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Burburinho 19 / 02 / 2016| Laís Jannuzzi

Mulheres de Caju e Manguinhos se reúnem para construir mapas afetivos da violência

Iniciativa da ONG Fase iniciada em 2014 realizou encontros semanais com moradoras das comunidades para mobilizar a população e gerar reflexão. Um site em construção disponibilizará os mapas construídos.

[Na foto, da esquerda para a direita: Ana Paula Epiphanio, Monique Cruz, Anelise Gutterres e Ana Paula Epiphanio. Participantes da iniciativa e moradoras de Manguinhos]

A pedagoga Ana Paula Gomes tem a voz trêmula ao telefone. O motivo: o assassinato de seu filho, Jonathan de Oliveira Lima, por policiais da UPP de Manguinhos em 2014. Mas a vontade de compartilhar sua dor foi maior. "Me faz bem faz bem falar dele", afirma ela, que mora na comunidade desde que nasceu.

Para contar sua história, reivindicar direitos e buscar justiça, Ana Paula começou a participar de uma série de encontros promovidos pela ONG Fase com o objetivo de realizar uma "cartografia social urbana" de Manguinhos e Caju.

Por meio de uma parceria entre pesquisadores e moradoras — todas mulheres —, a iniciativa envolveu encontros semanais entre cerca de 20 pessoas. Em cada encontro, histórias e experiências de vida das participantes serviam para empoderar a população e criar redes de diálogo entre as comunidades.

Iniciados em 2014, os encontros até agora resultaram em três mapas, dois vídeos e uma publicação on-line — que serão disponibilizados em um site ainda em construção. Estes produtos refletem algumas temáticas comuns percebidas nas reuniões: o problema histórico das remoções, a violência por parte de policiais da UPP e o pouco contato entre moradores de diferentes comunidades.

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Mulheres se reúnem para formular mapa afetivo de sua comunidade (foto: Divulgação)

No caso de Ana Paula, a avó paterna foi removida do Caju, e a mãe, da favela Praia do Pinto, no Leblon. Recentemente, a própria Ana Paula e muitos de seus vizinhos passaram por uma situação parecida. Suas casas foram demolidas por obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para dar lugar a uma rodovia que ainda não foi inaugurada.

O dinheiro das indenizações pagas pelo governo era insuficiente para que os moradores comprassem novas residências. Com mais procura por novos lares, o valor dos imóveis em Manguinhos aumentou. "A cada vez que o telefone tocava era um sofrimento, porque sabíamos que eram eles [a Prefeitura] fazendo pressão”, conta Ana Paula. Os moradores remanescentes, segundo ela, atualmente vivem com medo das enchentes, pois suas casas ficaram abaixo do nível do asfalto.

Só mulheres

O primeiro ano da iniciativa desenvolvida pela Fase foi dedicado à criação de mapas e debates. Em 2015, oficinas aos sábados estimularam os moradores a discutir problemas de sua realidade. Por uma opção dos organizadores, só mulheres participaram dos encontros.

Para Rachel Barros, coordenadora do estudo, a escolha fez com que temas como racismo, gênero e violência fossem abordados com frequência nas oficinas. Formada em jornalismo e moradora do Caju, Clarisse Werneck participou do trabalho e considerou a experiência muito enriquecedora.

“Conheci duas ocupações no meu bairro: Vila dos Sonhos e Terra Abençoada", conta ela. “Moramos em um dos bairros mais poluídos do Rio de Janeiro. Nas áreas mais próximas das empresas de pó de cal e concreto, a qualidade do ar é péssima, o nariz chega a ficar duro. Esses encontros com certeza contribuem para o surgimento de reivindicações e melhorias em lugares esquecidos pelo poder público”, relata a jornalista.

Para mulheres como Ana Paula, os resultados da iniciativa vão muito além dos dados recolhidos. A experiência positiva fez com que ela entrasse em contato com outras mulheres e pudesse amenizar um pouco sua dor. Eu preciso de forças e, de alguma forma, passar forças também”, diz ela.

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