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Pensatas 22 / 01 / 2016|

Museu faz bem à saúde

Ao contrário de um tempo em que museu era sinônimo de coisa velha e empoeirada, os museus do século XXI querem ser espaços de discussão, criatividade e pensamento crítico. São fóruns dinâmicos, e não caixinhas de joias. São relevantes para a vida real do público que o frequenta porque o ajudam a lidar com ela. Abrem diálogo com imigrantes, drogados, marginalizados. Constroem exposições e projetos em conjunto com adultos, crianças e idosos, leigos e doutores.

"Museu faz bem à saúde". Esta afirmação, cada vez mais repetida por profissionais de museus, pesquisadores e acadêmicos no mundo todo, ainda pega muitas pessoas desprevenidas, inclusive no Brasil. No início deste ano, no Rio de Janeiro, vivenciei dois exemplos de como nós ainda não nos convencemos do poder benéfico que o museu pode ter na saúde e no bem-estar do ser humano.

O primeiro foi de natureza pessoal. Comemorando o ano novo, aderi à provocação de uma campanha no Twitter que incitava as pessoas a visitarem um museu novo, logo após o réveillon. Certo, eu trapaceei: o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) não era exatamente novo para mim, pois foi lá que comecei minha carreira, há mais tempo do que me interessa confessar. Mas fazia tempo que não ia até lá, e havia uma exposição que interessava à família toda. Fomos.

Não bastasse o espetacular projeto arquitetônico de Eduardo Affonso Reidi, em meio a um parque planejado por Lina Bo Bardi com jardins de Burle Marx, o MAM possui um acervo igualmente grandioso, ao qual se junta a Coleção Gilberto Chateaubriand (cedida em comodato ao museu desde 1993), uma das melhores seleções de arte moderna e contemporânea brasileira. Para esta museóloga de alma modernista, tudo isso já seria garantia de um ótimo domingo. Não foi.

A visita nos lembrou o castelo da Bela Adormecida, um reino perfeitamente próspero e funcional que, de repente, para no tempo. Os jardins e espelhos d’água estavam descuidados, sem corte, sem poda e com lixo.

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O estado do balcão de madeira logo à entrada do Café do MAM (foto: Claudia Porto)

À entrada do museu, nem mesmo um "bom dia". Tudo o que ouvimos, ao encostar o código de barras do bilhete no leitor digital da catraca, foi um "pode passar direto, não está funcionando". "Vivemos ", pensei, "na terra em que os equipamentos são instalados mas não se planeja a sua manutenção no longo prazo".

O castelo adormecido ficou ainda mais palpável quando subimos para o segundo andar e percorremos as exposições. O MAM costuma ter uma programação de qualidade irretocável; o que precisa ser urgentemente repensado é o modo como esse conteúdo é tratado.

Uma das coisas que mais incomoda no MAM é a falta de qualquer oportunidade de nos aprofundarmos em um determinado assunto, seja lendo mais sobre a técnica e o pensamento de um artista, sobre a época em que ele viveu ou até sobre fatos curiosos de sua personalidade. Será que o público não adoraria saber o que passou pela cabeça de Cildo Meireles ao criar o Zero Dollar? Isso poderia ser feito, por exemplo (mas não só), por meio digital: tablets, telas touch e apps para as exposições temporárias seriam apenas algumas formas de ampliar o conteúdo, despertar o interesse de diferentes faixas etárias e grupos sociais e promover uma maior interação com o público – outra coisa que o MAM não vem explorando em sua programação.

Se a exiguidade de conteúdos disponíveis nas exposições do MAM nos remete ao distanciamento entre o museu e seu público, as etiquetas só reforçam esse fato. Em um país onde as estatísticas não param de alertar para o fato de que a população está envelhecendo, etiquetar as obras com letra de corpo pequeno é não se importar com a transmissão da informação mais básica (lembro-me de mostras em que as etiquetas, em letra muito pequena, foram aplicadas diretamente no chão, e dava pena ver as pessoas mais velhas se curvando ou, pior, desistindo de ler).

