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Conversa na Biblioteca 21 / 10 / 2015| Isabela Fraga

Feminismo sem meias palavras

Em palco ocupado por mulheres, evento debate a propagação de pautas feministas entre garotas cada vez mais jovens, o feminismo na periferia e a história do movimento.

Um festival de bandas de rock de mulheres, campeonatos de skate feminino, coletivos de meninas em escolas e universidades, diversas páginas no Facebook, no YouTube e inúmeros blogs. É: as jovens brasileiras de grandes cidades estão abraçando cada vez mais o discurso feminista, sem meias-palavras ou relativizações. Quais as origens e motivações dessa renovação e "rejuvenescimento" do feminismo hoje? Quais suas limitações e efeitos na formação das mulheres?

Para debater as questões em torno da suposta "nova onda" do feminismo brasileiro, o ’Conversas na Biblioteca’ desta terça-feira (20/10) convidou três mulheres que pensam e vivem o movimento: Giordana Moreira, produtora cultural e uma das fundadoras e organizadoras do Festival Roque Pense; Sofia Soter, coeditora e cofundadora da revista para meninas adolescentes Capitolina; e Liliane Brum Ribeiro, antropóloga e pesquisadora da Redeh. O evento, como de praxe, foi realizado na Biblioteca Parque Estadual.

Nascida e criada na Baixada Fluminense, Giordana teve experiências com machismo bem diversas das vividas pela classe média da Zona Sul carioca. "É muito diferente ser mulher na periferia. Quando eu tinha cabelo rosa, as pessoas me xingavam muito na rua: ’Você é maluca, esposa do demônio’. Se você sair de cabelo rosa no Leblon, é só moderna. É tranquilo."

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Marcha das Vadias em 2014: o corpo da mulher em foco (foto: Fora do Eixo/CC BY-SA)

A diferença de classes se revela sobretudo no tratamento reservado à mulher pelo próprio governo. "[Isso] é determinante inclusive em situações como o aborto: quem tem dinheiro vive; quem não tem, pode morrer. E também para o cumprimento da [lei] Maria da Penha: se você tiver uma medida protetiva na bolsa em uma boate em Ipanema, tranquilo. Mas se for a mesma situação em Caxias, a polícia não chega."

A vivência do machismo na Baixada e a afinidade com as esferas do rock e do hip hop — ambas majoritariamente masculinas — fizeram Giordana se aproximar do discurso feminista. O principal resultado dessa aproximação foi o Roque Pense, festival de rock feminino que já vai para a quarta edição em 2016. "Desde que comecei a me interessar por rock e hip hop, sempre só havia eu de menina", conta ela. O Roque Pense só aceita inscrições de bandas com integrantes mulheres, que tocam num "palco lindo, com luz linda e som lindo", nas palavras de Giordana.

Do individual ao coletivo: o pulo do gato

Assim como aconteceu com Giordana, o feminismo parece se consolidar de fato no discurso da juventude quando passa de uma questão individual para tornar-se coletiva. Foi o caso da revista Capitolina, que nasceu da união de meninas preocupadas com a representação das adolescentes na mídia tradicional.

"Nossa proposta é ’empoderar’ nossas leitoras em um sentido não apenas individual, mas comunitário", explicou Sofia, acrescentando que a Capitolina tem mais de 100 colaboradoras que trabalham em conjunto. "A internet ajuda muito, pois possibilita que todas essas pessoas tenham voz na mesma plataforma."

Para Giordana, a empatia com o outro é fundamental na construção de um feminismo de classe. "Todo mundo tem contato com o feminismo a partir de uma questão pessoal, mas, para mim, o movimento é feito na coletividade, é quando você pensa: ’e as outras?’" E as outras não se restringem às jovens, mas também às suas famílias. "Você tem de saber falar com a mãe daquela adolescente para que ela compreenda a questão do feminismo também."

Se, por um lado, a tecnologia favorece uma espécie de união feminina, o encontro presencial também é importante. Lembrando a frase popular "Mulheres são como água, crescem quando se encontram", Liliane frisou as diferenças formas de coletivos femininos em prática hoje. "É muitas vezes o [encontro] físico que nos permite enfrentar as nossas diferenças", afirmou a antropóloga. Liliane faz parte do grupo que tem mobilizado a #partidA, iniciativa que pretende inserir mais mulheres e pautas feministas na política partidária.

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Manifestação feminista nos anos 1970: a pauta da regulamentação do aborto perdura (foto: Socialist Alternative)

Um feminismo menos institucionalizado

Embora considere importante a participação feminina nas instituições, Liliane identifica no feminismo de hoje uma liberdade e uma independência que tornam o momento atual mais particular. "Já houve movimentos feministas muito mais institucionalizados. Hoje temos expressões mais livres, independentes, mas que congregam pautas", opinou ela.

Pautas essas, aliás, que são as mesmas de muitas das pautas históricas do movimento feminista. Autonomia sobre o próprio corpo, desigualdade salarial e representação nos meios de comunicação não são, é claro, demandas que surgiram nos anos 2000. "Nos anos 1970, uma das principais bandeiras do feminismo era "Esse corpo nos pertence". Já forte naquele período, hoje a pauta do corpo ainda é central."

De fato: a frase "meu corpo, minhas regras" tem estampado corpos, cartazes e materiais visuais expostos nas passeatas e nas redes sociais. Assim como discussões sobre ideais de beleza, imposição da magreza e questões semelhantes. "É no corpo que experimentamos a opressão mais concretamente, nas suas diversas expressões", salientou Liliane. Esse controle sobre o corpo feminino, aliás, começaria justamente na puberdade: "Na adolescência, seu corpo passa a ser muito mais visível para o mundo, e você se torna mais sensível a esse tipo de opressão", acrescentou Sofia.

Da plateia, ficou clara a interseção do debate sobre feminismo com questões relacionadas a outras minorias — como a população LGBT. Aline, da Casa da Mulher Trabalhadora, lembrou a invisibilidade das mulheres negras, pouco representadas mesmo no próprio feminismo. "Por que não tem mulher negra aqui hoje? Nós não nos vemos nesse feminismo, que não nos contempla", criticou ela.

Virginia Figueiredo, da Liga Brasileira de Lésbicas (LBL), lembrou que a mulher lésbica é invisível para a política, lembrada apenas durante as eleições. "Mulher é troca de mercadoria, sobretudo as lésbicas, as negras, as trans", afirmou ela, lembrando que enquanto corre a discussão sobe a #partidA, lançou-se o Partido da Mulher Brasileira — que, longe de ser feminista, tem uma agenda ultraconservadora.

Assista aos melhores momentos da conversa:

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