10 Perguntas

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10 Perguntas 7 / 04 / 2015| Isabela Fraga Manuel Thedim

Mudar lei de incentivo pode silenciar salas de concerto

Em meio à crise econômica no Brasil e sobretudo no Rio, é comum dizer que a cultura é a primeira a sofrer cortes. O que acontece com os setores ainda mais vulneráveis, como a música de concerto? Levamos essa pergunta — e muitas outras — ao compositor e regente carioca João Guilherme Ripper, diretor da Sala Cecília Meireles desde 2004 e responsável pela modernização do espaço, reinaugurado em dezembro de 2014. Afinal, como formar e manter público para uma arte tão pouco valorizada pelo mercado e, ao mesmo tempo, tão importante?

  1. Você fez doutorado em música nos Estados Unidos e já estudou na França. Como compara o financiamento de cultura nesses dois países e no Brasil?
    São duas coisas completamente diferentes. Na França, há um mecenato de Estado muito forte, desde Luís XIV [séc. XVII], que começou a premiar todos os artistas que tinham algum mérito e subsidiar as artes. Os Estados Unidos têm um modelo completamente diferente: se você quer uma atividade cultural na sua cidade, precisa contribuir pra ela. É a lógica do contribuinte individual, da preocupação comunitária. A grande dificuldade da França agora é mudar essa mentalidade do mecenato do Estado para incorporar tanto a doação empresarial quanto a individual. Eles têm o chamado financiamento cruzado, que envolve o país, a região e a comunidade em questão. Por exemplo, em alguns casos como o da Opera National du Rhin, as cidades de Estrasburgo, Mulhouse e Colmar se juntaram como se fossem um consórcio. A ópera fica em Estrasburgo, mas eles fazem ateliês para os cantores em Mulhouse e Conmar, além de outras atividades. Ou seja, na França existe essa questão de intercidades que também sustenta uma determinada atividade cultural. Mesmo assim, eles ficaram muitos interessados no modelo de financiamento do Brasil.
  2. E no Brasil, onde esse modelo é muito baseado no Estado?
    Aqui existe esse financiamento público, que mudou a cara do país e teve um impacto fortíssimo [na cultura nacional]. Esse tipo de financiamento proporciona atividades poucos rentáveis, como a música de concerto, que é importante. E agora eles estão querendo mexer no percentual de 100% [de abatimento do valor incentivado no imposto de renda], o que eu acho problemático. As grandes orquestras, o Theatro Municipal, a Sala Cecília Meireles: tudo isso é financiado por Lei Rouanet. Temos, claro, também uma parte de ICMS — a Petrobras entra no ICMS. Ainda assim, no macro, a Rouanet tem um impacto muito maior.
  3. Numa entrevista recente ao jornal O Globo, o Ministro da Cultura, Juca Ferreira, fez críticas contundentes à Lei Rouanet e propôs reduzir os 100% do valor financiado no abatimento de impostos. Você concorda?

    O panorama da música de concerto no Rio hoje é muito diverso para que seja possível um modelo bom para todos

    Concordo que deve haver mudanças, mas mexer nesses 100% causaria um impacto muito grande na música de concerto e nas orquestras. Se analisarmos as três principais orquestras do Rio de Janeiro, o painel é interessante. A OSB, a Petrobras Sinfônica e a orquestra do Theatro Municipal têm diferentes formas de gestão e de financiamento. A OSB é uma fundação de direito privado, contrata músicos via CLT, tem uma necessidade orçamentária com uma manutenção de folha de pagamento considerável. Já a Petrobras Sinfônica tem necessidades financeiras muito mais modestas porque funciona como uma cooperativa: os músicos são os donos da orquestra. Agora, inclusive, toda a administração e o conselho artístico estão na mão dos músicos. Isso funciona bem naquele tamanho de orquestra. Na dimensão de uma OSB, por exemplo, já acho que se torna problemático. A Petrobras Sinfônica tem uma temporada menor, outros objetivos e tenta se diferenciar com as escolhas para os locais dos recitais, que não são apenas salas de concerto. Ainda há a orquestra do Theatro Municipal, que é totalmente bancada pelo estado, que não dá conta de todas as atividades e a obriga a recorrer à Associação de Amigos do Theatro Municipal em busca de recursos para conseguir cumprir seu objetivo artístico. Na verdade, essa logica é o que acaba acontecendo na própria Sala Cecília Meireles. Temos um equipamento maravilhoso que é mantido pelo estado, mas precisamos também de outras parcerias. Mas isso é natural, porque estamos indo cada vez mais para a parceria público-privada, algo necessário. O panorama da música de concerto no Rio hoje é muito diverso para que seja possível um modelo bom para todos.

