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Conversa na Biblioteca 12 / 08 / 2015| André Costa

Juventude, trabalho e mudança

Debate na Biblioteca Parque discute empreendedorismo como prática transformadora de mercados e indivíduos.

O que diferencia um empreendedor de um empresário usual? Como um jovem pobre pode aproveitar as poucas oportunidades que lhe são oferecidas, contrabalançando as vantagens de concorrentes mais influentes? Que relação existe entre empreendedorismo e responsabilidade social, em um mundo onde a natureza se torna cada vez mais frágil e hostil?

A quarta edição do Conversas na biblioteca, ciclo de debates promovido pelo Vozerio na Biblioteca Parque Estadual, no Centro, reuniu um grupo heterogêneo para esboçar respostas para estas perguntas. Realizado ontem (11/08), o evento teve como tema o empreendedorismo e o mercado de trabalho para o jovem no Rio e levou ao palco o empresário e consultor Paulo Gontijo, o sócio do Brownie do Luiz Guilherme Lito e a coordenadora de produção da agência Redes para a Juventude Veruska Delfino.

Como se define o que é empreendedorismo, no entanto? Esta pergunta foi o mote inicial da exposição de Gontijo, o primeiro a falar, que ofereceu uma definição de clareza e concisão raras: “Empreendedorismo significa uma atitude positivamente transformadora, seja para criar uma empresa, numa ONG ou num trabalho voluntário. É esta a distinção entre o empresário e o empreendedor. Há muitos empresários que não são empreendedores, mas simplesmente mantêm um negócio. Em contraste, quando a atitude é positivamente transformadora, há empreendedorismo”, disse.

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Paulo Gontijo, empresário e consultor (Foto: Pedro de Souza)

Gontijo se referia a um tipo de comportamento que visa não apenas se adequar às normas e hábitos do mercado, mas, igualmente, transformar estas mesmas normas e hábitos. Segundo o empresário, quando se trata de capitalismo, “no fundo, no fundo, o que está em questão é qual necessidade está sendo atendida”. Este seria o caso de exemplos recentes da chamada economia colaborativa, como o Uber e o Airbnb: ao invés de se encaixarem nos modelos até então existentes em suas áreas, as duas empresas buscaram maneiras inovadoras de atender às necessidades do consumidor, alterando o funcionamento do mercado no processo. “Há uma migração da economia que tem muito a ver com o jeito do Rio de fazer negócios. Em ambos os casos, cortam o intermediário e facilitam a sua vida”.

O debatedor encerrou propondo um exercício de imaginação: supondo o caso de um jovem morador de favela que desejasse trabalhar como publicitário em uma grande agência de publicidade, suas chances de se sobressair diante de outras pessoas com mais conexões e formação escolar de maior qualidade seriam bastante limitadas. Isto, todavia, poderia ser revertido caso o jovem se valesse de sua própria experiência pessoal para se diferenciar de seus rivais.

“Como este jovem pode se tornar um excelente publicitário? Quando inverte jogo, quando ele vai para aonde ele domina, isto é, para a própria favela, onde ninguém conhece. Ele tem a rede de relacionamentos, ele tem a informação que ninguém tem”, explicou. “É preciso sempre olhar os seus potenciais, onde há potência para você desenvolver. Onde você pode moldar o jogo, e não apenas entrar onde o jogo já está estabelecido”.

Brownies a serviço do mundo

Seguindo a Gontijo, o representante do Brownie do Luiz, Guilherme Lito, dedicou sua apresentação a uma reflexão sobre a responsabilidade socioambiental do empreendedorismo numa época de calamidades climáticas. A nova concepção de empreendedorismo, conforme Lito, é “muito simples: ao invés de ser o melhor do mundo, você quer ser melhor para o mundo. A sua empresa está a serviço do mundo. Queremos usar nossas empresas para fazer o ‘bem’”.

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Guilherme Lito, do Brownie do Luiz (Foto: Pedro de Souza)

Lito fundamentou sua apresentação na experiência adquirida na empresa de brownies onde trabalha, que não está, segundo o próprio, livre de contradições. Apesar da consciência ambiental dos sócios, os ingredientes para a fabricação dos bolos são produzidos em latifúndios que usam defensivos e podem até envolver o uso de mão de obra escrava. Segundo informou, seu chocolate, por exemplo, tem “procedência duvidosa na Costa do Marfim. E isso sendo comprado da Nestlé!”.

Isso não significa, entretanto, que o Brownie do Luiz não procure sempre melhorar, e o sócio da empresa citou exemplos de como isso acontece por lá, referindo-se a salários acima da média do mercado e a aulas gratuitas de violão para os empregados. Lito sustenta a tese de que a médio prazo essas medidas “geram impacto sistêmico”, propagando um novo modelo de negócios.

Esse novo modelo de negócios, conforme disse, é a ambição maior da Brownie do Luiz hoje. Segundo Lito, este dia chegará quando toda a cadeia produtiva estiver melhor conectada. Ou, mais especificamente, como ele afirmou: “o maior símbolo de que deixamos de ser uma empresa convencional e nos tornamos uma empresa que serve ao mundo será quando conseguirmos lançar um brownie orgânico, sem glúten, de ingredientes brasileiros, de agricultura familiar, cujos caras que estão plantando a gente conheça”.

Ensinando o empreendedorismo

Veruska Delfino, a última participante a falar, expôs sua experiência como fomentadora de oportunidades para jovens parecidos com aquele imaginado mais cedo por Gontijo. A Redes para a Juventude, incubadora de ideias da qual Delfino faz parte, promove projetos que gerem impactos nos territórios onde seus afiliados vivem, trabalhando com pessoas de 15 a 29 anos, “todos pobres, em sua maioria negros, em sua maioria moradores de comunidades”.

Estes jovens, afirmou a produtora, têm pouca oportunidade para arriscar, uma vez que a urgência para a obtenção de uma fonte de renda costuma chegar cedo em suas vidas. De acordo com Delfino, esta demanda precoce por trabalho atrofia o fervor criativo destes jovens. São “jovens que não foram ensinados a ser desejantes” diz ela.

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Veruska Delfino, da agência Redes para a Juventude (Foto: Pedro de Souza)

É justamente esta postura afirmativa que Redes para a Juventude tenta incentivar. Como disse sua coordenadora, “o que a agência faz é desenvolvimento pessoal, não apenas para que jovens se tornem empreendedores, mas para que tenham oportunidade de se conectar à cultura empreendedora (...) Quando a pessoa volta para a escola, quando ela cria algum projeto, esse já é o resultado da agência – ela já está ali se desenvolvendo”

Dentre os projetos que a incubadora já apoiou estão o CDD na Tela, produtora audiovisual formada por fãs de cinema e de fotografia de pouco mais de 20 anos que acaba de ganhar um edital da Lona de Jacarepaguá; oProvidenciando a Favor da Vida, projeto que busca auxiliar meninas grávidas no Morro da Providência; e o Fala, Roça, jornal sobre moradores da Rocinha. Mais de mil jovens já tiveram contato com a metodologia da agência, e na próxima semana mais 380 projetos serão selecionados.


Assista aos melhores momentos da conversa:

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