10 Perguntas

  • Compartilhe:
10 Perguntas 10 / 03 / 2015| Julia Meneses

Não adianta economizar em casa e desperdiçar nos reservatórios

Para combater a crise hídrica do Rio, especialista da FGV defende redução de água tirada dos reservatórios e combate às perdas no sistema de distribuição, mas alerta: incentivos ao reaproveitamento devem ser definidos pelo governo, e não pelas concessionárias.

  1. A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, disse que o Rio de Janeiro tem água — ela só precisa ser mais bem administrada. Você concorda?
    A situação do Rio de Janeiro não é tão grave quanto a de São Paulo. Lá, o sistema Cantareira está numa situação de quase seca, o que pede um racionamento intenso. O Rio ainda tem água. Mas isso não significa que podemos desperdiçar essa água. Precisamos ter uma atitude responsável e preventiva para um cenário hidrológico muito grave de falta de chuvas. Imaginemos que no próximo verão chova pouco ou que nos próximos meses chova abaixo da média, como está acontecendo. Se usado com responsabilidade, o volume de água que ainda existe nos reservatórios Jaguari, Paraibuna, Santa Branca e Funil poderá suprir a demanda até o final das Olímpiadas de 2016. O que está a ministra está cobrando, de maneira correta, é que o Rio de Janeiro faça as intervenções necessárias para permitir uma redução substancial do volume de água tirado do Paraíba do Sul: por exemplo, obras na tomada de água para que a captação funcione mesmo com vazão reduzida. A questão é que essa necessidade tem sido apontada desde abril de 2014 e, até o momento, poucas coisas foram concretizadas. O tempo está passando.
  2. Podemos dizer que o Rio de Janeiro não se preparou para mais um verão seco, como já tinha sido o de 2014?

    Se o governo tivesse tomado mais cedo a decisão de reduzir a vazão em Santa Cecília, teria economizado cerca de 2 bilhões/m³ de água

    A verdade é que o governo tem sido alertado para esse problema desde abril de 2014, quando os reservatórios do Paraíba do Sul não se recuperaram. Houve também muita geração de energia, o que reduziu ainda mais o volume de água, agravando uma situação já crítica. Não houve negociação ou acordo para uma redução das vazões. Se o governo tivesse tomado mais cedo a decisão de reduzir a vazão de 160 m³/s para 140 m³/s em Santa Cecília [autorizada em dezembro de 2014], teria economizado cerca de 2 bilhões/m³ de água, que hoje estariam dentro desses reservatórios. Isso é uma vez e meia toda a capacidade de reserva que o sistema de Cantareira possui, por exemplo. Quanto mais tardam essas decisões, mais colocamos em risco a nossa sobrevivência e o nosso abastecimento. Precisamos ser precavidos. O volume morto deve ser usado apenas em condições extremas.

  3. Os governos precisam mandar uma mensagem mais clara para a população de que é necessário reduzir o consumo de água?
    Depois que a água do reservatório é liberada, não adianta. Essas coisas tem de ser feitas juntas. Ao mesmo tempo em que a população reduz a demanda, é necessário haver acordos para que se diminua a saída de água do reservatório. As vazões do rio Paraíba do Sul, que são transpostas para o rio Guandu por meio da barragem de Santa Cecília e abastecem a região metropolitana e as cidades da Baixada, são acordadas entre os governos do Rio de Janeiro, de São Paulo, o Operador Nacional de Sistema (NOS) e a Agência Nacional de Águas (ANA). Se não houver um acordo entre esses órgãos para reduzir as vazões e guardar essa água dentro dos reservatórios, não faz diferença reduzir o consumo ou não.
  4. A transposição do rio Paraíba do Sul para o sistema Cantareira a fim de melhorar o abastecimento em São Paulo deverá prejudicar o Rio de Janeiro?
    Esse projeto só poderá entrar em operação quando houver água suficiente no rio Jaguari [afluente do Paraíba do Sul]. Se a situação atual persistir, nada poderá ser bombeado para São Paulo. Contudo, todos os sistemas que interligam bacias acabam melhorando a capacidade de reservação de água: nos locais onde estiver sobrando água, esta poderá ser transferida para os reservatórios mais vazios. As interligações entre sistemas são normais, mas é preciso assegurar que a disponibilidade hídrica do Rio de Janeiro não será sacrificada. Ou seja, que o funcionamento normal do estado não será prejudicado, tanto em relação às atividades econômicas quanto ao abastecimento da população e à atração de indústrias. Para ter desenvolvimento, é preciso ter água.
  5. Há a possibilidade de acontecer o inverso e a bacia do Paraíba do Sul se beneficiar?
    O projeto inclui os dois sentidos de uso, do Jaguari para o Cantareira e vice-versa. Porém, como o Cantareira tem a demanda da região metropolitana de São Paulo e da bacia do Piracicaba, que consomem muita água, é bastante difícil que sobre água para o Jaguari, que abastece o Rio de Janeiro. Isso, contudo, já aconteceu: nos verões de 2011 e 2012, por exemplo, o Cantareira ultrapassou o nível máximo de armazenamento.
  6. Dados da ONU apontam que 70% da água mundial são utilizados em irrigação. Como equilibrar esse uso, o das indústrias e o consumo diário da população?

