Pensatas & paixões

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Paixões 28 / 01 / 2016|

Ocupando a rua, com a bênção de Donga e João da Baiana

"É muito gratificante perceber que o carnaval do Escravos da Mauá pode ter contribuído, à sua maneira sonora e visual, com samba, batuque e fantasia para um processo de fortalecimento da identidade portuária pelo qual a região vem passando. A energia gerada por esses encontros tem se mostrado capaz de produzir cada vez mais ações de debate e transformação pela arte."

[Foto: Riotur]

Um dos principais articuladores da revitalização cultural da Lapa e fundador do bloco do Barbas, o produtor musical e pensador da cidade Luiz Francisco de Almeida — o Lefê — costumava afirmar que os blocos da “retomada” do Carnaval ajudaram os moradores do Rio a recuperar uma maior identidade com os bairros. Ela havia sido esquecida pelos cariocas desde o carnaval dos ranchos, que em sua época áurea tinham nomes como Boêmios do Irajá, Inocentes do Catumbi e Arrepiados de Laranjeiras.

Afinal, o que realmente estreita os laços entre um bloco de carnaval — festa pela qual a nossa cidade é, há muitos anos, mundialmente conhecida — e a participação espontânea do cidadão no território?

A minha experiência é com o bloco Escravos da Mauá, que desde sua criação se estruturou a partir dessa conexão afetiva com o espaço público urbano e envolveu os frequentadores e simpatizantes que aportavam periodicamente nos seus eventos no largo de São Francisco da Prainha — outrora conhecido reduto de marinheiros à deriva, prostitutas e miseráveis moradores de rua.

Essa charmosa praça no coração da região portuária, o local onde o bloco nasceu e onde até hoje realiza seus ensaios, significa mais do que apenas um cenário, ingrediente poético ou inspirador de expressões artísticas. A história desse coletivo festivo-musical, que completa este ano 24 cortejos carnavalescos pelas ruas do bairro da Saúde, se confunde com a trajetória da requalificação urbana e cultural pela qual a área do polêmico Porto Maravilha vem passando nos últimos 25 anos.

O processo de enraizamento no local se deu em paralelo ao processo de renascimento do Carnaval de rua na cidade, cuja potência e tamanho se ampliaram à medida que os pequenos grupos nos bairros se tornaram atrações de grande porte, arrastando públicos cada vez maiores. Ao longo dos anos 1990, essa retomada permitiu a recuperação de vários elementos tradicionais da cultura carioca que haviam sido sufocados pela pressão social e desvalorizados pela globalização. O fato é que a repercussão das primeiras ocupações de ruas por cortejos carnavalescos informais encorajou um movimento que cresceu rapidamente, e de forma exponencial.

No caso do Escravos da Mauá, a ideia de fundar o bloco teve a mesma origem de tantos outros coletivos: partiu de afinidades e amizade entre pessoas e grupos, na maioria funcionários públicos que circulavam na região durante o dia (segundo eles, também “escravos”, dentro de um sistema que não valorizava em nada esse tipo de atividade). Naquela região estigmatizada, os fundadores viram um grande potencial cultural, em parte inspirado por seu patrimônio urbanístico, em parte por sua história, que vinha aos poucos sendo divulgada em pesquisas e projetos de gestão municipal. O lugar escolhido para ser o local de encontro dos organizadores, aos pés do Morro da Conceição, foi naturalmente ganhando uma nova vocação. O foco passou a ser a experimentação das ricas tradições culturais cariocas através da preservação do patrimônio tanto material (arquitetônico) quanto imaterial (a música popular).

Em pouco tempo, os eventos promovidos pelo bloco já mobilizavam grande quantidade de curiosos, interessados e aficionados à região antes pouco conhecida do público. O grupo viu a oportunidade de conquistar mais adesões com a promoção de encontros fora do período carnavalesco. Assim, surgiram as rodas de samba mensais do bloco, que se realizam até hoje e exploram pérolas esquecidas da música popular, naquela época ainda pouco conhecidas pelo público mais jovem. O repertório é escolhido com a intenção de envolver os presentes na atmosfera musical e poética do samba de raiz, além de prestigiar os sambas mais populares dos blocos tradicionais do carnaval de rua carioca, como Cacique de Ramos, Bafo da Onça e Bola Preta.

