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Mobilização estudantil 23 / 03 / 2016| Isabela Fraga Laís Jannuzzi

Fora das salas, aula prática de política

Eles são adolescentes e estão na primeira mobilização política de suas vidas: ocuparam a escola onde estudam, na Ilha do Governador — inspirados pelas mobilizações semelhantes em São Paulo ano passado.

(Fotos: Laís Jannuzzi/Vozerio)

Fazia menos de 24 horas que alunos do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes, no bairro da Freguesia, Ilha do Governador, haviam realizado uma assembleia que determinou a ocupação da escola — a primeira mobilização estudantil do tipo no Rio. Era a manhã de terça-feira (22/3), e cerca de 60 alunos estavam no colégio, numa mobilização que ainda está dando os primeiros passos e encontrando seu caminho.

O movimento estava em gestação havia cerca de um mês, quando os professores da rede estadual começaram a mobilização que resultou na greve iniciada há 20 dias. “Viemos apoiando os professores, fomos ganhando força e nos mobilizando junto com outros colégios. Quando começou a greve [dos professores], já tinha revolta entre os alunos”, contou o estudante Michel, 17 anos, aluno do terceiro ano do ensino médio do “Mendes”, como o colégio é conhecido.

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Alunos na porta do colégio, na Ilha do Governador: controle de quem entra e de quem sai

Ao longo de fevereiro e março, começaram a pipocar pequenos protestos entre os secundaristas do Mendes. Um dia, por exemplo, alunos da turma de Michel se recusaram a entrar na sala e ficaram sentados no corredor porque a turma estava superlotada (mais de 50 alunos) e o único ar condicionado do cômodo não estava dando conta. Até que, na segunda-feira (21/3), eles decidiram ocupar o colégio, numa virada que pegou de surpresa tanto os próprios funcionários da escola quanto o resto da cidade.

Embora as motivações sejam diferentes, é difícil não ver semelhanças com o movimento de ocupação de escolas que ocorreu em São Paulo em novembro e dezembro de 2015. Não é à toa: as escolas ocupadas da capital paulista são inspiração declarada dos secundaristas da Ilha do Governador. “Eu não sabia que aquilo era possível”, disse a estudante Ana Clara Alves, 16 anos, explicando como acompanhou as ocupações paulistanas. “Parecia coisa de filme”, acrescentou Susi Helena, 17 anos, aluna do terceiro ano.

Contudo, enquanto os secundaristas de São Paulo exigiam o fim do plano de reestruturação da rede escolar — que incluía o fechamento de dezenas de unidades —, os estudantes cariocas têm outras pautas: grêmio autônomo, pagamento regularizado dos professores e funcionários terceirizados (pautas também dos professores em greve) e melhora da situação de todas as escolas da rede estadual. A simbiose com a mobilização dos professores é evidente — os próprios alunos mencionam apoio mútuo o tempo todo, mas riem quando perguntam se há alguma "orquestração" maior por trás.

Estudantes de São Paulo já apoiaram o #OcupaMendes, como o movimento se autointitulou, tanto por mensagens quanto por vídeos. Secundaristas de outras cidades, como Queimados, também já manifestaram solidariedade — o que talvez denote o potencial de as ocupações se espalharem pelo estado do Rio.

"Temos muita dúvida em tudo"

As reivindicações dos alunos do Mendes por vezes soam vagas, mas as denúncias e queixas, não — talvez um sintoma da juventude política dos estudantes e do quão recente é a ocupação. “Estamos sem inspetor, sem vigia lá fora. Sou aluna do turno da noite, nosso horário termina às 22h40. Temos saído antes das 22h porque não tem segurança e a rua fica muito vazia”, conta Ana Clara.

Os colegas apontam outras questões: “Uma sala em que caberiam 30, 40 pessoas, tem 50, 60. Mesmo com um ar condicionado funcionando, não dá”, lembra Michel. “Somos contra o currículo mínimo, mais focado no Saerj [Sistema de Avaliação da Educação do Estado do Rio de Janeiro] e menos no Enem”. Alguns alunos também alegam nunca terem entrado no laboratório de informática (que é trancado a cadeado), nem no de química. Segundo a página da ocupação, os estudantes entraram no laboratório na tarde desta terça e organizaram os livros e outros objetos que estavam espalhados.

Para decantar as reivindicações, o “núcleo” da ocupação — formado por cerca de sete estudantes — vai se reunir e produzir uma espécie de manifesto. Para muitos deles, este é o primeiro contato com mobilizações e protestos. "Não temos muita experiência e temos muita dúvida em tudo", desabafou Michel.

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Aluno pisa sobre "Saerjinhos" antigos, provas de avaliação do governo do estado que estavam jogadas pelo chão de uma sala de aula

Ainda assim, a ocupação não é apoiada por todos os estudantes do Mendes: “Os turnos da tarde e da noite aderiram [à mobilização], mas o da manhã nem tanto”, explicou Michel. “São os alunos mais preocupados com vestibular, e os professores mais velhos, prestes a se aposentar, que também não aderiram à greve”, acrescentou Rodrigo Viana, também de 17 anos. Por isso, nesta terça, os alunos do turno da manhã foram até a escola e pediram a desocupação. Os dois grupos conversaram e combinaram uma assembleia na manhã desta quarta-feira (23/3) para decidirem os próximos rumos. “Não podemos ter a escola ocupada à tarde e à noite e não de manhã”, ponderou Michel.