    Deve ser uma política pública definida pelo Governo, que zele pelo interesse da sociedade e não pelo interesse comercial

    Esse número é uma média mundial, mas cabe bem à realidade brasileira. Só não é o caso de algumas bacias e rios, nos quais praticamente todo o consumo é voltado para o abastecimento público ou industrial. Contudo, sim, é importante economizar em todos os setores. A necessidade de utilizar água de maneira eficiente é um consenso no mundo inteiro. Os próprios financiamentos, seja para setor industrial ou agrícola, começam a ser mais exigentes em relação a sistemas mais efetivos no uso da água.

  7. E quanto ao reaproveitamento da água da chuva? A Cedae declarou recentemente que os condomínios que criassem sistemas para coleta de água da chuva seriam tarifados por gerar mais esgoto. Você acha que falta criatividade na criação de políticas que incentivem de fato esse uso mais eficiente da água?
    Existe aí, nitidamente, um conflito de interesses. Para as concessionárias, como em qualquer outro setor, interessa vender a maior quantidade possível de água. É por isso que esse tipo de política de incentivo não pode ser deixado na mão do prestador de serviço. Deve ser uma política pública definida pelo governo, que zele pelo interesse da sociedade e não pelo interesse comercial. Um caso como esse da Cedae é uma distorção: uma política tarifária que penaliza quem usa água da chuva, por exemplo, não é de interesse ambiental. Há muitos casos assim, por exemplo, quando o governo autoriza que uma indústria construa um sistema de reuso, de água subterrânea ou de qualquer outra fonte de água imprópria para o abastecimento humano, como um rio poluído. Muitas vezes, a concessionária não gosta que o setor ambiental autorize esse tipo de uso da água, pois gera perda de receita.
  8. O destino final do esgoto afeta diretamente a qualidade de água disponível para uso humano e no meio ambiente. A chamada água de reuso seria uma saída para o problema da escassez e do esgoto ao mesmo tempo?
    A Sabesp, em São Paulo, tem um projeto de reuso no qual o esgoto é tratado para uso industrial. Em relação ao abastecimento público, há muita resistência ao chamado reuso direto: a mistura da água de reuso à água tratada para distribuir à população. Já no chamado reuso indireto, a água de reuso é despejada no reservatório, de onde segue para uma estação de tratamento. Mas é necessário pensar se isso é viável do ponto de vista econômico, pois se trata de um sistema de abastecimento bastante caro. Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, esse sistema seria mais complicado. Primeiro porque nós temos um baixíssimo volume de esgoto tratado; segundo porque essas estações estão instaladas à beira mar ou à beira da baía de Guanabara, mais distantes dos pontos onde a água pudesse ser aproveitada. Eu diria que o reuso é uma opção, mas há situações mais urgentes, como a perda na distribuição da água e a redução do consumo individual.
  9. Quais seriam as medidas mais emergenciais para o Rio de Janeiro? Quais são os próximos passos?

