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LGBT 21 / 09 / 2015| André Costa

Teatro das bonecas

Damas em Cena, na Lapa, oferece oficina de interpretação teatral para travestis e transexuais, aumentando sua autoestima e dando visibilidade a grupo marginalizado.

Utilizar o teatro como ferramenta de emancipação, incentivando a autoestima de travestis e transexuais, ao mesmo tempo em que forma atrizes e atores: é esta a proposta do Damas em Cena, uma das 85 iniciativas que ganharam o Prêmio de Ações Locais Rio450, da prefeitura do Rio.

Com o objetivo de fomentar a diversidade cultural e a cidadania, o prêmio ofereceu R$ 40 mil para cada ganhador manter no mínimo um ano de atividades. Grupos em situação de risco, como vítimas de violência ou preconceito, tiveram prioridade na premiação.

O Damas em Cena é um dos dois únicos projetos dentre os ganhadores cujo foco é a população LGBT. Sua sede é o sobrado na Lapa onde fica o Instituto do Ator — coletivo teatral responsável pela iniciativa.

A poucos metros dali, fica a avenida Augusto Severo, tradicional ponto de prostituição de travestis. Segundo Douglas Resende, produtor e coordenador do Damas em Cena, foi esta proximidade que motivou a iniciativa:

"Quando nos mudamos para a Lapa, em 2008, a Celina Sodré [diretora do Instituto do Ator] quis fazer uma ação que se relacionasse com o entorno. A Augusto Severo ficava ali perto, então ela sugeriu que dialogássemos com aquelas meninas", conta Douglas.

Assim foi formada, ainda em 2008, a primeira turma do projeto, com travestis e transexuais recrutadas na própria Lapa e por meio do projeto Damas, da prefeitura, que visa incluir socialmente pessoas transgêneras.

A iniciativa resultou na peça TransTchecov, dirigida por Celina, que misturava trechos de três obras do dramaturgo e escritor russo com relatos autobiográficos das próprias atrizes. A peça foi encenada em 2009 e 2010 no Rio — com apresentações no Sesc e no Oi Futuro — e em outras cidades, além de ter gerado um documentário.

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Dandara Vital em "TransTchecov", de 2008 (Foto: Rodrigo Castro).

Dessa primeira encarnação do projeto, restaram duas atrizes, que foram incorporadas ao Instituto do Ator e participaram também de outras peças. Elas voltaram a ser estudantes na nova turma e foram as responsáveis por convidar a maioria das novas dez colegas — que incluem, além de mulheres trans, também dois homens cisgêneros (ou seja, que se identificam com o gênero designado no nascimento). Outras alunas chegaram por meio do projeto Damas.

As atividades até aqui incluem aulas semanais de interpretação, conversas com diretores e idas mensais a espetáculos teatrais. As alunas ganham uma pequena ajuda de custo, para auxiliar os trajetos até a Lapa e a alimentação. Há previsão de lançamento de uma peça para outubro de 2016, e, embora ainda não se saiba como será o espetáculo, ele já tem presença confirmada no Festival Transarte, que deve acontecer no final de 2016.

Tragédias contra a desolação

A importância de um projeto como o Damas em Cena ganha força diante da situação de vulnerabilidade vivida por pessoas transgêneras no país. Segundo a organização Transgender Europe, o Brasil tem o mais alto índice de assassinatos de travestis do mundo. Dados do Grupo Gay da Bahia apontam que 134 travestis foram assassinadas no território nacional em 2014.

Segundo o grupo Transrevolução, a expectativa de vida para pessoas trans no país é de 30 anos. Oportunidades de entrar no mercado de trabalho são escassas, e uma pesquisa realizada nos Estados Unidos constatou que 41% das pessoas trans naquele país tentam cometer suicídio ao menos uma vez na vida.

Para combater esse cenário catastrófico, o Damas em Cena procura, antes de tudo, elevar a autoestima de suas participantes. "Justamente porque pessoas estão tendo diversos direitos à cidadania negados — como o direito à saúde, à escola, ao emprego —, são comuns problemas de autoestima", explica Douglas. "Não estamos solucionando nenhuma dessas questões, mas possibilitamos o empoderamento do sujeito, a afirmação de suas potencialidades."

