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História da Baixada 20 / 01 / 2017| Saulo Pereira Guimarães

Memórias do cinturão vermelho

Evento em Nova Iguaçu na última quarta (18) marcou lançamento oficial de Baixada Fluminense e a ditadura militar - movimentos sociais, repressão e poder local. Com artigos de oito historiadores, livro mostra as mudanças que tornaram uma região onde a esquerda era forte desde a década de 1940 em um reduto onde grupos familiares dão as cartas

Foto: Dom Adriano Hypolito dá entrevista após sequestro (Rima/Cedim)

Um local decisivo para os rumos do país. Assim o livro Baixada Fluminense e a ditadura militar - movimentos sociais, repressão e poder local apresenta a região em questão. Na última quarta (18), um debate com a presença de todos os autores marcou o lançamento oficial da obra na sede da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, em Nova Iguaçu.

“As pessoas tendem a enxergar a Baixada como o lugar da violência, mas o que as novas pesquisas mostram é que essa região sempre foi vista como estratégica”, afirma o Felipe Ribeiro, doutor em história pela Fundação Getúlio Vargas. Ele assina um dos oito artigos do livro, que surgiu após um evento realizado na UFRRJ por conta dos 50 anos do golpe de 1964. Durante o encontro, diversos historiadores apresentaram trabalhos ligados à Baixada e decidiram juntar alguns deles na obra. Em novembro, o livro recebeu menção honrosa na edição 2016 do prêmio Baixada, oferecido pelo Fórum Cultural da Baixada Fluminense.

Baixada e ditadura é parte de um esforço de um grupo de pesquisadores para recuperar a memória da região. As 300 páginas de texto mostram como uma área onde a esquerda era forte se transformou em um reduto onde grupos familiares dão as cartas na política. Além do livro, foi lançado em novembro o Repositório Institucional do Intituto Multidisciplinar (Rima). O site permite a consulta online de documentos ligados à história da localidade. A iniciativa é coordenada pelo Centro de Documentação e Imagem da UFRRJ (Cedim).

Cinturão vermelho

No domingo, realizam-se as primeiras eleições municipais, no estado do Rio de Janeiro. Não estou interessado em política partidária, nem escreveria a vossa eminência, mesmo que o estivesse. Trata-se, porém, de fato que transcende o plano partidário para se projetar no plano social. Os comunistas estão organizando o que chama de “O Cinturão Vermelho” em torno do Distrito Federal. Querem tomar conta das prefeituras de Petrópolis, Duque de Caxias, Nilópolis, São Gonçalo, etc… etc. (...) Há necessidade de uma palavra de advertência. (...) Urge, pois, uma orientação que estará nas mãos da Igreja
(Carta enviada pelo chefe do Gabinete Civil da Presidência José Pereira Lima ao arcebispo do Rio Dom Jaime de Barros Câmara, em 1947)

A partir da 2ª Guerra Mundial, a vocação agrícola da Baixada Fluminense deu lugar a indústrias. No chamado “cinturão verde”, foram instaladas companhias como a Fábrica Nacional de Motores (1942) e a Refinaria Duque de Caxias (1961), entre outras. Com as fábricas, vieram os operários e a mobilização deles e de trabalhadores rurais justifica o apelido de “cinturão vermelho”. De acordo com Felipe, empregados e agricultores obtiveram conquistas importantes nesse período, como a eleição de 11 vereadores para a Câmara Municipal de Magé entre 1945 e 1964.

Por outro lado, a Baixada pré-1964 também serviu de berço para um dos grandes nomes da política da época: Tenório Cavalcanti. “Apesar de só ser lembrado pela violência, ele tinha notoriedade nacional por sua atuação como advogado em casos polêmicos e um discurso para os desfavorecidos com adeptos”, conta Felipe. Vereador de Nova Iguaçu nos anos 1940, o chamado Homem da Capa Preta foi deputado federal na década seguinte, abriu seu próprio jornal em 1954 e chegou aos anos 1960 com grandes ambições.

Após se lançar à presidência pela União Democrática Nacional (UDN) em 1959 e não ter o apoio do partido, ele troca a legenda pelo Partido Socialista Trabalhista (PST), pelo qual disputa as eleições para governador do estado do Rio em 1962 com os comunistas no seu palanque. “Sua principal proposta era superar as desigualdades sociais e isso o aproximou da esquerda. Derrotado na eleição e cassado pelo golpe, ele se enclausurou em Caxias e perdeu o lado político”, explica o historiador. Nos dias de hoje, o advogado é mais lembrado por viver cercado de capangas e por chamar de Lurdinha sua metralhadora de estimação.

O golpe

Tenório Cavalcanti não foi o único político da Baixada afetado pelo golpe. Prefeitos e vereadores da região tiveram seus mandatos extintos e líderes de movimentos populares foram presos. Sedes de sindicato chegaram a ser invadidas e destruídas pelos militares. “Boa parte da nossa história virou cinzas”, resume no livro Jorge Ferreira dos Santos, líder sindical de Magé. “Quem era ligado ao PCB ou ao PTB era taxado de comunista”, acrescenta Felipe. A mobilização política da população só voltou a aparecer no fim da década de 1970, por meio de iniciativas como o Movimento de Amigos de Bairro (MAB), em Nova Iguaçu.

O livro destaca ainda o papel de lideranças da Igreja Católica na oposição à ditadura na Baixada. Se antes ela era procurada pelas autoridades para acalmar os ânimos (como demonstra o trecho da carta de 1947 destacado acima), a partir do golpe a instituição passa a abrigar algumas das principais vozes contra o regime na região. Uma delas foia de Dom Adriano Hypólito, que comandou entre 1966 e 1994 a diocese de Nova Iguaçu. Ao longo dos anos, o sergipano desenvolveu um trabalho em favor da dignidade da população e dos direitos humanos. “Ele chegou a acolher ícones como Frei Beto”, conta Adriana Serafim, mestre em história pela Rural e autora de artigo sobre o tema. Como consequência dessa atuação, Dom Adriano foi sequestrado em 1976 e a catedral de Nova Iguaçu foi alvo de um atentado a bomba três anos depois. Ambos os casos nunca foram totalmente esclarecidos.

Outro efeito colateral do golpe foi a ascensão de líderes que anteriormente não tinham papel proeminente na política e que seguem em atividade até hoje. Esse são os casos dos Cozzolino, em Magé, e das famílias Sessim e Abraão David, ambos de Nilópolis. “Eles eram ‘dedos-duros’”, afirma no livro um morador da última cidade sobre os integrantes dos dois clãs. No caso específico de Nilópolis, os historiadores enxergam uma conexão entre o crescimento do grupo político e da escola de samba Beija-Flor. Anísio Abraão David, bicheiro e patrono da agremiação, é primo de Jorge David, médico e deputado estadual em 1964. “A escola de samba virou uma interface para negociação e um motivo de orgulho para os moradores de Nilópolis. Em alguma medida, isso era interessante para o governo e para os novos protagonistas políticos”, explica Felipe.

Após o fim da ditadura, os historiadores destacam o enfraquecimento progressivo da mobilização popular e o progressivo fortalecimento das famílias. “São elas que seguem com a caneta até hoje”, sintetiza Adriana.

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