A expografia que se repete há décadas, a falta de conhecimento, diálogo e relacionamento com o público, a dificuldade de ressignificar as coleções, de provocar questionamentos e de, assim, passar a ocupar um espaço real e relevante na vida das pessoas: nada disso é prerrogativa do MAM. Há inúmeros museus nessa situação, no Brasil e em tantos outros países – mesmo naqueles do "primeiro mundo".

Postei um resumo desta crítica nas redes sociais e duas respostas surgiram de imediato: a culpa seria dos curadores e da falta de dinheiro. Não concordo (quem dera o problema fosse tão simples!) e deixo o assunto propositalmente em aberto, esperando que este artigo possa gerar novas respostas e debates.

Vamos ao segundo exemplo. No fim de 2015 houve a inauguração do Museu do Amanhã, um gigante (em custos, em mídia, arquitetura e objetivos) que teve a infelicidade de, após inúmeros adiamentos, ser lançado enquanto a saúde do Rio de Janeiro enfrentava (ainda enfrenta) mais um baque, com o fechamento de hospitais e o habitual desrespeito aos doentes e seus acompanhantes.

A crucificação foi imediata. A julgar pela reação das pessoas nas redes sociais, não se pode investir em um equipamento novo se outros estiverem em mau estado. E não se deveria investir tanto dinheiro em cultura se a saúde estiver no CTI. Não concordo com a segunda afirmação, e não sei se acredito na primeira.

É verdade que vários museus, dos mais de três mil existentes no Brasil, estão em situação delicada: imóveis que precisam de restauro, equipamentos quebrados, gestão ineficiente, escassez de pessoal especializado, falta de recursos – para falar dos problemas mais evidentes. Temos museus fechados de facto e museus "fechados" porque não sabem ou não conseguem se relacionar com o público e o entorno. Neste cenário, há um tema que precisa ser debatido com urgência, num exercício interno da área museal, mas também compartilhado com toda a população: a ideia do "museu do século XXI".

E que museu é esse? O que devemos esperar, o que podemos cobrar dele? Muito. A ideia de museu se modificou imensamente nas últimas décadas, e mesmo a mais recente definição de museu, divulgada em 2007 pelo Conselho Internacional de Museus (Icom, na sigla em inglês), está sendo rediscutida. Usada como referência na comunidade internacional, essa definição afirma que "o museu é uma instituição sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, que adquire, conserva, pesquisa, comunica e expõe o patrimônio tangível e intangível da humanidade e do ambiente, com o propósito de educação, estudo e prazer". Para além do fato de esta definição já estar defasada, se quiséssemos chamar de "museu" apenas as instituições que se encaixam, ao pé da letra, nessa classificação, teríamos problemas.

Os museus mudaram muito, mas precisam continuar mudando para se adaptar a uma sociedade e a um planeta completamente diferentes daqueles do século passado. Há pouco mais de trinta anos, não havia internet, redes sociais, selfies e nem buscadores como o Google. Não tínhamos noção da enormidade do problema ambiental que a raça humana estava impingindo ao planeta. A superpopulação assustava menos. Os modelos intelectuais do século XIX, no que diz respeito à economia, à política e à educação, ainda eram vigentes (ainda o são, embora estejam em plena transformação).

O museu do século XXI não precisa ser físico nem ter patrimônio tangível. Ele pode, por exemplo, ter acervo virtual ou colecionar memórias pessoais, como é o caso do Museu da Língua Portuguesa (cujo imóvel foi consumido pelo fogo há alguns meses, mas cujo acervo foi salvo porque havia backup) ou do novíssimo e experimental Museu das Coisas Banais, projeto de pesquisa de um grupo de estudantes da Universidade Federal de Pelotas.