  4. Qual o maior problema para você na dependência da Rouanet e de empresas privadas?
    Acho que na raiz dessa discussão está o conceito de arte enquanto produto. Vender um projeto para o departamento de marketing de uma empresa é bem diferente de abordar um fundo estatal e falar: “quero fazer uma coisa completamente diferente e que não tem nenhuma repercussão no mercado.” Mas existe uma questão do que é subjetivo e objetivo no mercado. Você não pode tentar impor uma lógica de que tudo vale desde que seja arte para o departamento de marketing de uma empresa, porque não vai colar. Se você não tem um projeto de longo prazo que foque na qualidade, na melhora, que tenha esse fundo social mas que leve em conta um avanço, um aprendizado, não adianta. Então, existe um jogo da qualidade artística objetiva que deve ser discutido. Não estou entrando no mérito da inovação, da vanguarda, mas dos padrões estabelecidos. Hoje, já existe um corpo de conhecimento que permite dizer se determinada orquestra é de boa qualidade ou não. Em relação a uma arte nova, contudo, é outra história.
  5. Quais seriam as alternativas aos financiamentos estatais e por leis de incentivo?
    O financiamento direto existe, mas é raro. Hoje em dia, há três esferas de incentivo governamental à cultura: a [lei] Rouanet, o ICMS, do governo estadual, e a lei do ISS [Lei Municipal de Incentivo à Cultura], na esfera municipal. Na Sala, nós usamos as três. Nos também arriscamos com o sistema de doações, mas é um percentual muito pequeno porque aqui falta essa cultura de doar. É o paradoxo francês: eu quero, mas o Estado é responsável por isso [cultura]. Quando eu entrei [como diretor] da Sala, ela dependia 100% do financiamento do estado. A partir de 2006, isso foi mudando: fortalecemos associações, criamos setores voltados para a captação e gestão dos projetos. Hoje em dia, 100% da programação é financiada por meio de leis de incentivo. O Governo do Estado mantém a sala, mas podemos dizer que um percentual muito pequeno desse financiamento vai para a programação artística.
  6. Em relação à música de concerto, o público no Rio também é relativamente pequeno. Na sua visão, quais os motivos?

    A forma da sonata segue a mesma forma da exposição do pensamento filosófico

    Acho que o principal é a questão da educação, do acesso a esse tipo de arte desde a infância. A responsabilidade da família, certo, mas a música de concerto também podia estar mais presente nos meios de comunicação, no governo. Na Sala, temos um projeto que ainda não reativamos de fazer concertos didáticos, mas é muito importante preparar o aluno antes de levá-lo a esses eventos. Como diz [o sociólogo Pierre] Bourdieu, o professor é o multiplicador. Nos não temos o [espaço] simbólico da música de concerto na nossa sociedade. Há outros espaços simbólicos importantes, claro, mas a musica de concerto não tem um corpo simbólico relevante. Em vários momentos, perdemos a oportunidade de desenvolvê-lo, sobretudo quando tiraram o ensino de música das escolas. Naquele momento, perdemos o ensino da linguagem musical e a percepção de que a música é uma forma de expressão. Por exemplo, a forma da sonata segue a mesma forma da exposição do pensamento filosófico. A exposição, o desenvolvimento e a reexposição. Na primeira parte, expõe-se dois argumentos conflitantes, então há o desenvolvimento desse conflito e, no final, chega-se a uma conclusão. Essa é a forma da sonata, e o mesmo vale para a sinfonia. Isso enriquece muito o universo simbólico.