    Eu diria que o reuso é uma opção, mas há situações mais urgentes, como a perda na distribuição da água e a redução do consumo individual

    Precisamos aproveitar os próximos meses para executar algumas obras imprescindíveis, como a redução ainda maior da vazão que sai dos nossos reservatórios. Em tempos normais, essa vazão é de 190 m³/s, em dezembro de 2014 caiu para 140 m³/s e poderá ter de ser ainda mais reduzida [em março de 2015, caiu para 110 m³/s]. Outra coisa extremamente necessária é uma campanha de hidrometração da Cedae. Apenas 67% das ligações oficiais de água têm hidrometração; as demais são feitas por estimativa. Temos um consumo per capita de água altíssimo no Rio de Janeiro, um dos maiores do Brasil: até 280 litros por habitante/dia. A maioria dos prédios da cidade não comporta medidores individuais de água, o que acarreta aquele pensamento: “Por que eu vou economizar se o meu vizinho não está economizando e se a conta vai ser dividida igualmente por todos?” É muito difícil trocar esses sistemas de hidrometria porque os prédios são muito antigos, mas os novos já devem ser construídos com um hidrômetro para cada apartamento. Além disso, precisamos combater as perdas nesse sistema de distribuição. A média brasileira de 38% representa cerca do dobro do que seria desejável para um país nas condições do Brasil. Existem países chegando a 15% ou 12% de perda. Quanto às indústrias que captam água do Paraíba do Sul e do Guandu, estas precisa fazer obras de adaptação para que possam se abastecer mesmo numa condição de vazão mais reduzida.

  10. E sobre a gestão dos recursos hídricos, os munícipios possuem autonomia para as decisões? Como essa gestão tem sido realizada?
    O Brasil tem 5.500 municípios. Se todos fossem envolvidos diretamente na tomada de decisões, passa a haver uma quantidade muito grande de atores. Mas eu não diria que os municípios tenham um papel secundário, a questão é a interlocução. Para isso existem os Comitês de Bacias e os Conselhos Nacional e Estadual de Recursos Hídricos, onde os setores usuários se fazem representar. Num momento de crise, contudo, é muito difícil chegar a um acordo num fórum com cinquenta a cem pessoas. Nessas horas, o poder público deve conduzir essas negociações e tomar decisões em todas as instâncias. A gestão compartilhada fica prejudicada. No caso do Paraíba do Sul, existe um grupo técnico de acompanhamento com representantes dos Comitês de Bacias, da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Agência Nacional de Águas (ANA) e dos governos estaduais, o que contribui para uma gestão mais participativa.
  • Compartilhe:

Convidado

Marilene Ramos

Coordenadora Adjunta do Centro de Regulação e Infraestrutura da FGV, onde leciona na Escola de Administração Pública e Empresas (Ebape). Tem experiência na área de Engenharia Civil, com ênfase em Gestão (...)

Mais 10 Perguntas

André Buffara: O Uber aos olhos da lei

Advogado analisa aplicativo do ponto de vista do direito econômico

Emílio Domingos: “A cadeira do barbeiro é um divã”

Diretor de A Batalha do Passinho, Emílio Domingos fala sobre Deixa na Régua, seu novo filme que aborda universo das barbearias cariocas

Clarisse Linke: Mapa da juventude em movimento

Para Clarisse Linke, diretora do ITDP Brasil, transporte de alto custo e má qualidade é um fator de exclusão dos jovens nas cidades brasileiras

Ouça as vozes do Rio

Preencha o formulário abaixo para assinar o boletim do VozeRio

Mais sobre Água

Grupo Executivo de Gestão Metropolitana divulga em junho proposta unificada de saneamento básico para 21 municípios

Em São Gonçalo, estrada divide Petrobras e prefeitura

Via construída pela empresa é acusada de agravar o problema dos alagamentos no Jardim Catarina

PPPs em saneamento básico: uma luz no fim do túnel?

Alternativa é vista como uma solução possível para o problema crônico da Região Metropolitana do Rio, mas ainda não é unanimidade

Pão e água: agricultores protestam contra barragem

Plantadores de milho e aipim de Cachoeiras de Macacu querem evitar alagamento de suas terras por reservatório que abasteceria de água São Gonçalo e Niterói
Realização:
Iets
Patrocínio:
Universeg
Apoio:
Biblioteca Parque Estadual Biblioteca Parque Estadual
 
Licença Creative Commons
Desenvolvido em SPIP pela Calepino