Os alunos mobilizados na ocupação se dividiram em comitês: segurança, alimentação, atividades, comunicação e estrutura. Os primeiros são os mais vigilantes: ficam de olho em quem anda pela escola, autorizam ou não a entrada de pessoas e pedem para desconhecidos se identificarem. O comitê de alimentação cuida das doações de comida e dinheiro para lanche — feitas sobretudo por professores do próprio colégio e pelo Sindicato Estadual de Profissionais de Educação (Sepe). O grupo de atividades é responsável por organizar oficinas e até mesmo aulas durante o dia na escola; e o de estrutura regula o uso das salas, prepara dormitórios etc.

Quando a reportagem esteve no colégio, os alunos estavam espalhados pela escola, em grupos — alguns sentados conversando; outros organizando e limpando salas; outros organizando o estoque de alimentos; e outros lidando com jornalistas. Quando o diretor saiu da unidade, na noite de segunda-feira, levou consigo as chaves do vestiário e da cozinha. Por isso, embora tenham recebido doações de alimentos como macarrão e arroz, até terça os alunos do Mendes precisavam se virar com biscoitos, pão e outros alimentos que pudessem ser consumidos diretamente. A maioria das doações, segundo eles, veio de professores da própria escola e do Sepe.

Os estudantes enfatizam que a situação do Mendes é bem melhor do que a de outras escolas estaduais. De fato: o colégio tem paredes recém-pintadas, piscina, carteiras em estado aceitável, bebedouros e banheiros funcionando, aparelhos de ar condicionado — em suma, uma infraestrutura razoável. Não é o caso do colégio de Lucas Pereira, 17 anos, aluno do CE Professora Maria de Lourdes de Oliveira, o “Lavôr”, também na Ilha. “Lá está bem pior, nem está tendo aula”, garantiu ele. Lucas se juntou à mobilização no Mendes, mas, como todos os estudantes entrevistados pela reportagem, acha importante que as ocupações se espalhem.

“A gente sabe que o Mendes é uma escola perfeita perto de outras. Estamos pedindo para os outros ocuparem também, a gente chama, incentiva, fala com a galera e tal. Tem várias pessoas de Macaé e Niterói que já vieram falar com a gente sobre isso”, contou Ana Clara. Michel faz coro: “A gente viu que o problema não é só aqui, é uma coisa do estado, e a gente vai ficar até termos uma resposta do estado do que vai mudar."

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Alunas do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes: primeira mobilização política

Secretaria afirma lamentar “invasão” do colégio

Após a ocupação do colégio pelos estudantes, o diretor, Marcos Madeiras, retirou-se da unidade na noite de segunda — levando consigo, segundo os alunos, chaves da cozinha e dos vestiários, que continuam trancados. Segundo a Secretaria de Estado de Educação, o diretor foi à PM para fazer um boletim de ocorrência por “invasão”. Na terça, a Polícia Militar foi até o colégio e conversou com os estudantes, mas a ocupação permaneceu.

A Secretaria também classificou o movimento como "invasão" e afirma: “o movimento é planejado, uma vez que os invasores receberam, à noite, camisetas, sanduíches, adesivos etc.” Quando indagados se a ocupação da escola foi determinada pelo Sepe, os alunos do Mendes riram: “A gente que chamou o apoio deles [professores]”, contou Susi. “A gente que organiza, e as assembleias são só com os estudantes.” O apoio do Sepe, segundo os secundaristas, chega na forma de comida e produtos de limpeza. “Hoje vamos almoçar quentinhas que eles [Sepe] vão trazer, porque o diretor levou a chave da cozinha”, contou um estudante.

Além de professores do sindicato, representantes de outros movimentos sociais estavam presentes no colégio e têm acompanhado o movimento. Segundo os alunos do Mendes, havia gente do Colégio de Aplicação da UFRJ, da Assembleia Nacional dos Estudantes Livres (Anel) e de outras organizações. A Anel, inclusive, produziu adesivos com os dizeres "Pezão veio quente, nós já tá fervendo". Ocupar as escolas já!".

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Livros didáticos, ainda embalados, "para descarte": contradição com nota da Secretaria de Educação

Em nota, a Secretaria afirmou também que “as acusações de que havia livros em caixas são equivocadas, uma vez que o Ministério da Educação entrega o material periodicamente à escola e é redistribuído aos alunos”. Mas a reportagem do Vozerio encontrou salas com pilhas de livros e apostilas ainda embalados e sem uso — alguns inclusive com os dizeres “para descarte”.

Na mesma nota, a Secretaria também afirma que “o secretário Antonio Neto já agendou reunião com o Sepe e com o movimento que invadiu o CE Prefeito Mendes de Moraes”. O encontro está marcado para hoje, quarta-feira, às 15h, na Assembleia Legislativa.

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