10 Perguntas

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10 Perguntas 11 / 02 / 2016| Isabela Fraga Anabela Paiva

Estamos vivendo cada vez mais — isto é um problema?

Das calçadas cheias de pedras portuguesas mal-ajambradas à falta de políticas públicas voltadas para a terceira idade, o Rio de Janeiro ainda está bem longe de ser uma cidade adequada para idosos. Ainda assim, um dos seus bairros tem a maior concentração deles do país: Copacabana, onde 31% dos habitantes têm mais de 60 anos. "É o retrato do Brasil daqui a três décadas", descreve o médico Alexandre Kalache, diretor do Centro Internacional da Longevidade (ILC-Brasil) e ex-chefe do Programa de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS). Nesta entrevista — feita pessoalmente e por e-mail —, Kalache explica por que o Rio não é uma cidade "amiga do idoso" e conta a situação do ILC, um dos alvos da drástica contenção de despesas do governo estadual.

  1. Qual o panorama do envelhecimento no Brasil e no Rio hoje? Para vocês terem uma ideia: do ponto de vista do Brasil, o país tem hoje em torno de 12,5% de pessoas com mais de 60 anos. No ano de 2050, vamos chegar a 30,5%. Em 2065, quando o Rio completa o quinto centenário, esse número sobe para mais de um terço, 34,7%. Ou seja, o que mais vai caracterizar a população do Brasil e do Rio, em especial, é o crescimento vertiginoso do número de idosos. Isso se dá porque as pessoas estão vivendo muito mais. Por exemplo: eu nasci no Rio, sou carioca de Copacabana. E a maternidade onde nasci é hoje o hospital São Lucas, que virtualmente é um hospital geriátrico – só há idosos. Quando nasci, a expectativa de vida era de 43 anos; hoje, é de 76. É muito tempo de vida, e não tempo de velhice. Por isso, as influências dessa longevidade, desse “viver muito mais” se fazem sentir ao longo de toda a vida. Temos que inculcar na cabeça do jovem que o futuro dele é viver muito mais. Você vai viver 30 anos a mais que seus avós. Mas e aí? Quais as implicações disso para você?
  2. O senhor acha que o brasileiro tem esse costume de pensar no longo prazo – no longo prazo da longevidade? Não, o brasileiro é muito imediatista. Mas nós devemos nos preparar em quatro vertentes para chegar a essa idade longeva com qualidade de vida – porque chegar à velhice debilitado, dependente, é muito complicado. Precisamos acumular capital vital – saúde –, pois todos estão interessados em viver bem. Precisamos acumular capital de conhecimento, pois se deixarmos isso de lado vamos virar obsoletos. Precisamos acumular capital financeiro também: ainda mais em tempos de crise como hoje. Quem tem essa possibilidade, deve caprichar, porque a pensão [aposentadoria] não é como antes. Nesse quesito, o Brasil hoje está na contramão da história: nós nos aposentamos, em média, com 54 anos. Isso não é sustentável, pois não é como antigamente, quando se viviam mais 10 anos depois dos 54. Hoje, você se aposenta aos 54 e vive até os 85 ou mais! O outro capital - a quarta vertente - que precisamos acumular é o social. Minha mãe, por exemplo, está com Alzheimer. Até cinco anos atrás ela se valia do capital social que havia acumulado ao longo da vida — amigos, família —, era uma pessoa afável, inteligente, espirituosa, interessante, jovial. Agora, aos 98 anos, esse capital não existe mais. Mesmo que ela pudesse hoje bater um papo com as amigas no telefone,não teria para quem ligar. Ela é sobrevivente da geração, precisa se apoiar na geração seguinte. E, se você for um velho ranzinza acaba que ninguém te tolera – portanto, capriche, mantenha a leveza o bom humor. Precisamos pensar que vamos chegar a uma determinada idade, com a longevidade, que não vamos estar bem, e a chance é que alguém cuide de nós. Temos que caprichar nas relações intergeracionais por isso.
  3. Essas responsabilidades são da ordem do indivíduo. Mas e de um ponto de vista da sociedade, da coletividade? O que é preciso fazer? É a mesma coisa. Se você, como indivíduo, precisa juntar quatro tipos de capital, a sociedade, o poder público, as empresas, as ONGs precisam facilitar esse processo, ir pelo mesmo caminho. Precisam fazer com que as pessoas possam viver ativas, com qualidade de vida, com mais saúde. Por exemplo, transporte público: como se pode envelhecer numa cidade que não oferece a oportunidade de transitar com conforto? Se você quer visitar a sua filha, ir à igreja ou ao médico, ou simplesmente passar tempo, precisa de transporte público de qualidade, seguro. Aqueles que dirigem, quando envelhecem, com frequência passam a não dirigir. É normal: tememos a agressividade do trânsito, nossa visão se deteriora, os reflexos tornam-se mais lentos. Para entrar no ônibus, há uma barreira inicial, pois é preciso fazer muita força para subir um degrau daquela altura. Tenho inclusive um projeto para isso, mas não foi implementado porque é necessária a colaboração do dono das empresas de ônibus, das montadoras – e nenhum deles se preocupou em investir em pesquisa e tecnologia barata para que, o degrau desça 20 centímetros quando a porta do ônibus abre.
