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Burburinho 29 / 02 / 2016|

Histórias cariocas

Em homenagem ao aniversário da cidade, escolhemos cinco histórias que representam bem o Rio, contadas por nossos leitores no Facebook; veja o resultado.

Foto: Carolline Leite

Luiz Fernando Pinto

O trem cria tendências! Ontem, Dragão Chinês e Picolé Moleka; hoje, Kit Kat e Reese’s

"Em aproximadamente 15 minutos chegará trem rumo à Central do Brasil", soa nos alto-falantes velhos da estação de Senador Camará. Não sei quem é a dona da voz, mas acho super sexy. Quinze minutos são 900 segundos, tempo suficiente para eu me deleitar com as histórias e personagens hilários do transporte sobre trilhos.
Ouço uma conversa entre dois ambulantes. Um vende o já tradicional chocolate Kit Kat, febre nos vagões cariocas. O outro está com uma caixa de Reese’s, e diz que vai fazer o lançamento da iguaria hoje.

— Rapaz, se eu fosse empresário, colocaria meu produto pra vender no trem. Tudo que comercializa aqui vira moda.

— Verdade. Lembra do amendoim Nakayama? Moleque, vendia que nem água.

— Então, hoje vou fazer esse lançamento novo no ramal Santa Cruz. Chocolate de gringo, lá das Américas.

— Esse aí eu nunca vi, nem comi.

— Ouvi falar e comprei. Fiquei treinando com a patroa ontem. Falar esse nome é difícil. Mas Maria tá fazendo cursinho de inglês e já sabe quase falar outra língua.

— Produto de bacana!

— Tá ligado, né? É marca e qualidade. Ó o coreano chegando. Vou pegar lá no último.

— Já é, vou pegar no primeiro mesmo. Boa sorte.

O trem chega e os dois rapazes adentram ao recinto com seus discursos na ponta da língua."


Emiliano Ermitão

" Eu trabalhava em Benfica, na rua São Luís Gonzaga, de madrugada. Ali perto do Bar Adonis. Às vezes, o meu trabalho terminava mais cedo, e eu ia, ainda de madrugada, para minha casa, no Flamengo. Pegava o 474, linha temida de madrugada. Eu costumava pegar o ônibus que vinha descendo do Viaduto Ana Neri, ali na rua General Gustavo Cordeiro de Farias... Uma noite, o clima da rua estava especialmente esquisito. Mesmo assim, fiquei sentado por ali, pois poderia vir o ônibus ... De repente, um cachorro vira-lata veio na minha direção e simplesmente se deitou aos meus pés e ficou vigiando a rua. A rapaziada que estava perto saiu dali. Fiquei como se fosse o dono do cachorro.... E lá veio o 474. Assim que fui pegar o ônibus o cachorro seguiu seu caminho. Nesse dia o ônibus veio tranquilo."


Diogo Belart

" Na véspera da final da Copa do Mundo, eu e meu pai fomos ao Terreirão do Samba para ver o acampamento argentino. Centenas deles se espremiam em barracas e dentro de trailers e motorhomes, unidos pelo sonho de ver o seu país campeão mundial. Havia famílias, hippies, gente rica, gente pobre. A grande maioria sem ingresso, mas querendo estar perto da seleção do seu país num momento tão importante. Nesse dia a cidade recebeu milhares de argentinos.

À noite partimos para Copacabana (a concentração deles foi lá) e na praia haviam mais carros argentinos do que cariocas. Vi desde táxi de Buenos Aires até ambulância argentina. Eles iam chegando um atrás do outro, fazendo parecer que a Argentina era logo ali. Mas são 2.500 quilômetros. Nesse dia eu tive a certeza de que o futebol é um esporte divino e move o povo."


Vanusa da Silva

"Festa de reinauguração da quadra da Portela, quem não se anima? Ainda mais quando o convite parte de uma amiga antiga e de bom astral.

Vou comprar uma água e a ambulante pergunta:

— Como conseguiu convite?

— Vou comprar agora.

— Não, não tem pra vender. É uma festa só para convidados.

Putz! Amigo é pra essas coisas, colocar a gente em furada.

— Oi, amiga, tudo bem? Já sabe, né? É uma festa para convidados e não temos convites, somos seis pessoas, não vai rolar. Qual vai ser?

— Bora encostar nesse carro e beber umas.

— Se é pra encostar, vamos ficar nesse aqui que é grande e caro.

— Quando o dono chegar, você segura a onda - riu.

Ficamos ali, no calor ameno do verão de Madureira, tomando umas e perguntando aos vendedores como conseguir convites. Eis que surge o dono do carro, pede licença e abre a porta. Pedimos desculpas.

Jana dispara:

— Moço, o senhor sabe como podemos conseguir uns convites? A gente vai pagar, não queremos de graça não, só queremos entrar.

O homem, com cordão e anéis de ouro, camisa social, cheio de si, responde:

— Vocês não têm convite? Quantos são?

— Seis, mas não cobra caro não, moço, sou professora, ganho R$1.400,00 por mês pra dar aula para 40 alunos, sabe o que é isso? O senhor sabe como é controlar e ensinar para 40 adolescentes por dois tempos de 40 minutos? Então, moço, faço isso. É puxado. Tem de ter um desconto. Aliás, professor tem que ter desconto em tudo, isso é investimento em qualidade de vida de quem faz educação nesse país.

— Sei não, trabalho com o prefeito, ganho R$10.000,00 por mês.

— Tá vendo? Vou trocar, trabalho no Estado e é esse sofrimento.

Jana é assim, começa num discurso e vai até você mudar de partido, religião, time, sexo, planeta. Discurso apaixonado e apaixonante, pessoa intensa.

O homem, meio tonto com a abordagem, abre a porta de trás do carro, pega alguma coisa, joga uma blusa por cima da mão e se vira pra nós.

Pensei: pronto, morri. Sairei no jornal amanhã: "Grupo assassinado na porta da Portela em dia de inauguração."

O homem passa os convites para um dos rapazes e manda contar baixinho.

— Tá certo?

Jana:

— Moço, quero pagar, sou honesta, ganho pouco, mas posso pagar...

— Psiuuuuu!!!!

— Fica quieta, Jana!

— Psiuuuuu!!!!

— Mas... Ele não cobrou, tá errado. Ele deu? Como assim?

— Deu dando, ué. Vamos entrar.

— E se ele vier cobrar depois?

— E se quiser pegar alguém do grupo?

— Gente, vambora, não sabe brincar, não desce pro play.

Entramos felizes e desconfiados, fizemos maior bagunça. Em determinado momento vimos nosso “padrinho” no camarote. Acenamos, assoviamos, mas ele fingiu que nem conhecia a gente. Não sei se por disfarce ou por vergonha das nossas coreografias, que são um capítulo à parte.

Rio, ô sorte!"

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