10 Perguntas

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10 Perguntas 19 / 10 / 2015| Isabela Fraga

Novo mapeamento revela forte centralização no cenário musical do Rio

A partir das 19h desta segunda-feira (19/10), mais de 200 agentes culturais de 60 cidades do Rio estarão disponíveis para consulta no Mapa Musical RJ, plataforma colaborativa que pretende formar redes de músicos, produtores e consumidores e descentralizar o cenário musical do estado. Nesta entrevista, Luiza Bittencourt, coordenadora de projetos da Ponte Plural — uma das organizações responsáveis pelo mapa —, explica como a ferramenta foi criada e as complexidades do quadro musical do Rio.

O lançamento acontecerá esta segunda, às 19h. A partir de então, o Mapa Musical RJ estará disponível no link mapamusicalrj.com.br.

  1. O que levou vocês a conceber o projeto do mapa? Como a UFF e os outros atores se juntaram nessa empreitada? A pesquisa teve início em 2011, quando a equipe da Ponte Plural realizou uma circulação pelo interior do estado do Rio de Janeiro e mapeou mais de 200 agentes culturais em 60 cidades. Fizemos uma primeira imersão para levar o festival Grito Rock para várias cidades do interior e, após isso, fizemos uma segunda imersão com o workshop Músico Plural, que possuía metodologia própria para dirimir problemas locais de uma cidade na área de música de forma a utilizar a inteligência coletiva. No ano seguinte, em 2012, percebemos que havia casas de show no Rio que poucas pessoas conheciam e aí decidimos fazer o mapeamento “Onde Tocar no Rio de Janeiro”, com cerca de 80 espaços na capital. Essa lista foi um sucesso e, apesar de ser de 2012, é até hoje a página mais acessada no nosso site. Aos poucos começamos a realizar eventos e ações de capacitação no interior em parceria com agentes e coletivos locais.A partir daí, a pesquisa teve seu âmbito ampliado e voltou seu olhar novamente para o estado do Rio. Em 2013, o Mapa Musical RJ foi aprovado no edital do Instituto Claro Embratel para a realização de site, aplicativo e oficinas de empreendedorismo pelo interior. Esse projeto foi posteriormente financiado através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Rio de Janeiro, com patrocínio também do Governo do Rio de Janeiro e da Secretaria de Estado de Cultura. Assim, em 2014, a Ponte Plural firmou uma parceria com o LabCult, sob a coordenação da professora Simone Pereira de Sá, que já vinha desenvolvendo outros projetos de cartografia sonora e musical. Os dois grupos uniram forças para o desenvolvimento da pesquisa ‘Cartografias Musicais’, que obteve o patrocínio do Ministério da Cultura e do CNPQ. Esse projeto fez um novo mapeamento pelo estado e passou a incluir, além das casas de shows e espaços culturais, os festivais, coletivos, secretarias de cultura, estúdios, entre outros agentes culturais locais.
  2. Como foi feito o mapeamento? A metodologia teve um somatório de imersão presencial em algumas cidades para a realização de pesquisa e também cursos, contato com agentes culturais locais para obter informações sobre suas cidades e pesquisa virtual.
  3. O mapa é colaborativo? Como as pessoas poderão participar? O usuário do Mapa Musical RJ poderá, através do site, indicar novos itens a serem incluídos e também informar mudanças no status dos que já estão lá. Por exemplo, uma casa de show que mudou de nome ou um estúdio que encerrou as atividades. Nosso interesse é manter o mapa atualizado ao máximo para que possa atender da melhor forma aos músicos profissionais e amadores que estejam em busca dos dados identificados.
  4. Nas viagens de vocês pelo estado do Rio, o que mais chamou a atenção? Alguma surpresa e/ou expectativa revertida? Chama a atenção a pouca estrutura que o estado ainda possui no interior para ações de música. Apesar de muitas prefeituras terem como política pública oferecer gratuitamente oficinas e cursos livres de música, não existe uma estrutura que colabore para que esses alunos possam optar por desempenhar o ofício profissionalmente. Por exemplo: os estúdios pelo interior são muito raros e, com isso, os artistas não possuem um ambiente de qualidade para manter uma rotina de ensaios. Em diversas cidades, não existe uma secretaria apenas para a cultura, que acaba ficando junto da educação, ou do esporte e lazer. E também os principais eventos realizados pela prefeituras (como aniversário da cidade, festa de padroeira e festivais gastronômicos) são executados pela secretaria de turismo, que foca na maioria das vezes em montar uma programação com artistas mainstream, sem valorizar adequadamente os músicos locais. Por outro lado, identificamos muitos espaços para shows de pequeno porte. Com capacidade entre 40 e 200 pessoas, esses locais podem absorver a demanda de circulação de artistas de mercado de nicho que tenham interesse em circular pela região.
