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Saídas para a crise no Alemão 11 / 04 / 2015| Julia Meneses Isabela Fraga

Entre desabafos e embates, um consenso: PM não pode ditar debate político

As denúncias e desabafos foram marcantes, mas outros momentos importantes do encontro "Fórum Alemão: saídas para a crise" foram os embates entre moradores do Complexo e representantes do poder público.

[Foto: Fernando Souza, cortesia Agência O Dia]

Ao final, o coronel Robson Rodrigues, chefe do Estado-Maior da PM, pediu desculpas pelos erros cometidos pela corporação e prometeu que levaria as denúncias à Corregedoria para que fossem investigadas.

Entre os consensos e discordâncias, o fato é que o diálogo foi inédito, como definiu a pesquisadora Silvia Ramos, coordenadora do Centro de Estudos e Cidadania (CESeC), no início do debate.

Selecionamos algumas cenas fortes que ilustram bem a discussão — que durou quase quatro horas e envolveu cerca de 200 pessoas na sede do Instituto de Estudos da Religião (Iser), na Glória.

Leia a matéria principal: ’Paz com voz

Queremos medidas efetivas do governo

Pehks Jones Gomes da Silveira, superintendente da subsecretaria de Educação, Valorização e Prevenção da Secretaria de Segurança: A posição da Secretaria de Segurança, assim como da polícia, é de construir pontes. O que nós estamos propondo é que este fórum que começa hoje possa continuar com frequência. Estamos aqui para ouvir.

Junior Perim, diretor do Circo Crescer e Viver: Senhor secretário, me desculpe, mas o senhor precisa ter a capacidade de assumir algum tipo de compromisso, como, por exemplo, tirar a polícia do campo de futebol, liberar a escola. O senhor não pode vir aqui e dizer “isto aqui a gente resolve aqui agora”?

Pehks: Nós fomos convidados para cá para dialogar. Essa é uma questão operacional, isso não se resolve dessa forma. Esperamos numa próxima oportunidade trazer alguma coisa mais concreta, desde que a pauta seja essa. Não se faz política pública no calor das emoções.

Em seguida, Mari Luci e Cleber, moradores do Alemão, confrontaram o subsecretário. O embate foi registrado em vídeo pelo empresário Daniel De Plá, editor do site Entenda Favela:

"Conversa entre morador e jovem policial é piada"

Major Leonardo Nogueira: Quero propor que os jovens policiais dialoguem com os jovens da comunidade. Por mais que o policial esteja lá 24h por dia, às vezes ele ainda não conseguiu entender.

Leonardo Souza, integrante do coletivo Ocupa Alemão: O seu discurso é muito bonito, mas queria que o senhor explicasse a indagação que o senhor fez no sábado, no protesto no Alemão, de por que o morador não fazia protesto contra o tráfico. Essa afirmação deslegitima tudo o que o senhor está falando agora. E conversa de jovem morador com jovem policial é uma piada.

Major Nogueira: A sociedade precisa – não só o Complexo do Alemão – pensar: se a gente não quer a polícia e também não se faz nada contra a marginalidade, a gente precisa saber o que quer. Precisamos avaliar que posição nós vamos ter em relação ao tráfico de drogas.

Leonardo Souza: Na favela não tem traficante, tem varejista. Muita gente está falando aqui que nós temos que sair daqui e fazer coisas. A gente já está fazendo, quem não está fazendo são os senhores. E estamos fazendo sem a ajuda de vocês e apesar de vocês.

"Os policiais não podem ficar isolados na UPP"

Um dos consensos do fórum foi o de que a UPP não deve ser a única instância do governo presente no Complexo do Alemão — e em qualquer favela e subúrbio do Rio. Muitos moradores do Complexo reivindicaram a presença de secretarias de cultura, educação, saúde, assistência social e direitos humanos, além do próprio governador eleito, Luiz Fernando Pezão.

Lúcia Cabral, presidente do Espaço Democrático de União, Convivência, Aprendizagem e Prevenção (Educap): Nos últimos anos, o Alemão tem recebido muita polícia e muita arma; e menos programa para a juventude. Após a morte do menino Eduardo de Jesus, o governador falou que isso vai acontecer, que vai colocar mais polícia. Os programas sociais são feitos pelas ONGs, pelos movimentos sociais, pelos coletivos que estão tentando ali mudar a nossa realidade. Mas a gente está sendo marginalizado o tempo todo. Quando o policial olha para uma criança de dez anos e a vê como um marginal, a situação está muito grave.

O policial está abandonado pelo Estado e replica o ódio em nós moradores.

Raull Santiago, integrante coletivo Papo Reto: Após tantas mortes no Alemão, o governador me bota mais polícia. Todos os espaços culturais da favela estão sendo ocupados com a polícia. Nossas escolas estão ocupadas pela PM e são zonas de conflito. O primeiro a se revoltar deveria ser o policial, só que não com a gente. O policial está abandonado pelo Estado e replica o ódio em nós moradores.

Junior Perim, diretor do Circo Crescer e Viver: É preciso também colocar na agenda a construção de mecanismos que evitem ações ostensivas e operações policiais que desrespeitem ou não protegem a vida. Não devemos tolerar ataques que ceifam a vida de jovens policiais, em sua maioria de origem popular. Esta prática pode pintar de sangue extensões cada vez maiores da cidade e nos deixar a todos envergonhados de pisá-la. É bom lembrar que o Rio de Janeiro é responsável por 60% das mortes por policiais da infância brasileira. Se o Estado não se constranger com isso... Eu tenho vergonha.

