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Pensatas 26 / 10 / 2016| Eduardo Pontin

O Filósofo do Samba

Nascido há 100 anos, sambista Silas de Oliveira é autor de uma obra atemporal, que vai além dos sambas-enredo e vem sendo resgatada por uma nova geração de músicos

Foto: Dona Elane, o filho Silas Junior e o marido Silas de Oliveira cantando o samba "Meu Drama" (Reprodução/Facebook)

Em outubro de 2016 comemoram-se 100 anos do nascimento do sambista Silas de Oliveira, fundador da Escola de Samba Império Serrano (1947) e o maior compositor de samba-enredo de todos os tempos. Silas de Oliveira Assumpção, nascido em Madureira, subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, filho de um pastor evangélico, teve a sua formação guiada pela Bíblia. Aos 18 anos, em 1934, tornou-se professor primário e passou a frequentar a Escola de Samba Prazer da Serrinha, o que levou seu pai à ira. Naqueles tempos, ser negro e não cultuar uma religião de origem africana, ser negro e ser censurado por seu pai pelo fato de ser sambista eram acontecimentos pouco comuns, com os quais, contudo, Silas teve de lidar.

Esses conflitos pessoais e essas contradições com o seu meio, aliados à experiência de ter sido um náufrago - a serviço da Marinha brasileira, teve o navio em que estava torpedeado, em 1942 - fizeram Silas ser um homem de caráter reflexivo, de poucas palavras. Com um universo interior inquieto, Silas legou uma obra riquíssima para a posteridade, porém muito pouco conhecida nos dias de hoje.

Subvertendo o que vem sendo escrito sobre o centenário de Silas de Oliveira, o sambista não foi apenas o maior compositor de samba-enredo. Foi um dos maiores compositores de samba de todos os tempos, ombreando com Cartola, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho e tantos outros. É surpreendente como a obra de Silas, para além de “Aquarela Brasileira”, “Heróis da Liberdade”, “Apoteose ao Samba” e “Meu Drama” vem sendo relativamente ignorada nos meios musicais do Brasil afora. Isso é reflexo de um país que ainda não aprendeu a reconhecer o seu próprio legado e aceita como espelho valores vindos de fora.

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Silas com o filho Silas Junior (Silas de Oliveira/Facebook)

Silas é autor dos mais desconcertantes versos e das melodias mais imprevisíveis de nosso cancioneiro popular. Não à toa, era conhecido entre os seus como “o filósofo do samba”. Embora em seus sambas constem inúmeros parceiros, a verdade é que Silas foi um autor de completa autonomia intelectual. Silas floresceu aos 36 anos de idade, já pai de quatro filhas e casado há oito anos com Elane, mulher de toda a sua vida. Ao compor para ela o samba “Luz da minha vida”, em 1953, entrou para o panteão dos poetas legitimamente populares: “És... /A luz da minha vida/Meus preferidos ais/Ó febre enternecida/Forte comovida/Peço que não cesses nunca mais”. Essa canção fez grande sucesso no universo do samba, porém nunca havia sido gravada, até que, em 2010, graças à boa memória do sambista Monarco, o intérprete Tuco Pellegrino pôde registrá-la.

Apesar de filho de pastor evangélico, Silas converteu-se ao Racionalismo Cristão em meados dos anos 50. À essa doutrina, dedicou o samba “Astral superior (ciências no samba) ”, gravado por seu maior intérprete, Jorginho do Império: “O mundo é o teatro da vida /No palco da luta renhida desempenha seu papel /Sua estrada de longa miragem /Durante a nossa passagem o cenário é cruel”. De complexa decodificação, “Astral superior” demonstra a sofisticação e a expansividade do pensamento de Silas.

Em 1955, com sensibilidade única, deu vida a carta de suicídio de Getúlio Vargas , musicando-a para que Moreira da Silva pudesse gravá-la sob o título de “A carta”. No ano de 1959, Silas perdeu sua filha primogênita, Nanci, que contava com apenas 14 anos. Para ela, havia composto o comovente samba “Me leva”: “Me leva em teus braços/Aqui não posso mais ficar/Por ti eu tudo faço/Para não te ver chorar”. Esse samba acabou por fazer grande sucesso na voz de Anísio Silva e era frequentemente executado no terreiro da Império Serrano. Nessas ocasiões, Silas não continha as lágrimas.

Em 1955, com sensibilidade única, Silas deu vida a carta de suicídio de Getúlio Vargas

Em Silas não há machismo. A mulher não lhe maltrata. Contrariamente, o faz viver, pensar, sentir, pulsar. E, se o maltrata, o poeta tira proveito e a transforma em samba. Em 1964, com 47 anos, o sambista atingiu sua maturidade, compondo “Fica”, obra prima que relata o seu espírito aventureiro: “Inteligentemente/Essa tua malícia/De tendência fictícia/É de torturar/Mas evidentemente quem bate não sente/Não me canso de te implorar/Pra ficar”. Causa espanto esse samba ter recebido uma única gravação, na possante voz de Carmem Silvana.

A obra de Silas só não é esquecida porque, hoje, existem espaços sociais que a cultivam. O Samba na Serrinha, realizado na Casa do Jongo, no subúrbio do Rio de Janeiro, vem desempenhando um papel social e resgatando valores culturais na comunidade da qual Silas foi o poeta maior. As rodas de samba são encerradas ao som do jongo, música e dança bem características daquela localidade e que exerceram grande influência em Silas.

Em São Paulo, o agrupamento de músicos e pesquisadores Glória ao Samba vem estudando e executando a obra de sambistas dos primórdios das escolas de samba. Em decorrência desse trabalho, está organizando uma grande homenagem a Silas, na qual serão executados todos os seus 33 sambas já gravados, além de inúmeros inéditos. Estarão presentes sambistas veteranos do Morro da Serrinha. O evento será gratuito e ocorrerá dia 3 de dezembro, no Clube Anhanguera, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo.

A jornada de Silas se encerrou em 1972, aos 55 anos, quando ele sofreu um enfarto em uma roda de samba, deixando viúva e seis filhos. Sua obra, entrentanto, é universal e atemporal. O samba “Calamidade”, conhecido pela interpretação do gigante Roberto Ribeiro, poderia muito bem ter sido escrito nos dias de hoje, tamanha a clareza com que expõe a sua mensagem. Nada do que possa ser escrito sobre Silas possui mais força do que as suas próprias palavras: “Às vezes esqueço que estou aqui na Terra/De tanto pensar no céu/Chegando mesmo a preferir a guerra/A paz é muito mais cruel/Vejo a doçura amargar tanto quanto o fel/O pano hoje é inferior ao papel/O doutor passou a ser bedel/Senhor olhai a calamidade/Que domina essa nossa humanidade/A desgraça hoje é felicidade/A mentira tem mais valor que a verdade”.

SALVE SILAS DE OLIVEIRA, O FILÓSOFO DO SAMBA!

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Convidado

Eduardo Pontin

Filósofo que pesquisa sobre a vida e a obra do sambista Silas de Oliveira

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