Apesar da infraestrutura precária, as rodas de samba passaram a receber cada vez mais frequentadores e a fazer parte de um “mapa afetivo” de pontos de encontro pela cidade. A ideia é adequar da melhor forma possível o fato de se estar num espaço público com a demanda de receber e envolver milhares de pessoas em uma noite pacífica por mês. A relativa falta de iluminação, de segurança e de ordenamento do trânsito, além dos poucos banheiros químicos, tem sido de certa forma compensada pelo clima de festa musical e de respeito às tradições que imperou então e que ainda é o elemento responsável por encantar os cariocas (e agora muitos turistas estrangeiros).

A informalidade, ainda vigente por ser um evento livre e aberto, não impediu que os comerciantes da área se beneficiassem da chegada de novos consumidores. Nos dias de roda de samba, alguns chegam a ter o mesmo resultado de um mês inteiro de vendas.

Contudo, além dos encontros periódicos abertos, na praça, os foliões do Escravos da Mauá também têm, no desfile do bloco todo domingo antes do Carnaval, outro importante momento de compartilhar e celebrar a memória e as referências culturais locais. As principais são aquelas ligadas aos trabalhadores do Porto – representados pela figura do Almirante Negro, símbolo dos estivadores de todas as origens e regiões — e as ligadas à Pequena África, berço da cultura negra e do samba que se espalhou e se enraizou na cidade.

Por meio de oficinas pré-carnavalescas de construção de desfile (oficinas de dança, pernas-de pau, criação de figurinos e adereços, estandartes, customização de camisetas, grafite etc.), a folia foi abrindo espaço ao longo dos anos para a presença dos coletivos mais diversos. Alguns exemplos são os tradicionais blocos da Liga Portuária, o Afoxé Filhos de Gandhi, a Cia Brasileira de Mysterios e Novidades, Spectaculu – Escola Fabrica de Espetáculos, Kabula Capoeira Angola, Favelarte, Armazém Cultural das Artes e o Projeto Mauá do Morro da Conceição — só para citar alguns que há muito vêm trabalhando pela arte pública e cultura na região.

É muito gratificante perceber que o carnaval do Escravos da Mauá pode ter contribuído, à sua maneira sonora e visual, com samba, batuque e fantasia para um processo de fortalecimento da identidade portuária pelo qual a região vem passando. A energia gerada por esses encontros tem se mostrado capaz de produzir cada vez mais ações de debate e transformação pela arte — como é o caso da Casa Porto, Viajantes do Território, Instituto Pretos Novos, Terreiro de Breque e Som das Artes, além de muitas outras que se destacam hoje.

Quando a área portuária do Rio começou a receber as primeiras reformas do projeto Porto Maravilha, essa rede de fortalecimento do patrimônio imaterial, então já formada, mostrou-se fundamental, contando inclusive com apoio de instituições como o Instituto Nacional de Tecnologia e o Polo da Região Portuária, além de mobilizar os parceiros para a participação política e apropriação dos espaços urbanos. O processo deu mais qualidade à revitalização urbana, consolidando, de certa forma, a vocação de luta e diversidade ali desenvolvida ao longo da história da cidade.

E o que é mais importante: sem esquecer que Carnaval é cultura!


Serviço

O Escravos da Mauá se concentra neste domingo (31/01), às 10h, no Largo de São Francisco da Prainha. O cortejo sairá ao meio-dia em cortejo pela rua Sacadura Cabral até o Cais do Valongo, onde o bloco faz a tradicional homenagem aos personagens da região portuária.

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Convidado

Teresa Guilhon

Gerente de projetos na área de cultura, tecnologia e educação d’O Instituto, é uma das fundadoras do bloco Escravos da Mauá.

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