Reportagens

  • Compartilhe:
O choro resiste 26 / 05 / 2015| Rosa Lima (especial para VozeRio)

O choro vive. Viva o choro!

Novos grupos levam adiante o mais antigo gênero musical da cidade, que ganhou sede própria com direito a show na hora do almoço

Dos anos 1960 vem o conjunto Época de Ouro, fundado por ninguém menos do que Jacob do Bandolim. Dos anos 1970, o grupo Galo Preto. Dos 1980, o Nó em Pingo D’Água. Dos 1990, o Água de Moringa, o Quarteto Maogani e o Trio Madeira Brasil. Todos ainda em atividade. Em 2000 nasceu o Choro na Feira e, de lá para cá, já surgiram Os Matutos, a Camerata Brasilis, o Regional Carioca e vários outros.

O tempo não para, e o choro também não. Mesmo sem espaço nas rádios, nas TVs e casas de show, o choro vive e se revigora com o talento e a disposição das novas gerações que pegam o bastão dos mestres e levam adiante a mais antiga linguagem musical carioca, tocando onde podem: nas rodas, nas praças, nos bares da cidade...

Sendo tradição tão antiga e perpetuada, surpreende saber que foi só em pleno 2015 — quase cinquenta anos depois de Jacob do Bandolim! — que o choro ganhou uma ’sede’: a Casa do Choro, inaugurada oficialmente no último dia 25 de abril, no sobrado da rua da Carioca, 38, depois de longos anos de batalha. A partir de maio, a casa inaugurou também sua programação de shows, que acontecem às 12h30 e às 18h30 (veja o mapa no final da matéria).

"O choro é a base da cultura musical carioca." Luciana Rabello, presidente do Instituto Casa do Choro

“Batalha primeiro para conseguir o imóvel, depois para garantir recursos para a reforma da casa e restauração da fachada, que é tombada. E ainda estamos lutando para terminar de montá-la”, conta a cavaquinista Luciana Rabello, presidente do Instituto Casa do Choro, que viabilizou a empreitada. O imóvel foi cedido pelo governo do estado, e a verba conseguida, parte da Petrobras (via lei Rouanet) e parte do BNDES, permitiu deixar a casa pronta para a inauguração. Mas para seu funcionamento pleno, ainda falta colocar os móveis e os equipamentos, fazer o estúdio, o tratamento acústico do teatro...

“A importância da casa é criar no Rio de Janeiro, que é o berço dessa cultura, um centro de referência do choro. O nosso trabalho tem por objetivo a educação, a preservação e a divulgação dessa música, além de possibilitar o surgimento de novos palcos para as gerações que vêm se formando na Escola Portátil de Música, a EPM”, continua Luciana Rabello.

A Escola, que tem esse nome por levar o ensino do choro aos lugares mais variados, é a menina dos olhos do pessoal do Instituto, criado em 1999. Além da presidente Luciana e do vice, o violonista Maurício Carrilho, também o bandolinista Pedro Amorim, o flautista Álvaro Carrilho e o pandeirista Celsinho Silva foram os mentores desse instituto. A ideia é sistematizar o ensino de música popular brasileira por meio da linguagem do choro, um gênero que emergiu no subúrbio carioca em meados do século XIX, a partir da mistura da música de salão europeia com os ritmos africanos, que se popularizou anos depois sob grandes nomes como Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Pixinguinha e Radamés Gnatalli.

“O choro é a base da cultura musical carioca. É a primeira música urbana do Brasil, que deu estrutura a todos os gêneros que vieram depois, inclusive o samba carioca”, ensina Luciana Rabello. Criada em 2000, com cerca de cinquenta alunos que se reuniam na Sala Funarte, a Escola Portátil já passou pela UFRJ, pelo Casarão da Glória e, desde 2005, está acampada no campus da Uni-Rio, na Praia Vermelha. Ganhou o patrocínio da Petrobras e tem hoje matriculados cerca de mil alunos, que todo sábado, além das aulas teóricas e práticas dos mais variados instrumentos, se reúnem no pátio para uma grande roda de choro, seguida do já famoso Bandão, onde põem em prática tudo o que aprenderam. Das 12h30 às 13h30, o Bandão virou programa certo para as muitas famílias e turistas que se deliciam com os animados arranjos da turma.

JPEG - 92.9 kb
Aula da Escola Portátil de Música na Biblioteca Parque de Manguinhos (foto: divulgação)

As crias do choro
Turma, aliás, bem heterogênea. Vem gente de todo lado — do Centro, do subúrbio, da Zona Sul, do interior, de outros estados; gente de origens, formações e idades diferentes. Segundo Luciana, há nas aulas uma mistura deliberada de alunos iniciantes com outros que já têm mais intimidade com a música e os instrumentos. Essa integração propiciaria humildade e generosidade, pois os mais experientes dão atenção a quem está começando.

