10 Perguntas

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10 Perguntas 24 / 07 / 2015| Anabela Paiva

O crack e a cidade: por que é preciso quebrar o estigma

Cracolândias, "cracudos", viciados. Corpos degradados, cenários urbanos depredados. A imagem do crack no senso comum é cheia de estigmas alimentados pela mídia e por programas governamentais de higienização. Para entender melhor o cenário, a antropóloga Taniele Cristina Rui, do Núcleo de Etnografias Urbanas do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (NEU-CEBRAP), passou anos estudando as cenas do crack em Campinas e São Paulo. As pesquisas resultaram no livro Nas tramas do crack - etnografia da abjeção (Terceiro Nome, 2014), mas não terminaram: desde 2013, Taniele pesquisa o consumo do crack no Rio, sobretudo no Complexo da Maré. Na comparação entre Rio e São Paulo, a antropóloga se faz algumas perguntas: como essas cenas de crack colocam e são colocadas como problemas para as cidades? Como elas revelam dinâmicas urbanas? Como mobilizam conflitos? Como mobilizam o estado? Nesta entrevista, ela responde algumas dessas questões e defende a desconstrução do estigma para melhorar e ampliar a rede de atenção e cuidado ao usuário.

(Foto: Tânia Rego/Agência Brasil)

  1. Como foi a comparação entre o uso do crack no Rio e em São Paulo? O que chamou a sua atenção?
    Em São Paulo, ainda que relativamente móvel, foi constituída ao longo de vinte anos uma cena de uso do crack muito visível, numa área muito central e importante simbolicamente na cidade. No Rio, por outro lado, onde o crack é bem mais recente, as cenas de uso têm um caráter mais flutuante, variam de acordo com as ações de repressão policial e com as dinâmicas do tráfico. Alguns usuários cariocas já me relataram ter passado por 18 locais de uso — o que, para mim, indica como essas cenas só podem ser entendidas a partir de uma observação mais geral da importância dos conflitos territoriais no Rio de Janeiro. Por isso é que eu tenho me interessado pela cena da Maré. Lá, a acomodação dos usuários numa esquina já completa dois anos e foi uma negociação que envolveu o tráfico, os usuários e as associações de moradores. Foi um jeito de diminuírem a visibilidade da avenida Brasil, ao mesmo tempo que possibilitou melhores relações e também menores conflitos.
  2. Como foi essa negociação?
    A partir de entrevistas que fiz e também de pesquisa conduzida pela [ONG] Redes da Maré, o que ouvi é que, em 2012, 2013, havia uma grande concentração do consumo na avenida Brasil. Muita gente à deriva, grande visibilidade para a área, as forças policiais atuavam de forma repressiva, a assistência social realizou internações compulsórias, pessoas morreram atropeladas durante perseguição policial e de agentes de assistência. Levar a cena para dentro da comunidade foi, principalmente, uma forma de diminuir essa visibilidade. Na pesquisa conduzida pela Redes, foi realizada uma contagem das barracas e dos usuários, que não ultrapassam o número de 80. Além disso, o local onde eles se estabeleceram é uma área de fronteira, um “dentro” que não é propriamente dentro: não é área de residência, mas uma esquina numa região onde existem muitos galpões, alguns deles vazios. A própria associação de moradores conta que a escolha do lugar foi um acordo para tentar diminuir conflitos e para que de alguma maneira todos ficassem bem, sem que a Maré fosse prejudicada. A entrada do Exército contribuiu ainda mais para que eles se estabelecessem no local, na medida em que diminuíram os confrontos entre as facções no território.
  3. Em Campinas, você estudou uma cena de crack numa linha férrea. Aqui no Rio também temos uma concentração de usuários ao longo dos trens, no Jacarezinho. Qual é a relação entre o local e o estabelecimento de uma cena de crack?
    Venho formulando em meus textos que os espaços de uso são ambíguos como os próprios sujeitos: lugares de proteção e perigo, de degredo e de autodegredo. Ou seja, são locais para onde os usuários foram jogados, mas que, com o tempo, vão se tornando de proteção, onde os usuários acreditam que não serão violados. Uma cena de uso de crack implica, nesse sentido, uma negociação com os outros habitantes da cidade. No caso de Campinas, que eu estudei mais detidamente, ficar na linha de trem era um acordo com o tráfico, na medida em que os usuários não ficavam próximos aos moradores da vizinhança, às crianças. Mas, para mim, o mais interessante tem sido observar como, a partir da criação destas cenas, são mobilizadas relações com o Estado e outras instituições sociais, como os religiosos católicos e evangélicos. Próximo à Maré, por exemplo, depois que se instalou o grupo de usuários nessa esquina, foi aberto um CAPS [Centro de Atenção Psicossocial] e formada uma equipe do programa Proximidade, da Assistência Social. A questão é que os usuários estão sempre se movimentando, mas nem sempre os serviços conseguem se movimentar com tamanha facilidade.
