Pensatas & paixões

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Paixões 30 / 06 / 2015|

Houve um dia um restaurante: minhas memórias do 28

Em março, depois de 105 anos abertas, as portas do restaurante 28, no passado chamado Pastoria, se fecharam. Ficou órfão um grupo de cariocas que saía de vários pontos da cidade rumo a Gamboa, por amor ao cabrito com batatas e ao salão simples, com balcões de madeira, velhos cabides para chapéus na parede e anúncios de bebidas que já não existem mais. Um grupo desses frequentadores, reunido no Facebook, continua em busca de um substituto à altura, onde além de cabrito seja possível encontrar um arroz de polvo digno de suceder aos que o português Amandio Salgado servia. Outro português, próximo ao 28, está em fase de avaliação. Neste texto em homenagem ao restaurante em que costumava almoçar todas as sextas-feiras, o historiador Antonio Edmilson Rodrigues lembra histórias deste marco cultural e afetivo da cidade.

Perdi um amigo. Uso aqui a categoria amigo no coletivo, se a licença poética me permitir. Morreu o 28, acabou o Pastoria. Leiam isso como se eu estivesse berrando, pois essa é a minha vontade. Um berro comovido, choroso, de quem perdeu alguma coisa muito importante e que fez parte da minha vida por longo tempo.

No início era apenas o lugar onde comíamos. Ficava perto, era barato. Com o tempo e o amadurecimento, vieram os paladares, os cheiros, as conversas. No principio, só os sambistas, os compositores e os músicos. Robertinho Silva, Negreiros, depois Jorginho Gomes, Mestre Marçal, Serginho e Roberto Mendes, diretamente do Recôncavo Baiano e vários outros. Os da música foram se mudando, caminhando pra outras bandas e vieram os amigos.

Todo tipo de gente almoçou no 28 e é a eles todos que dedico esta crônica de uma morte anunciada

Aí o 28 ganhou fama. Alguns amigos, mais preocupados com a qualidade, diziam pra não fazer propaganda. Mas o movimento aumentava. Era gente de todo o lugar, não mais da redondeza. Chegaram gastrônomas que, além de amigas do peito, se destacavam pela avaliação da qualidade. Incorporaram-se os amigos e amigas da UERJ e da PUC-Rio. Mas a UFF não ficou de fora. Vieram os nossos alunos e os amigos dos nossos alunos. Outros amigos e amigas foram feitos pelo meio do caminho. Um dia criamos uma confraria, com a adesão de todos e com a eleição da presidenta, antes dos ares femininos pintarem no Planalto: a Angélica.

Almoçávamos quase todas as sextas-feiras. Apenas nos feriados ou quando alguém viajava é que nos ausentávamos. Vieram os artistas, o pessoal da televisão. Gravamos programas no 28, até internacionais. Dava gosto ficar na sexta até depois das 16 horas. Sim, porque o restaurante fechava às 16 horas. Mas quando Jacinto fechava as portas é que ficava bom. Aí a conversa ganhava outra direção e os mistérios do 28 eram abertos, junto com os seus segredos.

Numa dessas conversas soubemos que a casa tinha servido de residência para o Dom Obá, o filho de africanos que era reverenciado como “príncipe” entre escravos e libertos e foi pioneiro da luta pela abolição. Acompanhamos de perto as obras do Porto Maravilha, conhecemos a turma do Afoxé Filhos de Gandhi. Estrangeiros famosos se deliciavam comendo o cabrito com batatas coradas. Professores, antropólogos, sociólogos. Todo tipo de gente almoçou no 28 e é a eles todos que dedico esta crônica de uma morte anunciada.

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O cardápio de bebidas do 28, preso à parede: alguns refrigerantes nem existem mais, como o Crush

Mas, quem pensa que o 28 era só o cabrito está enganado. Era muito mais do que isso. Nós, em especial, tínhamos um cardápio que pouco se modificava. Às vezes, tomava o rumo do banquete quando, à mesa do professor, sentavam-se dezenas de pessoas. Mas, no geral, éramos em torno de dez. E o cabrito com o tempo transformou-se em primeiro prato, depois das azeitonas e do pão com manteiga e, por vezes, da sardinha portuguesa. Entre ele e o polvo com arroz, servido na panela, havia variações, por vezes feijão branco com costela ou feijão com carne seca. Mais recentemente, um porquinho também, com coradas. Passavam por esse ritual os cozidos, que no final só por encomenda.

Tudo regado a cerveja e vinho, por vezes, caipiras de maracujá. A pimenta não faltava, junto com o azeite, mas o principal era o vinagre de vinho feito ali. Nossa relação com a casa era tão boa que parecíamos os donos, a ponto de limpar mesas e servir. Esse conforto fez com que inventássemos uma sobremesa. A coqueluche da casa era o Romeu e Julieta (queijo requeijão com goiabada); surgiu o Pompeu e Marieta, que é a mistura de mamão com laranja.