  5. Como você avalia a cadeia da música no Rio hoje? Quais as diferenças em relação a outros estados? Como ela se coloca historicamente? Eu acompanho desde 2007 a cena musical independente de várias regiões do país e sempre me impressionou a falta de aproximação com o interior do Rio de Janeiro. Poucos artistas de nicho conseguem circular pela região, ao passo que outros estados, como São Paulo, Minas Gerais e Bahia, sempre receberam diversas turnês passando por várias cidades.
  6. A produção musical no Rio hoje é muito centralizada? Como descentralizar esse cenário? A centralização é impressionante. Cerca de 50% dos itens mapeados estão na região metropolitana, ao passo que os outros estão espalhados por mais de 70 municípios. Com o Mapa Musical RJ, queremos estimular os músicos a utilizarem essas informações para entrarem em contato com coletivos, produtores de festivais, programadores de casas de shows e secretarias municipais e promoverem uma imersão pelo interior do estado. O Rio de Janeiro tem dois pontos muito positivos que colaboram: o primeiro é o fato de ser um estado pequeno com cidades bem próximas, o que facilita muito para organizar uma turnê passando por várias delas e reduzindo os custos. Além disso, essas cidades podem funcionar como pontos de circulação em rotas para outros estados, como São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Por exemplo: uma banda com show agendado na capital paulista no sábado pode procurar marcar uma apresentação em Volta Redonda na sexta, ou no domingo, já que fica no trajeto da viagem.
  7. Os atores do cenário musical do estado têm contato uns com os outros? Como é feita essa articulação? O mapa pretende formar uma rede conectada desses atores? Pelo que temos acompanhado nos últimos anos existe ainda pouco contato, mas essas articulações vêm crescendo porque os próprios artistas estão percebendo a necessidade de atuar de forma conjunta. Com isso, vários músicos estão se organizando em coletivos e movimentos culturais para desenvolver ações. Por exemplo, os cariocas da #acenavive e Rock S.A.; o Juventude Rock, em Cabo Frio; o Roque Pense com atuação na Baixada Fluminense; e o Núcleo, em Volta Redonda, com ações voltadas para a cultura hip hop. Com o mapa em funcionamento, o próximo passo de nosso planejamento é dar início às atividades do Nós de Rede, a primeira incubadora de redes do Brasil.
  8. Que papel o Nós da Rede pretende desempenhar?Com uma atuação itinerante de formação em cultura, o Nós de Rede visa desenvolver competências criativas e empreendedoras em artistas, produtores e agentes culturais incentivando a troca de experiências e a qualificação profissional a fim de criar novos arranjos criativos locais que sejam conectados em uma rede. Essa será a etapa de conexão desses atores. As primeiras cidades que receberão as ações desse projeto são Niterói e Maricá. Tanto o Nós de Rede quanto o Mapa Musical RJ são ações realizadas no âmbito da Estação de Empreendedorismo Cultural, uma incubadora de negócios criativos na área musical que é um projeto de extensão realizado pela Ponte Plural e o Laboratório de Pesquisa em Cultura e Tecnologias da Comunicação (LabCult) no âmbito da graduação de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense.
  9. Quanto dinheiro foi investido na elaboração do mapa? É difícil mensurar porque ele envolve um trabalho de pesquisa e imersão pelo interior que vem sendo desenvolvido há muitos anos e que envolve custos com gasolina, hospedagem, alimentação, passagens que não foram calculados na época porque nem tínhamos ideia de que aquelas viagens pelo interior se tornariam o pontapé inicial do Mapa Musical RJ. Foi todo um processo que foi acontecendo de acordo com as nossas necessidades e envolvimento com a cena musical. Após a criação do mapa "Onde tocar no Rio de Janeiro" (2012) e a fundamental aprovação do projeto na Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Rio de Janeiro, garantindo o patrocínio do Mapa Musical RJ pela Claro, Governo do Rio de Janeiro e Secretaria de Estado de Cultura, começamos a parceria com o LabCult da UFF, que tinha acabado de desenvolver um mapeamento das paisagens sonoras do Rio e de Niterói. Foi uma união de forças. Como é possível notar, os patrocínios envolvidos chegaram em um momento posterior. Alguns não consistem em uma verba para investimento direto no aplicativo, mas sim em bolsas para pesquisadores, diárias de viagens e recursos para aquisição de equipamentos. Esses apoios foram fundamentais para consolidarmos e atualizarmos os dados obtidos ao longo desses anos e para o desenvolvimento do aplicativo e do site.
  10. Há a intenção de ampliar o mapa para outros estados? Quais os próximos passos? Sim, já estamos em contato com outros estados para expandir esse projeto para outras regiões brasileiras.
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Convidado

Luiza Bittencourt

Coordenadora de projetos da Ponte Plural e doutoranda em comunicação na Universidade Federal Fluminense (UFF)

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