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Nuvens de crise sobre o Rio 5 / 03 / 2015| Rosa Lima (especial para VozeRio)

Nuvens de crise sobre o Rio

Crescimento baixo, inflação crescente, emprego em queda, crise hídrica e energética: diante de um cenário econômico sombrio, analistas recomendam aprender a fazer mais com menos, rever estratégias, definir prioridades, buscar alternativas criativas e inovar.

No início de 2011, depois da esmagadora vitória que garantiu a reeleição do governador Sérgio Cabral em primeiro turno, o Rio de Janeiro surfava uma onda alvissareira, impulsionada pelos altos índices de crescimento econômico, o mercado de trabalho aquecido e o real valorizado; e celebrava a conquista das Olimpíadas, os investimentos com a Copa e as promessas milionárias do pré-sal. Parecia que os anos de estagnação e decadência haviam ficado definitivamente para trás, e que o Rio poderia, enfim, voar num merecido céu de brigadeiro.

Quatro anos depois, é muito distinto o ambiente econômico encontrado pela nova administração estadual. Luiz Fernando Pezão se deparou com nuvens carregadas no horizonte, que estreitam seus limites de atuação e ameaçam jogar por terra as conquistas dos anos anteriores. Crescimento baixíssimo, inflação crescente, emprego em queda, dólar em alta, petróleo em baixa e, como se não bastasse, crise hídrica e energética, com sérias ameaças de racionamento de água, força e luz, compõem o cenário.

Num quadro tão desfavorável, os analistas afirmam que é preciso aprender a fazer mais com menos, avançar em eficiência, rever estratégias, definir prioridades, buscar alternativas criativas e inovar.

Até agora, pelo menos, o governo vem dando sinais de estar seguindo a receita. Tão logo assumiu, Pezão anunciou medidas para reduzir as despesas de custeio: suspendeu temporariamente a realização de novos concursos, reduziu gratificações, criou uma comissão para analisar todos os pedidos de ampliação de gastos, tomou medidas para estudar redução nas despesas com contratos assinados, tudo com o objetivo de apertar o cinto enquanto espera a reação da economia e o aumento na entrada de receita. De dedos cruzados, torce pelo sucesso do governo federal no ajuste fiscal proposto pelo ministro Joaquim Levy e aposta que o desaquecimento possa ser revertido ainda este ano.

“Vamos ter um primeiro semestre muito duro. Mas acredito que já para o segundo semestre a situação comece a aliviar.” Paulo Taffner, assessor da Secretaria de Fazenda

É o que afirma o economista Paulo Taffner, assessor especial do secretário de Estado de Fazenda, Julio Bueno. “Vamos ter um primeiro semestre muito duro, de ajustamento. Mas acredito que já para o segundo semestre a situação comece a aliviar.”

De acordo com ele, o Rio de Janeiro, assim como os demais estados da federação, está sofrendo as consequências da desaceleração da atividade econômica do país, fruto da insustentabilidade do padrão anterior da política macroeconômica, conjugada a uma forte pressão de preços. A inflação tem forte impacto nos custos do setor público — contratos, gastos com energia elétrica, água e telefone — e também na capacidade de investimentos. “A grande vantagem que temos no Rio é que os principais compromissos que o governo assumiu estão protegidos por operações de crédito junto a entidades multilaterais como Bird, BID e Banco Europeu”, ressalva.

Se o Rio conta com uma vantagem especial, tem também uma particularidade nada benéfica: a redução internacional do preço do petróleo, comemorada por muitos segmentos, vai representar uma queda acentuada de receita de royalties este ano. Taffner estima que isso pode significar uma perda da ordem de R$ 3 bilhões, o que é grave para o orçamento estadual, e precisa ser compensado de alguma forma.
Numa situação como essa, diz o economista, a saída é buscar alternativas para financiar investimentos. Uma delas é a criação de Parcerias Público-Privadas. São cinco os projetos escolhidos pelo governador Pezão: saneamento básico na Baixada Fluminense e na área Leste do Rio (Itaboraí, São Gonçalo e Magé); metrôs Carioca-Estácio até Praça XV e Linha 3 (São Gonçalo-Itaboraí); e Rio Digital, que vai conectar com fibra ótica todo o setor público estadual, incluindo delegacias e escolas.

“O Rio já tem essa vocação e um ambiente favorável a atividades baseadas em conhecimento — um grande número de universidades públicas e privadas e de centros de pesquisa de excelência. Nada melhor do que se criar mecanismos para potencializar esses recursos disponíveis, e o Rio Digital é um deles”, afirma Paulo Taffner. “Essa é uma demanda do século XXI, mas temos outra, do século XIX e ainda hoje não atendida, que é o saneamento. Se nós conseguirmos desatar os nós institucionais que envolvem essa atividade, o caminho estará aberto para o sucesso dessa PPP. E isso porá o estado do Rio num trilho que representará a superação de uma tragédia que os países do nosso porte de PIB já superaram há anos. A PPP da mobilidade, por sua vez, já é bem mais complexa e precisamos analisá-la bem para lhe dar os incentivos corretos”, afirma Paulo Taffner.

Outra estratégia pensada pelo governo estadual é atrair empresas usando os projetos âncoras já concluídos ou em fase final, como Arco Metropolitano, Porto do Açu, Galeão, Olimpíadas e Comperj. A ideia é usar os projetos estruturantes para atrair e instalar empresas no entorno. De acordo com o secretário Bueno, o governo está preparando um pacote de investimentos, que sai ainda no primeiro trimestre, da ordem de R$ 1 bilhão, em várias áreas, de biotecnologia a bebidas.

Uma boa notícia é que, nos últimos anos, a indústria de transformação — aquela que transforma matérias-primas em produtos — aumentou paulatinamente a sua participação no total da indústria, que era muito concentrada em extração, sobretudo de petróleo. “Uma indústria mais complexa e diversificada significa maior capacidade de reação de alguns setores e mais chances de retomada da atividade industrial”, diz Taffner.

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