  7. Mas e a lei que institui o ensino de música nas escolas?
    Essa lei existe, mas ainda não foi regulamentada. Seria necessária uma formação de professores que desse conta do país todo. Quando isso acontecer, abriremos um mercado maravilhoso de músicos para preencher esses novos postos. É um projeto importante, mas como não tem uma ligação evidente com o mercado, se perde. Quer dizer, na verdade tem tudo a ver com mercado.
  8. Como assim? O que tem e o que não tem a ver com o mercado?

    Nesse tipo de espetáculo, acho que existe uma questão do ritual importante: você isola aquilo do ordinário

    A música de concerto tem uma espécie de busca de transcendência que vai totalmente na contramão da praticidade, da objetividade e da lógica de mercado hoje em dia. Isso é uma das coisas que contribui muito para a perda do universo simbólico. Hoje em dia, nosso universo simbólico para na tela do celular. Eu acho muito curioso que hoje algumas pessoas fiquem com o celular na mão o tempo todo durante o concerto. Nesse tipo de espetáculo, acho que existe uma questão do ritual importante: você isola aquilo do ordinário. Porque você ritualiza tudo: o nascimento, o sexo, a morte. Estou pensando em reservar umas fileiras na parte de cima da Sala cima para as pessoas que querem fotografar com o celular, para não atrapalhar as outras. Como havia no cinema Paissandu dos anos 1980 fileiras para quem queria fumar [risos]. Mas comer não dá, não consigo imaginar uma sinfonia de Brahms com o sujeito mastigando amendoim do meu lado.

  9. E como levar a música de concerto com força para a periferia? Faz sentido levar um concerto de piano orquestra para o Imperator, na Tijuca, por exemplo, para atingir as pessoas que moram e trabalham em outros bairros?
    Acho que não. É melhor levar as pessoas aos espaços onde a música de concerto acontece. Há várias formas. Tem vale-cultura, voucher, e a política de preços é totalmente acessível. O Theatro Municipal tem preços populares. Na Sala, temos concertos que se repetem na sala Guiomar Novais cujos ingressos custam R$ 10, a meia entrada custa R$ 5 e estudantes de música pagam apenas R$ 1. A ideia é atrair as pessoas que estão saindo do trabalho. Quanto às pessoas que moram e trabalham no subúrbio, longe desses espaços, acho que projeto Aquarius cumpre esse papel. É um bom papel, contanto que depois as pessoas deem sequência a isso. A grande diferença, para mim, é que a nossa concepção de cultura é muito de evento e menos de programa estruturante a médio e longo prazo. Então você faz um show maravilhoso, gasta R$ 3 milhões para colocar milhões de pessoas na praia de Copacabana. Isso é legal. Mas existem ações estruturantes, como manter uma orquestra tocando o ano inteiro, fazendo concertos menores, mas constantes. Um dos grandes desafios da Sala para mim foi exatamente esse, porque nós conseguíamos uma verba, realizávamos vários eventos e o dinheiro acabava. Como produzir espetáculos o ano inteiro?
  10. A situação econômica hoje está bem complicada no Brasil e no Rio de Janeiro. Qual perspectiva pra Sala e para a música de concerto nos próximos tempos?

    O desafio é você, talvez sacrificando um pouco nomes internacionais, manter alguma regularidade.

    Sofre como todos os outros setores. A capacidade, a vontade e o humor das empresas para investir em cultura muda sensivelmente. Cultura é uma das primeiras a sofrer com isso. O desafio é você, talvez sacrificando um pouco nomes internacionais, manter alguma regularidade. Isso é fundamental. O pior que pode acontecer é a ausência, é você desaparecer. E isso é uma das razões para nós termos perdido público, dos anos 1970 para cá, quando ficamos muito tempo sem realizar nada. Não só na Sala, mas de maneira geral.

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Convidado

João Guilherme Ripper

Compositor, regente, professor e diretor da Sala Cecília Meireles.

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