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Burburinho 8 / 09 / 2015| André Costa

Espectros cariocas

Solidão, caos, paraíso, mito, medo e promessa: a partir destes seis temas fundamentais, mostra "Imaginários Cariocas" pretende, em 53 filmes, desvelar fantasmas geralmente ignorados da vida do Rio. [Foto: "A grande cidade", de Carlos Diegues].

De hoje (08/09) ao próximo dia 27, a Caixa Cultural, no Centro, recebe a mostra "Imaginários Cariocas", com 53 filmes. Apresentando obras realizadas entre 1920 e 2013, além de dois debates e de uma aula magna, o ciclo de exibições procura problematizar clichês e estereótipos da cidade, trazendo à luz aspectos muitas vezes negligenciados da metrópole.

A mostra organiza-se a partir de seis conceitos: solidão, caos, paraíso, mito, medo e promessa. De acordo com Pedro Henrique Ferreira — que divide a curadoria com Hernani Heffner, Isabella Raposo, Marina Meliande, Manuelle Rosa e Vírginia Primo —, por meio deste recorte conceitual, o grupo quis "evitar os clichês mais básicos associados à cidade. São seis temas que não a esgotam, mas revelam faces menos óbvias da mesma".

Segundo Pedro, o primeiro clichê do qual o grupo procurou escapar foi a associação do Rio à ideia de paraíso, "algo próximo ao turismo, que serve muito a estrangeiros". O grupo tenta subverter essa ideia, diz o curador: "O Rio é quase sempre visto apenas como uma paisagem. Muitas das ações do governo são alimentadas a partir disso de que tentamos fugir", diz.

Dentre as imagens que trazem complexidade à ideia da cidade como cartão-postal, Pedro destaca, por exemplo, a sequência inicial de "24 horas de sonho", de Chianca Garcia (1941). Nela, a personagem vivida por Dulcina de Moraes — um dos maiores nomes do teatro brasileiro, em sua única participação no cinema — tenta cometer suicídio no Cristo Redentor, enquanto o diretor filma a estátua de costas, como um abandono de Deus à heroína.

Por meio de imagens como essa, a curadoria procura trazer à tona aspectos da vida cotidiana que escapam às representações mais banais da vida urbana carioca. "Acredito que a cidade tem certos espectros e fantasmas. O Rio de Janeiro, por exemplo, é pautado por uma ideia de medo. É uma espécie de espírito, de espectro, que sempre rondou a vida na cidade. Acreditamos que uma ideia de medo muito particular e uma ideia de solidão muito particular, embora não exclusivas, são características à cidade", afirma Pedro.

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"Maria 38", de Watson Macedo (1959), que passa no dia 16 de setembro.

Outro estereótipo que a mostra procura retrabalhar e desconstruir, segundo o curador, é o da figura do malandro. Apesar de presente em várias obras — de "Vai trabalhar, vagabundo", de Hugo Carvana (1973), a "Ópera do Malandro", de Ruy Guerra (1986) — a figura surge não necessariamente como um herói (ou antiherói) pícaro triunfante, mas também com características solitárias e amargas.

O curador afirma que este é o caso, por exemplo, de "Lira do delírio", de Walter Lima Jr. (1978). Segundo Pedro, este é um filme sobre o carnaval no qual "os personagens são extremamente solitários. O carnaval não ocupa um lugar de felicidade. O filme fala de um crime que acontece durante o carnaval, de personagens que sofrem muito".

Pedro acrescenta ainda que, olhando a produção carioca em conjunto, é possível perceber também certas relações insuspeitas entre figuras presentes no imaginário da cidade. Ele aponta uma semelhança entre a ideia de malandro, justamente, e a do playboy contemporâneo.

"Tenho uma teoria de que na figura do surfista ou do playboy há uma herança da figura do malandro, mas de forma a elitizá-la. A partir do momento em que essa figura se torna algo imaginário, parte do espírito, ela se torna outra coisa. Isso aparece por exemplo em "Copacabana me engana" (Antonio Carlos Fontoura, 1968), onde há essa espécie de playboy revoltado", diz.

Dentre as raridades da programação, que conta também com obras bem conhecidas como "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles e Katia Lund (2002) e "Orfeu Negro", de Marcel Camus (1959), estão três filmes da Cinédia, fundada em 1930 e hoje a mais antiga produtora cinematográfica ainda em atividade no país: o próprio "24 horas de Sonho", de Chianca Garcia, com cópia em 35mm; "Dominó Negro", de Moacir Fenelon (1941), também exibido em 35mm; e "Marcelo Zona Sul" (1970), cuja sessão, exibida em seu formato original (16mm), contará com a presença do diretor Xavier de Oliveira.

Outros filmes pouco conhecidos que o curador destaca são "Fábula... Meu lar é Copacabana", de Arne Sucksdorff (1965), que se notabilizaria como diretor de fotografia de diversas obras do Cinema Novo, "Ladrões de cinema", de Fernando Coni Campos (1977) e "Eu transo, ela transa", de Pedro Camargo, que faleceu em junho.

A mostra é resultado dos estudos de um grupo denominado Ateliê Rio, que, sob a orientação intelectual do Diretor de Conservação da Cinemateca do MAM Hernani Heffner e sob a coordenação de Marina Meliande e Felipe Bragança, se propõe a pensar e estudar, justamente, imaginários cariocas.

Além da exibição dos filmes, a mostra contará ainda com um catálogo, a ser distribuído em troca de ingressos para duas sessões (cada ingresso custa R$ 4). A programação pode ser conferida aqui.

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