  4. Os novos ônibus comprados pela Prefeitura do Rio, contudo, são mais baixos. Isso não seria suficiente? Mas será que na periferia do Rio há esses ônibus? Se pensarmos em termos de Brasil, uma minoria dos municípios tem dinheiro para comprar ônibus que se “ajoelham” para que o passageiro entre. Com uma tecnologia tupiniquim que eu sei que é barata, o problema é resolvido. Uma vez, fui fazer uma palestra para jovens no Sesi no interior de São Paulo. Sugeri que eles desenvolvessem um projeto de um mecanismo simples e barato que fizesse o degrau da porta do ônibus descer quando abrisse. E eles fizeram. O custo, se produzido em massa, sai em torno de R$ 1.700 por porta. Isso, a empresa recupera com rapidez. E a empresa vai vender ônibus amigo do idoso. E, se é amigo do idoso, é amigo da grávida, da criança, do adolescente que está com uma mochila pesada. Isso que estou falando é a ideologia do envelhecimento ativo, um processo de aumentar as oportunidades de acúmulo desses quatro capitais, de modo que as pessoas e a sociedade possam ter mais acesso à saúde, a capital financeiro, social e de conhecimento. Quando se propicia essas oportunidades, a maioria das pessoas vai viver bem por muito mais tempo. Mas é claro que isso depende de uma aliança de todos os setores da sociedade, não é coisa que se faça sozinho.
  5. Que tipo de projeto pode ser feito para propiciar esse envelhecimento ativo?
    Por exemplo, quando eu era diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), eu me dei conta de que 2007 seria um ano histórico. Foi a primeira vez que a ONU declarou que havia mais pessoas vivendo em zonas urbanas do que em zonas rurais. Ou seja, no século XXI há mais e mais pessoas envelhecendo e vivendo em cidades. Assim, me voltei para Copacabana, o bairro do Rio com maior número de idosos, proporcionalmente: 31% dos habitantes de Copacabana têm mais de 60 anos. É um pequeno Japão dentro do Brasil, mas também o Brasil de daqui a três décadas. Copacabana é o Brasil de 2050. Em vez de ver carrinhos de bebê na rua, vemos cadeiras de roda, andadores e acompanhantes. Só que, para cada idoso que vemos na rua, há muitos outros em casa, vivendo mal, isolados, com perda de independência, sem apoio. Em 2005, então, fizemos um estudo com grupos focais de idosos. Muitos disseram que gostam de viver em Copacabana porque lá têm seus melhores amigos. E adivinha quem são os amigos? Os porteiros. Uma senhora, por exemplo, disse que toda noite rezava para que o porteiro de seu prédio não morresse antes dela “porque ele está ficando velhinho, sabe?”. Então apresentei essa ideia ao Bradesco Seguros, fizemos estudo mais aprofundado e pronto: nasceu o programa.
  6. Esse programa tem potencial de se tornar uma política pública? Sim, é claro. É o que estamos tentando. Isso faz parte de um movimento que criei na OMS de “cidades amigas dos idosos”. Começamos com 35 cidades com base nessa experiência improvisada, tupiniquim, de Copacabana. Depois, com uma metodologia mais consistente – um protocolo de pesquisa chamado protocolo de Vancouver, fomos para 35 cidades — como Cidade do México, Tóquio, Manilha, Nova Délhi, Moscou. Com os dados coletados nessas cidades, fizemos o guia da OMS para a cidade amiga do idoso. Hoje, projetos baseados no Guia e no protocolo de Vancouver estão presente em cerca de 1.800 cidades por todo o mundo.
  7. O que o Rio já fez na direção de se tornar uma cidade mais adequada para pessoas idosas? A cidade tem parque e academias de ginástica voltadas para idosos. Algumas casas de convivência já existem e outras estão para ser inauguradas. Ha planos para construir “centros-dia” (que permitam você deixar seu parente idoso sob cuidados, ir trabalhar em paz e, no final do dia, recolhê-lo). A Atenção Primária à Saúde foi expandida e mais de 70% da população do Rio hoje têm acesso a centros de Saúde da Família. Eu voltei a viver no Rio em 2009 e constato um progresso tangível. Mas quero mais, muito mais. E quero também que a sociedade como um todo – e o governo em particular – entenda uma coisa: Se, ao invés de você ter uma pessoa com hipertensão (que poderia ter sido prevenida lá atrás, mas não foi ), você tiver uma pessoa com complicações – por exemplo, um derrame cerebral –, o tratamento e o cuidado desta pessoa depedente vai custar muito, mas muito mais caro do que manter o hipertenso com sua pressão arterial controlada. Uma coisa é tratar pacientes crônicos bem controlados. Outra é deixar os problemas crônicos saírem de controle. Tudo isso é importante não só do ponto de vista