O caso de Dandara Vital exemplifica a que Douglas se refere. Uma das remanescentes da turma de 2008, ela conta que, antes de entrar para o teatro, evitava até mesmo falar, para que as pessoas não percebessem que era travesti. "Essa barreira quebrou. Hoje entendo que que sou uma pessoa como qualquer outra, e que posso estar em qualquer lugar", diz ela, que trabalha em uma ONG, já participou de quatro peças de teatro e está escrevendo um curta chamado Brincando de Boneca.

Parte desse processo de emancipação individual surge de forma espontânea nos próprios ensaios. Entre um exercício de interpretação e outro, por se verem aceitas entre iguais, as atrizes acabam falando sobre os próprios problemas e histórias pessoais. Segundo Dandara, o processo de criação artística funciona também como uma forma de terapia.

Por enquanto, os exercícios teatrais têm se baseado em tragédias gregas. Nos dias em que a reportagem visitou o grupo, a professora Carolina Caju selecionou Édipo Rei e Medeia para trabalhar com a turma. Segundo ela, sua ideia, que ainda está em um estado embrionário, é produzir uma peça que misture elementos trágicos com as experiências pessoais das atrizes.

Esta mistura entre realidade e ficção já aparece nos ensaios atuais. Em um exercício de improvisação baseado em Édipo Rei, na cena em que Laio, após saber que seu destino é ser assassinado pelo próprio filho, decide abandonar a criança, Ketlheen Cajueiro, interpretando a responsável pelo bebê, exclamou: "Eu não quero mais você, Édipo! Eu vou te dar para a Funabem!"

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As alunas Ivone Correia, Dandara Vital, Ketlheen Cajueiro e Biancka Fernandes. Ao fundo, a professora Carolina Caju.

A improvisação de Ketlheen despertou reminiscências nas companheiras. "Quando eu era criança, minha família queria me dar para a Funabem, porque eu era homossexual", disse Vanessa Alves da Silva, em conversa após o ensaio.

Hoje casada há mais de 20 anos e avó, Vanessa não tem mais problemas para se aceitar e não se incomodou de ser entrevistada. Esta, entretanto, ainda não é a situação vivida por algumas das alunas, que, temendo uma possível abordagem preconceituosa, preferiram não ser identificadas.

É o caso da estudante que prefere ser aqui chamada de Vitória, embora tenha outro nome. Atendente em um centro cultural, ela se diz uma "defensora das pequenas causas". Afirma entender que a comunidade LGBT avançou em direitos civis, e que "resta agora ganharem mais visibilidade".

A melhoria de visibilidade significa também uma mudança de perspectiva da sociedade sobre pessoas transgêneras. Várias alunas reclamaram da associação automática entre travestis e prostituição, um assunto que o coordenador do projeto pediu que não fosse tratado na matéria.

Douglas temia que, ao tentar explicar como o Damas em Cena transforma a vida das pessoas, o retrato do projeto caísse em uma abordagem moralista, que mais reforçasse os preconceitos do que outra coisa. Referiu-se, especificamente, a uma reportagem de meses atrás, que afirmava, de modo elogioso, que o projeto teria tirado pessoas da prostituição.

“O projeto não se propõe a tirar ninguém de lugar nenhum”, advertiu, no começo da entrevista. “Esse tipo de discussão não tem nada a ver. Em primeiro lugar, porque não temos essa visão preconceituosa da prostituição. Em segundo, porque o que as pessoas fazem ou deixam de fazer fora daqui não me diz respeito.”

Embora a vida das alunas fora dali não seja interesse do projeto, as palavras delas próprias permite identificar uma mútua interferência entre arte e vida. Pensando em quem mais poderiam convidar para as aulas, J., que preferiu não ser identificada, mostrou-se cética: "Não sei se vamos conseguir achar alguém. É muito difícil tirar uma trans de casa", disse. "É por isso mesmo que o projeto é tão legal", respondeu Dandara, com a experiência de quem sabe que estar ali já é uma vitória.

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