"Isso é próprio da cultura do choro, uma cultura gregária, de roda, de improviso, onde o que cada um que toca se relaciona com o que outro está tocando. No ambiente do choro, o acompanhante tem a mesma importância do solista”, explica Luciana.

Nessa caminhada de quinze anos da EPM, muitos grupos nasceram e se profissionalizaram. Como Os Matutos, originários de Cordeiro, na região serrana do Rio. Tudo começou em 2000, quando o flautista Tadeu Santinho resolveu descer a serra para estudar na recém-criada Escola Portátil. No ano seguinte, convenceu a garotada que tocava na banda local a fazer o mesmo. Oito garotos, então com idades entre 12 e 16 anos.

Todo sábado, eles saíam de lá numa van, às 5h30 da manhã, para chegar no Rio às 9h, ter aula o dia inteiro e voltar para Cordeiro no fim da tarde. Esse vaivém perdurou até 2008. A partir do momento em que foram terminando o ensino médio, mudaram-se para o Rio para trabalhar e seguir os estudos. Hoje estão todos na capital e se tornaram profissionais que tocam não só com o grupo, mas individualmente acompanhando os grandes nomes da MPB.

Os Matutos têm um álbum gravado, Meninos de Cordeiro, lançado em 2005, com repertório baseado em pesquisa, e outro a caminho, com composições próprias e também de Maurício Carrilho. “Nosso trabalho é na área do choro, tocando desde o repertório tradicional (Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Garoto etc.), os contemporâneos (Maurício Carrilho, Cristóvão Bastos, Pedro Paes) composições próprias dos integrantes do grupo e um repertório de pesquisa de bandas e fazendas do interior”, explica o trompetista Aquiles Moraes que, junto com o irmão Everson, integra ainda a banda de Ney Motogrosso.

Também cria da Escola Portátil de Música é um dos mais jovens conjuntos de choro do Rio, o Regional Carioca, com seis integrantes na faixa dos vinte aos trinta anos de idade. Ana Rabello, do cavaquinho, e Julião Pinheiro, do violão de sete cordas, ouvem choro desde a barriga da mãe, Luciana, casada com o letrista e compositor Paulo César Pinheiro.

Tiago Souza, do bandolim, também traz o choro na veia. É filho de Ronaldo do Bandolim, do Conjunto Época de Ouro e do Trio Madeira Brasil. Marcus Thadeu, do pandeiro, é da turma de Cordeiro; Rafael Malmith, do violão, veio do Rio Grande do Sul, junto com outros talentos que fazem carreira no Rio, como Luís Barcelos e Anderson Balbueno; e Glauber Seixas tirou os primeiros acordes do violão em Ourinhos, no oeste paulista, e como os demais, se aperfeiçoou na EPM.

JPEG - 90.9 kb
Bandão no pátio da Escola de Música Portátil (foto: Rosa Lima)

O Regional Carioca também já tem dois CDs gravados pela Acari Records, a primeira e única especializada em choro, mais uma iniciativa do pessoal do Instituto. Um é dedicado à música de Juventino Maciel, bandolinista do interior do estado que deixou uma grande obra inédita, e o outro, de repertório próprio e contemporâneo. “Seguimos a linha dos regionais antigos, como o Regional do Canhoto e o Conjunto Época de Ouro, com três violões (o único atualmente com essa formação), o que propicia uma levada rítmica bastante complexa, próxima da música de câmara”, explica Julião Pinheiro.

A barreira do mercado
Também com uma proposta sofisticada, o mais recente grupo formado na Escola Portátil de Música é a Camerata Brasilis. São nove integrantes, hoje na faixa dos trinta anos, oriundos de uma turma de alunos mais avançados, que estavam se profissionalizando e querendo tocar arranjos de choro mais orquestrados.

“Nossa proposta é trabalhar a música popular com uma roupagem erudita, no sentido de arranjos, sutilezas e dinâmicas, sem perder a espontaneidade da linguagem popular. Na verdade o choro é uma música popular muito rebuscada, com uma profundidade de linguagem e grande exigência técnica, que a tornam muito rica”, diz a flautista Maria Souto, que hoje é também professora da escola e coordenadora do projeto EPM nas Bibliotecas Parque, com aulas de música gratuitas nos bairros populares.

A Camerata Brasilils conseguiu gravar seu primeiro álbum, com composições próprias, a partir de recursos da lei Rouanet e apoio da Secretaria Estadual de Cultura. E está caminhando para o segundo trabalho nas mesmas condições, realidade que se repete com os demais grupos: todos dependem de editais e projetos culturais de instituições públicas e privadas porque o mercado não oferece nenhum espaço para esse tipo de música. Por isso é muito comum um integrante de um grupo tocar em pelo menos mais um ou dois e participar dos trabalhos mais variados.

E individualmente, para sobreviver, todos precisam jogar nas onze posições – tocando na noite, em festas, acompanhando outros artistas, fazendo composições e arranjos de encomenda, dando aula ou vendendo projetos pontuais. É o caso do projeto Choro no Parque, da Secretaria Municipal de Cultura, que apresenta shows do Quarteto do Choro (um subgrupo da Camerata Brasilis) com convidados, todo domingo, no Parque das Ruínas, em Santa Teresa.