humanístico, mas também do financeiro. E você acaba com menos recursos para a saúde infantil, reprodutiva, programas de vacinação... Ou para matar mosquitos em um país infectado. Ter políticas adequadas para o idoso é fundamental para não se gastar mal o dinheiro público. São necessárias duas coisas para que essa política funcione plenamente: pessoal bem treinado e articulação com a atenção secundária, os hospitais. Afinal, há situações em que é preciso encaminhar o paciente para um parecer especializado. Só que, em muitos casos hoje, esse parecer pode demorar quatro, cinco meses. E às vezes o ansiosamente esperado resultado nunca chega. Também a oferta de residências para idosos é mínima — mesmo para quem pode pagar. Em muitas as condições são precaríssimas – imperam os relatos de abuso, negligência.
  8. Qual a importância também de uma política habitacional voltada para o envelhecimento? Hoje em dia, numa cidade como o Rio, está ficando cada vez mais difícil que o idoso more com sua família – os apartamentos são pequenos, não há mais esse espaço e os filhos se dispersam Brasil afora ou vivem no exterior. Por isso, a questão da política de moradia é muito importante. As políticas habitacionais estão totalmente caducas no Brasil: não se preparam casas para que a pessoa que esta envelhecendo possa continuar morando onde sempre morou. Isso vai desde o desenho de uma casa que evite quedas, onde o piso seja antiderrapante, até a altura das unidades da cozinha etc. Tudo isso deve ser pensado na hora de se planejar e construir de acordo com normas consagradas internacionalmente.
  9. O senhor também lidera uma pesquisa financiada pela Faperj sobre indicadores do envelhecimento ativo no estado do Rio. Como anda a pesquisa? Estamos terminando. Primeiro, fizemos uma revisão do conceito de envelhecimento ativo e, depois, um estudo piloto para ver como podemos trabalhar com indicadores desse envelhecimento ativo. Devemos terminar até final de março. O envelhecimento ativo é uma ideologia alicerçada nos pilares da saúde, educação ao longo da vida, participação social e proteção/segurança. Se você tiver esses pilares sólidos, poderá fazer uma política pública bem alicerçada. Os determinantes do envelhecimento ativo são: serviços, estilo de vida, determinantes pessoais, meio ambiente físico, determinantes sociais. E isso tudo está interligado com determinantes econômicos. Cada um desses grupos de determinantes influencia o envelhecimento ativo isoladamente e também de maneira interligada, num substrato de cultura e gênero. Afinal, a forma como eu, homem, e você, mulher, envelhecemos é diferente. Porque a construção social do que é ser homem e mulher em determinada cultura vai determinar comportamentos: espera-se que a mulher cuide, e que o homem seja cuidado. Com a longevidade, vai haver menos mulheres para muitas pessoas precisando de cuidado. Esses quatro pilares serão as bases para buscarmos indicadores para medir o envelhecimento ativo.
  10. Temos notícia de que o futuro do Centro Internacional da Longevidade (ILC) no Brasil não está garantido. Isso procede? Espero que não. Neste momento preciso em que lhe concedo essa entrevista, estou um pouco apreensivo, mas confiante. O ILC funciona em um prédio que pertence à Secretaria de Estado de Saúde (SES). As medidas recentes de contenção drástica das despesas face à situação calamitosa da economia do estado nos afetaram. O recém-empossado secretário solicitou o prédio para lá alojar grande parte dos funcionários da secretaria, de modo a desocupar um prédio alugado no centro. O ILC é uma estrutura muito enxuta: são três funcionarias (eu não conto, não recebo absolutamente nada do estado, meu trabalho é pro bono). Trabalhamos através de múltiplas parcerias, o que garante nossa alta produtividade – e visibilidade. As três pessoas foram demitidas. Mas, no sábado, 23 de Janeiro tive uma reunião com secretário e ele me assegurou de que o ILC continuaria no prédio (em outras salas, o que não importa) e que as funcionárias seriam mantidas. Confio em suas palavras, mas tenho razão para estar apreensivo porque o tempo está passando, a ordem de sair permanece (sem uma alternativa de espaço ter sido apresentada) e nenhuma medida para a reinserção das três pessoas foi tomada. Mas, que fazer: nasci otimista, e o passar dos anos me fez resiliente. Quem sabe você me reentrevista no final de fevereiro e eu lhe direi, sorridente: “tudo resolvido”?

Com esta entrevista, o Vozerio inicia uma série de reportagens sobre mudanças demográficas da população, realizada em parceria com a Universeg/Bradesco Seguros.

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Convidado

Alexandre Kalache

Médico, é presidente do Centro Internacional de Longevidade (ILC-Brazil).

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