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Burburinho 11 / 12 / 2015| Daniel Gullino

Esquerda pop se reúne no fórum Emergências

Em clima de festa, encontro na Lapa reúne hackers, índios, intelectuais e ativistas. Moradores de outros estados e até de outros países organizaram caravanas para vir ao evento, que segue até domingo (13/12)

(Foto: Emergências)

Foi-se a época em que apenas Che Guevara e Mafalda figuravam nas camisas de militantes de esquerda. Novos ídolos têm se juntado ao grupo, como o ex-presidente uruguaio José Mujica e a pintora mexicana Frida Kahlo. Pelo menos é o que diz Hamilton Alem, dono da Dom Camisetas, que viaja o Brasil vendendo blusas e sacolas de pano com estampas de ícones progressistas. “Nosso trabalho é voltado para os movimentos sociais”, explica.

Hamilton mora em São Paulo e já foi "pra tudo quanto é lado". No Rio, já tinha participado de eventos como a Cúpula dos Povos e a Bienal da UNE. Dessa vez, veio para o Emergências, evento de debates e oficinas sobre cultura, política e ativismo organizado pelo Ministério da Cultura. O encontro, realizado na Fundição Progresso, na Lapa, começou na segunda-feira (7/12) e vai até domingo (13/12).

Durante os sete dias, o encontro reúne ativistas de várias esferas, dos hackers até feministas, passando pelos entusiastas das mídias livres e da legalização das drogas. Entre os participantes estavam o americano Lawrence Lessig, um dos criadores do selo Creative Commons; o músico e ex-ministro Gilberto Gil; o líder indígena Ailton Krenak; e Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

"Estou deslumbrado", afirmou o ministro da Cultura, Juca Ferreira, em entrevista ao Vozerio. “Esse evento sinaliza uma nova cultura, mais participativa. É um retrato de uma cidadania possível", comemorou. O clima era de festa informal: enquanto uns tocavam tambores, um dos organizadores passava convocando, em voz alta: "Futebol e mídia, propriedade da TV! Quem vem? A Globo é dona do nosso futebol? Vem debater com a gente!".

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Um dos integrantes La Garganta Poderosa, revista produzida em favelas de Buenos Aires

No terceiro dia do fórum, cerca de cinco mil pessoas — segundo estimativa do ministro — já tinham passado pelas portas da Fundição, onde havia presa na parede uma cartela de adesivos contra o presidente da Câmara dos Deputados ("Fora Cunha!"). O número poderia dobrar até o final do encontro, torcia o organizador.

Juca destacou dois pontos no evento: a participação dos povos indígenas e as caravanas de pessoas de outros países da América Latina. O ministro lembrou que a integração com os vizinhos não pode se limitar a questões comerciais. "É preciso pensar em um mercado comum cultural”, propôs.

Arte como forma de integração

Participantes vieram em caravana de outros estados e países. Boa parte dos viajantes está acampada na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão. Um deles é Pablo Cazarré, que veio de Montevidéu para representar a Casa Vilardebó, centro cultural instalado em um imóvel abandonado da capital uruguaia.

Pablo disse que a barreira da língua impede uma integração maior do Brasil com seus vizinhos, mas ressaltou que o intercâmbio está mais avançado no campo das artes. "A música é um idioma a mais”, avalia.

Também estavam presentes no fórum representantes da revista argentina La Garganta Poderosa, produzida nas favelas de Buenos Aires desde 2010. Para um dos integrantes da publicação — eles não se identificam, para evitar que somente uma pessoa fique com o protagonismo —, o evento tem três características positivas: compartilhar experiências, gerar vínculos entre os participantes e o convite a repensar as políticas dos países latino-americanos.

Recém-chegado no Brasil, o ativista se disse surpreso com o tamanho do país. “Há uma diversidade muito grande”, avalia. Ele também ficou impressionado — negativamente — com o número de pessoas morando na rua.

Após poucos dias de Rio de Janeiro, Pablo e o jornalista da La Garganta avaliaram que a cidade é mais segura do que fazem parecer as notícias que chegam aos seus países. A mídia estrangeira supervaloriza a insegurança, disse Pablo. “O que chega no Uruguai são as novelas e as notícias policiais”, relata. "Caminhei muito e não tive problemas", garantiu Pablo.

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Vãngri Kaingáng, uma das índias que foi removida da Aldeia Maracanã, oferecia pinturas para os participantes

Índios pedem solidariedade

Os indígenas também marcaram forte presença, utilizando o título do evento como provocação. "É emergência mesmo”, comentou Floriza Souza, da etnia guarani-kaiowá, do Mato Grosso do Sul, ao pedir mais atenção para os problemas de sua tribo. "Não temos mais terra, não temos onde plantar."

Além de representantes de etnias que habitam o interior do país, estavam presentes também alguns índios cariocas. Vãngri Kaingáng, por exemplo, pretendia relatar como vivem os antigos habitantes da Aldeia Maracanã. “Nossa emergência é pedir de volta o espaço do Museu do Índio. Está fazendo muita falta. Não temos como fazer nossa fogueira, nossos rituais”, comenta Vãngri, que mora agora em um prédio em um conjunto do programa Minha Casa Minha Vida, no Estácio.

Em sua fala ,Vângri refere-se aos não-indígenas como “os brasileiros” — excluindo-se, portanto. “Não adianta, somos diferentes. Sentimos muita falta da aldeia, da natureza”, lamenta.

A índia, que também é escritora, oferecia pinturas corporais aos participantes do evento, e se disse bem-recebida. “Eles têm muita curiosidade em conhecer a gente. A pessoa quer saber a matéria-prima da tinta, o significado. Você está passando adiante o conhecimento tradicional indígena”, contou ela.

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