  4. O tráfico quer isolar os usuários?
    O que aprendi das minhas pesquisas é que, em muitas vezes, a gestão do tráfico sobre os usuários de crack é uma gestão sobre a sua circulação. Ou seja, não se trata de isolá-los, mas de escalonar a circulação, indicando a mais desejável e a menos indesejável. Além disso, o que tenho observado, tanto no Rio quanto em São Paulo (ainda que com diferenças muito relevantes que não dá para aprofundar nesta entrevista), é um paradoxo: por um lado, o tráfico valora negativamente o consumo de crack, mas, por outro, a venda da droga movimenta muito dinheiro. Então é sempre uma situação tensa entre essas duas avaliações.
  5. O programa Braços Abertos, da Prefeitura de São Paulo, pode ser um modelo para outros lugares, como o Rio?
    Ao menos no discurso, a proposta do Braços Abertos não está baseada na abstinência, e sim na redução danos, bem como na oferta de trabalho e moradia. Por isso, pode ser usada em todo o país. Mas a maneira como a implementação dessa proposta será realizada precisa observar as especificidades locais. Em São Paulo, os hotéis usados para abrigar os usuários ficam na própria cena de consumo; aqui no Rio, por contraste, as cenas não tem essa característica; enfim, teria de ser bem estudado como replicar o modelo.
  6. Mas o programa cumpre de fato o que pretende? Quais as críticas que se pode fazer a ele?
    A crítica ao programa Braços Abertos pode ser feita em duas dimensões: uma, estrutural, se refere à dificuldade de tratar as pessoas em meio a guerra às drogas. Afinal, no contexto atual, essa guerra se desdobra numa divisão arbitrária entre usuários e traficantes, destinando cuidados aos primeiros e repressão aos segundos. A segunda crítica, de ordem prática, refere-se ao modo como o programa se apresentou como “solução” para a ocupação do espaço do entorno da Luz. Obviamente, o programa sozinho não resolverá essa ocupação, vista como indesejável para muitos habitantes da cidade. É preciso, portanto, ver o programa ao mesmo tempo em todo o seu potencial, mas também em seus limites.
  7. O que quer dizer quando diz que faz uma “Etnografia da Abjeção”?
    Para mim, é descrever com muita densidade a abjeção. E isso implica não só observar como a relação entre usuários e crack se corporifica, mas sobretudo a avaliação externa sobre esse corpo. Nesse sentido, não escapa da minha análise o modo como as matérias midiáticas reforçam o estigma dos usuários ou como determinados serviços de assistência e saúde insistem na higienização desses sujeitos. Menos ainda me escapa o aparato repressivo, que usa da abjeção para legitimar a violência perpetrada, além dos interesses imobiliários que nada mais almejam do que a eliminação desses sujeitos do espaço urbano.
  8. Como os usuários de crack se veem? Existe um perfil do usuário?
    Eu estudo o menor perfil de usuários de crack: aqueles que consomem a droga em espaços públicos de uma maneira intensiva. Esses sujeitos têm muita consciência sobre a sua condição corporal. Para exemplificar esta reflexividade, eu conheci muitos usuários que limpavam a mão com lixa para não deixar o dedo marcado, que buscavam ter um local certo de tomar banho, que tentavam comer mais quando percebiam que estavam muito magros. Ou seja, eles percebem que seus corpos estão definhando e tentam recompô-lo. Mais que isso, eles percebem o quanto as pessoas da cidade não os querem por perto.
  9. Mas quais outros perfis existem? De quais maneiras se consome crack?
    Há pessoas que consomem crack nas ruas e não desenvolvem usos problemáticos; há pessoas que não consomem crack nas ruas, mas em suas casas; há pessoas que estão na região da cracolândia para ficar entre os amigos e conhecidos, há aqueles que experimentam algumas vezes e não voltam a usar etc.
  10. Aprendemos a lidar melhor com o crack nos últimos anos?
    Sim e não. Um dos grandes avanços, a meu ver, é que a mobilização em torno do crack possibilitou o debate e a estruturação de uma rede de saúde para o usuário de drogas no país. Desde que se começou a falar em epidemia do crack, começou também a se fortalecer uma rede de atenção e cuidado, com consultórios de rua, programas de redução de danos, centros de atenção psicossocial especializados em álcool e outras drogas, ampliando uma frente antiproibicionista no país. Ocorre, entretanto, que nesse mesmo período, com o plano ’Crack, é possível vencer’, o governo começou também um processo de erosão da memória da reforma psiquiátrica no país, ofertando montante grande de dinheiro às chamadas comunidades terapêuticas. Minha expectativa é de que desses conflitos resultem ampliações de direitos.
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Convidado

Taniele Cristina Rui

Antropóloga e pós-doutoranda do Núcleo de Etnografias Urbanas do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (NEU-CEBRAP).

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