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OsteRio 12 / 03 / 2015| Isabela Fraga

O Rio no espelho

No espelho oferecido pelas comemorações dos 450 anos do Rio de Janeiro, como a cidade se vê? Os participantes do primeiro OsteRio de 2015, realizado na última terça-feira (10/3), resgataram exemplos na história, no território e na cultura da cidade para mostrar que a principal tradição do Rio é se reinventar.

O aniversário da cidade acontece numa época nebulosa para a economia carioca, com crescimento e empregos em queda, inflação em alta e crise hídrica. Assim, para aproveitar a efeméride e discutir como chegamos a esse ponto — e qual direção podemos tomar —, foram convidados a historiadora Marieta de Moraes Ferreira, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o urbanista e historiador Augusto Ivan Pinheiro e o historiador Antonio Edmilson, professor da PUC-Rio.

Assista os melhores momentos!

Mas, afinal, o que significa comemorar? Para problematizar o próprio evento, Marieta resgatou um período não muito distante: a celebração dos 400 anos do Rio, em 1965. Naquele ano, como está acontecendo agora, a cidade presentou-se com eventos, livros, museus e novos espaços, como o Aterro do Flamengo e o Museu da Imagem e do Som (MIS). No último ano de Carlos Lacerda como governador do Estado da Guanabara, o Rio de 1965 também vivia um momento de transição: apenas cinco anos depois de deixar de ser a capital do país, a cidade buscava uma nova identidade.

"Se em 1965 as comemorações estavam muito focadas em retrabalhar e reatualizar a cidade do Rio de Janeiro como capital cultural, hoje há um movimento de guardar esse vínculo com o passado", ponderou Marieta. Afinal, umas das maiores mudanças desde 1960 foi a criação do Estado da Guanabara e depois sua dissolução em 1975, quando a cidade do Rio passou a de fato interagir com seu entorno. E isso, com o passar dos anos, só fez aumentar.

"Hoje, a integração com o interior fluminense é muito maior, assim como a preocupação com os subúrbios", explicou a historiadora, autora de Rio de Janeiro: Uma cidade na história. "O Rio não é mais só a Zona Sul. Em 1965, dizer que o Rio era também a cidade metropolitana era algo muito difícil de ser absorvido pela população carioca."

Para Marieta, essa fusão territorial, política e cultural mostra o potencial de reinvenção do Rio de Janeiro. "Sou otimista. Acho que o Rio está se reinventando e, a despeito de todas as dificuldades, acho que ele consegue superar. Quando todos acham que está tudo perdido, acho que ele se recria, se reinventa e se recoloca no cenário nacional de maneira positiva para o país."

Luta contra a natureza
A visão de Augusto Ivan, contudo, não é tão positiva. A partir de um olhar sobre a formação territorial do Rio de Janeiro, o urbanista lembrou que, desde o começo da ocupação das terras que hoje são o Rio, a paisagem deslumbrante é acessível a poucos. "O governo e o capital investiram justamente no lugar que interessava para eles", explicou. "Os pobres foram caminhando para os lugares onde havia menos serviços."

A geografia da cidade, como se sabe, também colaborou para uma conformação bem peculiar. Como observou Augusto Ivan, o Rio é formado por uma linha que sai de uma ponta (curiosamente chamada de "Centro") e segue até a região Oeste; e outra que vai até a região Norte e o que hoje é a Região Metropolitana. Uma deslumbrante cadeia de montanhas — o maciço da Tijuca — separa essas duas linhas. "O Rio lutou contra a natureza, mas é uma das poucas cidades do mundo que não se autodemoliram; seus principais elementos formam uma identidade". Ivan se refere à dificuldade de ligar diferentes pontos do Rio separados por acidentes geográficos: o túnel Rebouças, por exemplo, só foi inaugurado em 1967. O túnel da Grota Funda, debatido desde a década de 1950, só começou a operar em 2012.

Nessa "briga" com a natureza, quem perdeu foi a população mais pobre, que precisou se estabelecer nas zonas que não interessavam às elites, como os morros. "Houve uma administração perversa da cidade que valorizou cada vez mais os lugares que já eram valorizados pela sua própria paisagem e desvalorizou todo o resto, que era dos pobres. Nisso, tudo é desvalorizado: saúde maltratada, saneamento não é pensado, falta água, a luz é de gato, não há transporte", explicou o urbanista.

Carioca gosta é de rua
Se a ocupação do território explica, desde os primórdios da cidade, a grave desigualdade social do Rio, a integração cultural revela um outro lado da história. Segundo Edmilson, devemos "olhar para a história da cidade e pensar que os embates são contínuos ao longo do tempo. Eu diria que essa cidade viveu tensões o tempo inteiro, e sempre superou."

Para o historiador, o carioca não pode ser resumido num estereótipo, seja o do malandro, seja o do vagabundo. "Para mim, a história do Rio caminha como o João do Rio, pelas ruas. Flanar é perambular com inteligência, não é vagabundear no sentido de ser ocioso, mas de trabalhar a cidade o tempo inteiro e reconhecê-la em suas ruínas”, afirmou ele.

Os anos de ditadura militar tornaram atividade subversiva a ocupação das ruas. O carnaval e os recentes movimentos políticos mostram que este território foi retomado. Mesmo assim, entretanto, a intervenções sobre a cidade podem ameaçar a tradição carioca de uso do espaço público. "O Porto Maravilha me preocupa porque pode anular a possibilidade dessa troca [na rua], dessa diferença que é o Rio. A gente aprende na diferença, nunca aprendeu na semelhança. Não somos cidade-padrão."


Quer ver como foi o OsteRio? Veja as fotos no nosso álbum do Facebook.

Assista aos teasers do evento, com os melhores momentos de cada participante!

Marieta de Moraes Ferreira:

Augusto Ivan Pinheiro:

Antonio Edmilson:

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Convidados

Augusto Ivan Pinheiro

Urbanista, assessor da Empresa Olímpica Municipal e autor de "Rio de Janeiro: cinco séculos de história e transformações urbanas"

Marieta de Moraes Ferreira

Professora da UFRJ, pesquisadora da FGV e organizadora do livro "Rio de Janeiro: uma cidade na história"

Antonio Edmilson

Professor de História da PUC-Rio, especializado em história do Brasil, autor de João do Rio - a cidade e o poeta

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