“A vida de quem toca num grupo popular é muito diferente de um músico de orquestra, que é concursado, tem salário mensal. A gente se vira de tudo que é jeito”, compara Maria Souto. “Como grupo, o espaço para a gente se apresentar é bem mais difícil e acaba se restringindo a festivais e projetos culturais específicos”, complementa Aquiles, d’Os Matutos. “Hoje não existe mais isso de você ser de um conjunto e fazer uma carreira tocando só nele. Quisera eu poder viver só de tocar no Regional Carioca, mas é impossível”, opina Julião Pinheiro.

Segundo ele, mesmo o CD não tem mais função de mídia, pois ninguém ganha dinheiro com isso. “O disco serve para registrar o resultado artístico e divulgar um trabalho. Nas rádios, a gente não toca. Só nas educativas e culturais, de vez em quando. Nas TVs menos ainda, mesmo assim só em programas especiais”, descreve ele.

Com tudo isso, a abertura da Casa do Choro é vista por todos com grande alegria e expectativa. “O choro está muito vivo. Mesmo com toda dificuldade de espaço e apoio, a galera está aí, está vivendo disso e fazendo música de alta qualidade. A Casa do Choro vem coroar esse movimento pulsante e abrir novas perspectivas e uma grande frente de trabalho para os músicos, com um palco e um estúdio inteiramente dedicados a esse gênero, sem falar nas aulas e na possibilidade de pesquisa no imenso acervo de que ela dispõe, garantindo a formação de novas gerações”, aposta Maria Souto.

Quer chorar também? Veja alguns pontos do Rio onde se pode ouvir e tocar um bom choro

Algumas rodas itinerantes:

Choro na Baixada – O músico Franklin Gama, organizador do Festival de Choro do Sesc Nova Iguaçu, é um dos integrantes do Grupo dos Pavões, que reúne chorões da Baixada em rodas itinerantes pela cidade, sempre no terceiro domingo de cada mês. Também participam os grupos Engole o Choro e Chorando de Rir. A última aconteceu na Rua Dom Adriano Hipólito, em Moquetá.

EPM nas Bibliotecas Parque – Em parceria com a Secretaria Estadual de Cultura e com patrocínio da Light, professores formados pela Escola Portátil dão aulas gratuitas de música através da linguagem do choro nas comunidades. Os dois primeiros módulos aconteceram na Rocinha e em Manguinhos. O próximo será na Vila Kennedy.

  • Compartilhe:

Mais O choro resiste

Uma cultura que se renova nas rodas

Além dos grupos profissionais, rodas de choro ainda resistem na cidade e injetam sangue novo na tradição carioca

Ouça as vozes do Rio

Preencha o formulário abaixo para assinar o boletim do VozeRio

Mais sobre cultura

Visitante acusa namorado de funcionária de discriminação durante ida ao local na última sexta (30)

Biblioteca Parque amanhece fechada no Centro

De acordo com Governo do Estado, fechamento é excepcional e prefeitura deve manter espaço aberto em 2017

’Sem cultura é barbárie’

Artistas e gestores pedem que o Governo do Estado não acabe com a Secretaria Estadual de Cultura, e de quebra criticam o município por falta de transparência em Fomento às Artes

Novo endereço para criar e empreender

Espaço de ’coworking’ Gomeia surge como centro de articulação entre grupos atuantes em cultura na Baixada Fluminense

Mais sobre história

Livro aborda transformações da Baixada Fluminense durante a ditadura

Daqui do morro, eu não saio não

Até o fim do mês, moradores e historiadores relembram relação entre favela e ditadura em curso sobre o tema

Viagem por um Rio passado e imaginário

Mapa interativo criado por universidade americana mostra a história do Rio no tempo e no espaço

Negros, libertos e monarquistas

Existência da Guarda Negra, irmandade secreta de negros surgida após promulgação da Lei Áurea, é um episódio esquecido da história do Brasil

Mais sobre música

Gustavo Coelho é professor da Uerj e estuda pichação, bate-bolas e outros fenômenos cariocas sob o olhar da estética

"A estrutura do carnaval de rua precisa ser repensada"

Para Vagner Fernandes, fundador do bloco Timoneiros da Viola, a folia carioca precisa de novas regras e outras formas de financiamento

O circo vai ao metrô

Em resposta a casos de repressão violenta a músicos no metrô carioca, produtor cultural sugere ocupar os trens com atividades circenses

A saga de quem faz cultura nas ruas do Rio

Organizadores do Sarau do Escritório mostram como vencer o vilão da burocracia em 11 fases
Realização:
Iets
Patrocínio:
Universeg
Apoio:
Biblioteca Parque Estadual Biblioteca Parque Estadual
 
Licença Creative Commons
Desenvolvido em SPIP pela Calepino