O museu de hoje pode estar num prédio histórico ou ser todo um território, como o recém-inaugurado Ecomuseu de Santa Cruz, no Rio. Ele pode viajar num ônibus cheio de mestrandos que ensinam ciências em regiões remotas, como o Questacon Science Circus australiano, ou ser um dos pilares de transformação de toda uma cidade, como o Parque Explora foi para Medellín, na Colômbia. O museu do século XXI transcende seu espaço, reavalia, propõe, inova, incomoda. Cria formas de ajudar pessoas com demência, como fez o National Museums Liverpool, no Reino Unido, e abre literalmente as portas para a comunidade à sua volta (expondo-se, inclusive, a reações acaloradas nada positivas), como fez o Santa Cruz Museum of Art & History, nos Estados Unidos. Ele pode inovar nas redes sociais, como o Horniman Museum, de Londres, que passeou com sua morsa taxidermizada pelo sul da Inglaterra e criou para ela um perfil no Twitter que interagia com as pessoas ao longo da viagem. Pode falar do legado do inimigo a um país, como fez o Canadian War Museum em 2014, em sua exposição sobre os alemães em memória da I Guerra Mundial. Pode ser o Museu da Empatia, ou o Museu dos Relacionamentos Partidos.

Ao contrário de um tempo em que museu era sinônimo de coisa velha e empoeirada, os museus do século XXI querem ser espaços de discussão, criatividade e pensamento crítico. São fóruns dinâmicos, e não caixinhas de joias. São relevantes para a vida real do público que o frequenta porque o ajudam a lidar com ela. Abrem diálogo com imigrantes, drogados, marginalizados. Constroem exposições e projetos em conjunto com adultos, crianças e idosos, leigos e doutores.

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Vista lateral do Museu do Amanhã (Foto: MAHM)

É neste contexto que acho que o Museu do Amanhã tem sua maior relevância. Para além da discussão sobre seu potencial turístico ou de seus elevados custos de implantação, ele traz para a população do Rio de Janeiro uma proposta muito diferente da que ela está acostumada a entender como museu. Ele apresenta todo o seu conteúdo por meio de tecnologia digital, de um modo grandioso e interativo como ainda não tínhamos visto na cidade. Ele é contemporâneo, impactante, fresco, ambientalmente sustentável. Já nasceu trabalhando em parcerias, tanto com o Museu de Arte do Rio (MAR) quanto com outros museus, como o Museu da Vida (da Fiocruz) e o Science Museum de Londres. Ele fala de ambiente fazendo advocacia do tema: ele se posiciona, o que é raro num museu.

Se o Museu do Amanhã vai resistir ao amanhã, isso o tempo vai dizer. Espera-se que um projeto dessa dimensão tenha um plano de gestão coerente com a realidade brasileira, e isso inclui previsão de recursos para manutenção, tanto do equipamento, quanto do conteúdo em si, que, no modelo proposto, terá de ser renovado com periodicidade razoavelmente curta. Mas o fato é que se trata de um museu que buscou trazer para o cidadão do Rio outros tipos de respostas, diferentes das que estavam, antes, ao nosso dispor. Sua existência vem estabelecer outros patamares, liberar novas possibilidades, definir novos parâmetros de expectativa do público.

Não sei se o Museu do Amanhã, que muito promete, será um bom museu, pois evito julgar um museu em seus primeiros momentos de vida. Também não sei se o MAM, com seu curador recém-empossado, será um museu melhor. O que sei é que os museus, quando são bons, inspiram, alegram, aceleram, acalmam, agregam, melhoram, frutificam. Eles fazem bem à saúde, de uma forma mais sutil do que a de uma cirurgia bem feita, mas com resultados igualmente positivos e duradouros. Com a vantagem de que suas intervenções podem alcançar toda uma sociedade.

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Convidado

Claudia Porto

Museóloga e consultora de museus, membro da diretoria do COMCOL, o Comitê Internacional Icom para o Desenvolvimento de Coleções.

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