitana

Curso de idiomas ajuda refugiados a tentar um recomeço na região metropolitana do Rio

Novo projeto vai mapear subsolo da região metropolitana

Batizado de Geovias Metropolitano, trabalho iniciado nesta sexta (16) será coordenado pela Câmara Metropolitana

Estudo aponta centralidades emergentes na região metropolitana do Rio

Campo Grande e Taquara foram áreas citadas em pesquisa, apresentada nesta terça (06) em evento no Centro do Rio

Um diagnóstico sobre a região metropolitana do Rio

Evento nesta segunda (24) marcou a divulgação dos resultados da primeira fase do plano metropolitano

Mais sobre construção civil

Realização:
Iets
Patrocínio:
Universeg
Apoio:
Biblioteca Parque Estadual Biblioteca Parque Estadual
 
Licença Creative Commons
Desenvolvido em SPIP pela Calepino