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Nuvens de crise sobre o Rio 5 / 03 / 2015| Rosa Lima (especial para VozeRio)

Incerteza econômica deixa empresários de "umbigo no balcão"

Frente à crise econômica que paira sobre o estado, empresários preferem não fazer planos e temem aumenta de preços.

Termômetros da economia, as agências publicitárias vivem um momento de apreensão, diz o publicitário Glaucio Binder. Presidente da Federação Nacional das Agências de Publicidade, ele lembra: "Janeiro e fevereiro são tradicionalmente meses ruins para a publicidade, a receita de anúncios cai mesmo. E, com a desaceleração da economia, as perspectivas para os próximos meses não são nada boas."

Mas o quadro não é totalmente sombrio. Em relação ao Rio, há expectativas positivas por conta da crescente visibilidade mundial da metrópole, a chegada de investimentos e as obras em curso. E, no campo da publicidade, as transformações provocadas pelo crescimento das mídias digitais podem representar uma janela de oportunidades.

"Está havendo uma distribuição de verba de uma forma completamente diferente da tradicional, mais pulverizada, em veículos que atingem um público mais classe C, como os digitais. As soluções de comunicação têm de estar atentas a essa multiplicidade crescente de canais, usar as ferramentas de forma mais eficiente para os clientes, descobrir um jeito de rentabilizar essa operação ou, pelo menos, fazer uma entrega diferenciada", afirma o presidente da Binder. Em suma, diz Glaucio, repetindo uma frase ouvida de um consultor: "O ano vai ser excelente para quem souber trabalhar nele."

"Quem tinha plano de abrir loja, desistiu"
Dono da Citycol, que fabrica e vende roupas para a classe C, David Saad é menos otimista. No curto prazo, avalia, as perspectivas são desalentadoras. "O momento para nós é o pior possível. O movimento estava relativamente bom até o carnaval, mas a inflação está batendo forte na porta, todo mundo já está aceitando que vai ter aumento. O contato com os fornecedores está muito difícil, é uma queda de braço danada e chega uma hora em que a gente cede porque não tem mais argumento. E aí vira uma bola de neve, porque já se instalou uma indexação de tudo. Quem tinha plano de abrir loja, desistiu", afirma ele.

O movimento estava relativamente bom até o carnaval, mas a inflação está batendo forte na porta, todo mundo já está aceitando que vai ter aumento" David Saad, dono da Citycol

Com um faturamento de R$ 200 milhões em 2014, a meta da Citycol era vender 15% a mais este ano. Hoje, o empresário já não sabe se vai conseguir manter a receita do ano passado. "Vem coleção nova agora já com aumentos de 15 a 20%. Isso é uma grande preocupação, porque nos traz uma enorme incerteza do nível de atividade para os próximos meses. Não estamos nem olhando para o segundo semestre. Não dá para ter programação. A gente fica com o umbigo no balcão, vendo o que vai fazer a cada dia. Segura o investimento, trabalha com pouco estoque e fica tocando o negócio no dia a dia", diz Saad.

Há sessenta anos no mercado, com oitenta lojas espalhadas pelo Rio, Espírito Santo e sul da Bahia, a Citycol produz 30% do que vende, compra 55% no mercado interno e importa os demais 15%. São setecentos empregados no parque industrial e quinhentos mil clientes por mês, comprando em média R$ 30 cada um. As importações complicam ainda mais a situação. "Estive na China há seis meses, comprando produtos com o dólar a R$ 2,40, calculando pagar R$ 2,60, mas agora está R$ 3, e aí você já não sabe o que faz."

Como estratégia a médio prazo, ele pretende reduzir a venda de produtos importados no catálogo. "Ou a gente aumenta 30% ou deixa de vender e procura investir num produto de algodão feito aqui." Os pequenos e micronegócios também estão sofrendo com os aumentos, mas têm menos clareza do quadro que se avizinha. Rivaldo Herculano da Silva, há 16 anos à frente da Sorveteria Rigra, na Maré, Zona Norte do Rio, diz que seu negócio, por enquanto, vai bem. "O meu setor foi beneficiado pelo sol. Sorvete é um produto sazonal, com pico de venda no verão, e mesmo com os aumentos de custos, principalmente de energia, as vendas continuam em alta, e estamos conseguindo segurar os preços. A única exceção é o açaí, que sobe praticamente toda semana. Acho que é porque ele caiu no gosto do mundo", avalia Rivaldo.

“Nós, que somos microempresas, não temos incentivo para crescer, para não sair da faixa de imposto.” Rivaldo da Silva, dono da Sorveteria Rigra

Com fábrica e escritório na Vila do João, a Rigra tem trintafuncionários e revende para outras lojas no subúrbio do Rio e para o interior do estado. Rivaldo diz não temer os próximos meses, quando o verão se for. “O Brasil é um país de muitos recursos, vai dar a volta por cima. Vamos ter um ano mais apertado, mas acredito que em 2016 tudo volta ao normal”, diz, confiante.

Sua única bronca é com as políticas públicas para micro e pequenos negócios. “Nós, que somos microempresas, temos um limite de arrecadação muito baixo – R$ 3,6 milhões ao ano. Não temos incentivo para crescer, para não sair da faixa de imposto.”

Vivendo do dia a dia, os irmãos Rodrigo e Adriano Rodrigues dos Santos tocam como podem a pequena Padaria e Lanchonete Pedacinho do Céu, aberta há seis meses no bairro de Valdariosa, em Queimados, Baixada Fluminense. Sem contar com a ajuda de funcionários, os dois produzem pães, salgados e doces para os moradores dos conjuntos habitacionais das redondezas. O aumento dos gastos – principalmente luz, gás e combustível – está deixando os rapazes preocupados. A farinha também teve uma alta grande de janeiro para fevereiro.

“A nossa dificuldade é que não dá para ficar aumentando os produtos a toda hora, senão não vende, e também não dá para segurar tudo, senão só fica no prejuízo. A gente tenta se equilibrar como pode. estamos num condomínio de baixa renda e ainda estamos formando nossa clientela. Se a gente ficar subindo tudo a toda hora, o pessoal vai embora”, diz Adriano, sem saber calcular o quanto a loja fatura. "Ainda nem conseguimos nem sentar pra ver isso, estamos só tocando."

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