Átila Roque, diretor da Anistia Internacional Brasil: Infelizmente eu ainda não sinto o comprometimento, na extensão que deveríamos ver, do Estado nas suas instâncias mais altas, em particular do governo do Estado, do governador. Não ouvi ainda um pedido de perdão do governador às famílias das vítimas, ao menino Eduardo. Muito pelo contrário, ele disse para os jornais que o serviço de inteligência da polícia tem fotos de criança com arma na mão. Por favor, governador, dê-se ao respeito. Eu gostaria de ver mais responsabilidade dos demais níveis do estado, não só do estado do Rio de Janeiro, mas também do nível federal, que também está num silêncio vergonhoso. A nota da Presidente Dilma, com todo o respeito, foi pífia."

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Cerca de 200 pessoas se reuniram para discutir soluções para o Alemão em abril (foto: Fernando Souza/O Dia)

UPP deve se retirar do Alemão?

Alguns convidados sugeriram que, no momento atual de crise, a UPP deveria se retirar do Complexo do Alemão e se reorganizar.

Talvez seja melhor a UPP se retirar de alguns locais

Ignacio Cano, fundador do Laboratório de Análise da Violência (LAV-UERJ): O Alemão representa a comunidade onde o legado da guerra da polícia militar é mais claro. Em primeiro lugar, porque ela é diferente de outras comunidades: a ocupação do território pela PM não foi planejada, foi uma resposta do governo a certa conjuntura, e foi invadida porque ela é considerada o quartel-general do Comando Vermelho. Assim, na lógica militar, temos que ocupar o quartel-general do inimigo. Em segundo lugar, anos depois da presença do Exército e da polícia, nós temos hoje uma condição de confrontos diários, população em risco, mortes corriqueiras de policiais e moradores, ou seja, a mesma situação que tínhamos antes. Se o critério supremo for, assim como deveria, a preservação da vida humana, nas condições atuais isso não é possível. Talvez seja melhor [a UPP] se retirar de alguns locais. Mas se retirar significaria aceitar uma derrota da lógica militar e, por isso, duvido muito que o [governador] Pezão vá assumir o custo politico disso.

Daiene Mendes, Voz da Comunidade: Como confiar numa polícia que mata a gente, que está o tempo inteiro cerceando ali todos os nossos espaços? Como confiar numa policia que faz a gente correr risco, que faz a gente ter medo? Se todo mundo aqui do Alemão fosse falar de experiências com a polícia, a gente só ia contar experiência negativas. Como contornar isso? De que forma? É possível? E, se não for possível, acho que é melhor sair.

PM precisa se reformular

Há uma mentalidade de que a única forma de se fazer polícia é bélica

Coronel Robson Rodrigues, chefe do Estado-Maior da PM: Não temos a melhor das polícias. Temos problemas sérios, estruturais, dentro da corporação. A corporação aceitou equivocadamente o convite para fazer a guerra, se modelou por 30, 40 anos para isso, e agora nós temos que lutar para reformulá-la. Há uma mentalidade interna e externa de que a única forma de se fazer polícia é bélica. Mas há também muita gente boa dentro da corporação lutando para mudar isso. Uma das primeiras coisas que o meu comando propôs é que esse processo [das UPPs] precisa ser reformulado, pois era entendido que haveria outras instituições para participar do processo. É preciso chamar a responsabilidade de outras instituições e secretarias para entender que o policial está pedindo socorro por ficar muitas vezes entre a cruz e a espada no momento de decidir sobre vidas, sobre pessoas. O policial muitas vezes fica sozinho nesse sentido. A mudança de mentalidade tem que partir do policial, mas também das outras pessoas, que devem entender que não é a polícia quem deve conduzir esse processo [de reformulação].

Erramos também, porque a polícia, com essa pretensa polícia de proximidade, muitas vezes não se aproxima nem dos próprios policiais. Temos uma corporação engessada, hierarquizada, e isso é um erro que precisamos consertar.

Propostas

Pressionados pelos moradores, os representantes do governo propuseram algumas medidas imediatas para continuar o diálogo e para a formulação de políticas públicas concretas que de fato levem em conta os interesses da comunidade.

Teresa Cosentino, secretária de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos: Dois fóruns permanentes — um no Alemão, outro na Maré — unindo as secretarias de Assistência Social, Cultura, Educação, Saúde, Segurança, entre outras instituições, e lideranças locais.

Adilson Pires, vice-prefeito e secretário municipal de Assistência Social: Após reivindicações de alguns moradores, comprometeu-se a acelerar o processo de doação dos terrenos para construção de um campus do IFRJ no Alemão. Em 2011, o governo federal aprovou a construção do campus, mas até hoje a prefeitura não cedeu os terrenos necessários para o início das obras.

Pedro Strozenberg, secretário-executivo do Iser: Convocou os moradores do Alemão a participar de uma “oficina de propostas”, para pactuar e detalhar as reivindicações locais, que depois seriam encaminhadas ao poder público.

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Mais Saídas para a crise no Alemão

Assista a alguns trechos do ’Fórum Alemão: saídas para a crise’

No vídeo, produzido pelo Vozerio, também há entrevistas com participantes do encontro inédito, que reuniu 200 pessoas na Glória

Paz com voz

Moradores do Alemão, policiais, pesquisadores e gestores públicos discutem a crise de segurança pública no Complexo. Denúncias, embates, momentos emocionantes e propostas marcaram o encontro. Assista ao vídeo!

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