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Burburinho 2 / 11 / 2015| Daniel Gullino

Desvendando o Rio de imagens

Através de fotos históricas e atuais, debate do ciclo "Rio de Encontros" abordou a importância da fotografia na construção da imagem da cidade. Registros vão da Praia Vermelha ao Morro da Providência, de 1840 aos dias atuais.

(Foto: Maurício Hora)

Da primeira foto tirada no Rio de Janeiro, em 1840, até os registros de conflitos nas favelas dos dias de hoje, a fotografia tem sido essencial para a construção de narrativas sobre a cidade. Na quinta-feira, 29 de outubro, o debate “Rio de imagens: fotografia e narrativas da cidade", realizado no auditório da ESPM, no Centro, abordou o papel deste meio ao longo de mais de 250 anos e as suas transformações como linguagem.

O evento foi mais um da série Rio de Encontros, realizada pela oscip O Instituto, com patrocínio da Escola Superior de Propaganda e Marketing. Participaram Ana Maria Mauad, professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF); Maurício Hora, fotógrafo e criador da cooperativa Zona Imaginária; e Pedro Vasquez, escritor e curador, além da da fotógrafa e cientista social Kita Pedroza, como mediadora.

Para Mauad, a fotografia pode funcionar de três maneiras diferentes: documento, monumento e agente da história. A professora também comentou a dificuldade de analisar os registros em meio ao que chamou de "mar de imagens". “O desafio é não se anestesiar”, pontuou.

Vasquez, que apresentou uma série de fotos históricas do final do século XIX, acredita que a facilidade das novas tecnologias não coloca todos em um patamar de igualdade. “Não é que todo mundo é fotógrafo. Qualquer um pode tirar foto”, ressalta. Assim como muitos podem escrever, mas quase ninguém pode ser comparado a Machado de Assis, completou.

Já Maurício contou algumas de suas histórias no Morro da Providência, na Zona Portuária, onde sempre morou e realizou a maior parte de seu trabalho. O fotógrafo explicou que a Polícia Militar tem sido uma barreira maior que o tráfico de drogas para o seu trabalho, e ressaltou que até hoje precisar tomar certos cuidados, como evitar andar com a câmera exposta e não usar tripé, que poderia ser confundido com uma arma.

Fotografia a serviço da diplomacia

Mauad considera a foto acima um documento, já que é fonte histórica. Dois detalhes foram destacados, por revelarem aspectos da tecnologia da época: a lâmpada, que se vê pela janela pendurada em um fio, acima da rua, era movida a gás; sobre a mesa está um ventilador, que já utilizava energia elétrica.

Já a foto “Os trinta Valérios”, de Valério Vieira, é classificada como um monumento. A fotomontagem de uma cena musical, na qual o autor aparece em todos os personagens, é uma experiência artística em um meio ainda recente.

Esses conceitos, contudo, não são fechados: a primeira também pode ser entendida como monumento, porque realiza uma valorização do trabalho, afirma a professora. E a segunda, de certa forma, funciona como documento, já que evidencia a técnica utilizada na época.

O exemplo de fotografia como agente da história foi o trabalho da norte-americana Genevieve Naylor, que fotografou o Rio de Janeiro na década de 40 com um fim específico: aproximar os Estados Unidos e o Brasil.

O trabalho fez parte da Política de Boa Vizinhança, iniciativa do governo americano para se aproximar dos países da América Latina. “Ela produz um conjunto de imagens que buscavam criar a face do bom vizinho”, relata Mauad.

Registros históricos

A primeira foto tirada no Brasil – e na América Latina – retratou o Paço Imperial, no Centro, em 1840. O instrumento utilizado foi um daguerreótipo. Vasquez explicou que o autor, Louis Compte, era amigo de Louis Daguerre, inventor do método. Por conta da amizade, Compte conseguiu trazer o mecanismo para o Brasil apenas seis meses depois de sua primeira utilização.

A foto foi tirada pelo suíço George Leuzinger, na Rua da Direita (que teve posteriormente o nome trocado para Primeiro Março), em 1865. O local, explica o escritor, era um ponto chique, já havia que estava ali uma das primeiras lojas da cidade a vender sorvete.

Marc Ferrez, considerado o principal fotógrafo brasileiro do século XIX, registrou, em 1880, a Escola Militar que havia na Praia Vermelha. Anos mais tarde, em 1935, o prédio foi demolido, dando lugar à Praça General Tibúrcio.

Conflitos com a polícia

Em 2008, o Exército ocupava o Morro da Providência. Depois da morte de três jovens, com participação de militares, um grupo de moradores realizou um protesto e retiraram a bandeira que ficava ao lado da base Exército na comunidade. Maurício registrou o momento.

A Casa Amarela é um espaço cultural da comunidade, onde Maurício já expôs trabalhos. Ele reclama, no entanto, que policiais militares já arrombaram a porta do local três vezes, por considera-lo suspeito.

Também em 2008, o fotógrafo francês JR realizou um trabalho na comunidade em que tirava fotos dos moradores, para expor depois nas fachadas de casas e outras construções. Maurício acompanhou o artista, servindo de guia e documentando seu trabalho.

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