Quando alguém ia ao banheiro, vinha o aviso: vai ao século XIX?

Quando alguém ia ao banheiro, vinha o aviso: vai ao século XIX? A arquitetura da casa possuía a diversidade de um antigo restaurante do Centro do Rio. Luminárias de estilo da década de 1920, nas paredes os ganchos próprios para os chapéus e os casacos e os banheiros que davam para o Morro do Livramento do século XIX. E essa arquitetura combinava com o entorno recheado de atrações. Na frente do 28, um exemplar da arte decô carioca, do lado os Jardins do Valongo, olhando para cima o Morro da Conceição. Por estar nesse lugar privilegiado, o 28 servia de parada para os passeios pelo centro do Rio.

O 28 era a nossa casa! Mas passemos para capítulos que não são da comida. Vamos aos tipos do 28. Comecemos por aqueles que faziam o lugar existir. Seu Amandio, sério, mas que sempre tinha um sorriso de rabo de boca para mostrar que o rosto sério era ironia. O homem da caixa e da cozinha. Vinha de Vila Valqueire às 2 horas da madrugada pra cuidar de tudo. Alimentava-nos com histórias do arco da velha. Jacinto já era de outro estilo. Era o homem que mantinha todos alimentados, servindo e arrumando as mesas, sem nunca reclamar quando juntávamos várias, tumultuando o ambiente. Houve época em que confiavam tanto em mim que me tomavam como o historiador do 28 para falar com jornais e revistas.

E o capítulo dos jornalistas é um caso a parte. Numa dessas entrevistas, aconteceu uma dessas estórias que só aconteciam no 28. Apareceu uma jornalista jovem para fazer mais uma reportagem sobre o restaurante. Seu Amandio não teve dúvidas, levou-a para nossa mesa. A nossa primeira surpresa foi saber que ela já tinha almoçado. Alguém disse alto: “Ué, você vem fazer uma reportagem no 28 e almoça antes?”. Mas a coisa não parou por aí. Comíamos um polvo com arroz de brócolis e, por gentileza e também para que sentisse o gosto, a servimos. Rogério nos olhou atravessado e depois confessou sua irritação ao ver a jovem jornalista separar o arroz e deixar no prato o polvo.

Uma outra estória que não posso deixar de contar aconteceu próximo de um carnaval. Mariana não pode ir por conta do nascimento da primeira neta de uma amiga de nós todos e também frequentadora – a Nádia – e não teve dúvida. Pediu que lhe enviássemos o cabrito preparado pra viagem e o comeu na lanchonete da maternidade.

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Após 105 anos em funcionamento o restaurante 28 fechou as portas na Gamboa

Jacinto era o grande fotógrafo do 28. Enchia as paredes com fotos dos que frequentavam e fotografava aqueles que queriam uma lembrança do momento. Lutou na guerra colonial portuguesa em Angola e, como não gostava de atirar, tocava vários instrumentos e fotografava. Hoje tem cerca de 1.000 fotos da guerra em todos os ângulos possíveis. Seu hobby é comprar máquinas fotográficas: tem mais de dez. Também era aquele que passava os cartões antes de sua neta, depois da morte de sua mulher, assumir este trabalho. Nós gostávamos quando a conversa ia longe e Jacinto saía em direção a sua casa, pois aí quem passava os cartões éramos nós; uma amiga, em especial, adorava fazer isso, já treinando pra quando tivesse o seu restaurante.

Havia o Quém-quém, de saudosa memória, meu amigo até debaixo d’ água. Já mais velhinho, dava o tom da casa nas brigas entre os dois proprietários, entre eles e com o Qúem-quém. Dizem por aí que o Chico Anísio teria criado o tipo do garçom que recebia esse nome depois de ir ao 28 e conhecer o Isaías.

Depois veio a Cláudia, a mulher garçom mais delicada e atenciosa que conhecemos. Trazia junto com ela as duas filhas. Estou me vendo, numa sexta, dando aula de história para a mais nova, que havia ficado em recuperação. As cozinheiras são um capítulo a parte. Além de serem a alma da cozinha, pois os sabores e os cheiros dependiam delas. Transmitiam ao lugar os mistérios dos temperos que usavam. Eram as herdeiras de Dona Ana, cujo retrato adornava o armário de bebidas e de copos atrás da caixa. Nossas amigas mais fiéis, que perguntavam por todos e que nos chamavam atenção quando alguém da turma faltava às sextas.

Olhemos, agora, para os que se sentavam à mesa. Dois, em especial, encabeçam a lista. O primeiro, por ordem de chegada ao 28, é o Seu Luis. Senhorzinho mais velho, lá pelos seus 70 anos, só entrava no 28 quando o movimento diminuía. Não gostava de barulho. Chegava com um cordão de prata no pescoço, camisa de fazenda aberta com o peito de fora, calça de sarja surrada e chinelo. O que chamava atenção eram seus cabelos brancos meio amarelados e cumpridos. Sentava-se no fundo do restaurante, sozinho. No início não dava bom dia; depois, olhava pra gente e, sorridente, ria. Era um tipo do 28.

Chama-se Dona Augusta, é austríaca, e tornou-se, com o tempo, a marca do 28

O outro tipo é uma senhorinha. Ela veio mais tarde, com uma vontade enorme de curtir com gosto o restaurante. Não havia sol e chuva que a fizesse desistir de um 28 na sexta-feira. Chegava devagar, com o seu traço aristocrata, sempre muito bem arrumada, elegante, trazia consigo seus óculos escuros e a bolsinha, sentava-se junto à parede e sorria todo o tempo. Sua alegria contagiava e todos olhavam para ela admirados de sua vontade de comer e de sua simpatia. Antes de se sentar, ia até a cozinha e cumprimentava as cozinheiras, sempre dando um dinheirinho.

Chama-se Dona Augusta, é austríaca, e tornou-se, com o tempo, a marca do 28. Foi a rainha da nossa mesa. Sempre curiosa com os novos amigos e amigas. Com sua voz compassada, sempre perguntava: “Quem é você?”. E esticava a conversa. No dia 31 de outubro de 2014, Dia das Bruxas, completou 100 anos no 28, com uma enorme festa que ficará para sempre na memória daqueles que ganharam o presente de estar lá. Por causa dela, vieram os nossos filhos e outros parentes. Rogério, filho de Dona Augusta, de quem já falamos, e que nos deu de presente, em várias ocasiões, a visita de estrangeiros.

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Os donos Amândio e Jacinto e a garçonete Claudia comemoram os 100 anos da freguesa Dona Augusta

Há uma estória que não posso deixar de contar. Uma sexta, aguardava a chegada das pessoas e entrou um casal. Pela pinta pareciam estrangeiros. Perguntaram alguma coisa ao Seu Amandio, que imediatamente olhou pra onde eu estava. O casal se aproximou e, em français, disse que eram amigos do Rogério.

O almoço foi muito agradável e no final, quando o casal se retirou, veio a surpresa: o casal havia optado por pagar todos os vinhos que havíamos bebido. Atônitos com o fato, brincamos toda a tarde com essa estória. Não podíamos imaginar que franceses dados a economia tivessem tomado tal atitude. No meio da brincadeira, pedimos a conta. A surpresa foi ainda maior. Os vinhos pagos custaram muito mais barato que a divisão da comida. Aí entendemos tudo.

Nos últimos tempos, se juntaram alguns que passaram a fazer parte do 28 e hoje conhecem seus segredos como eu. Foram muitas sextas feiras, muitas experiências diferentes, desentendimentos, alegrias, por vezes frustrações. Só hoje, várias semanas depois da morte do 28, é que consigo tentar escrever. Sinto por dentro um vazio, falta alguma coisa. Acordava na sexta e sabia que ia encontrar quem eu gostava e quem gostava de mim.

Até o último momento de existência do restaurante, Seu Amandio praticou a sua maldade. Sabendo que tinha vendido, não falou com ninguém. Nem mesmo comigo, que fiquei cheio de esperanças quando falei com ele por telefone e ele me disse que era boato, isso numa terça-feira. O restaurante fechou na sexta seguinte.

Nós vamos sair em campo em busca de algum restaurante que possa nos trazer o prazer da mesa como o 28 fez

Resta-nos pouco a fazer. Podemos reclamar da Prefeitura que fez uma obra que reduziu a clientela ou das dificuldades de dois senhores que passaram a vida trabalhando e querem descansar. Mas isso de nada adianta. O melhor é reter nos olhos, nos narizes e nos ouvidos os barulhos, as vozes e os cheiros que vão ressoar pra sempre nos corações daqueles que viveram essa experiência única e nas paredes do prédio que abrigou por mais de um século um dos melhores restaurantes da cidade.

Nós, por outro lado, vamos sair em campo em busca de algum restaurante que possa nos trazer o prazer da mesa como o 28 fez. Como derradeira homenagem, poderíamos providenciar uma placa, como tantas que o 28 ganhou durante a sua vida, e escrever nela: "Aqui jaz o 28, restaurante da boa mesa que serviu a todos durante mais de século, mas que, cansado deu seu último suspiro no dia 28 de março de 2015". Ponto final.

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Convidado

Antonio Edmilson

Professor de História da PUC-Rio, especializado em história do Brasil, autor de João do Rio - a cidade e o poeta

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