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Ecos de 2013 20 / 03 / 2016| André Costa

Onde está junho? Manifestantes de 2013 olham para as ruas hoje

Quando milhares de manifestantes ocuparam as ruas no último domingo (13/3) pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff, não faltaram notícias e âncoras de jornais declarando que aquele era o "maior ato político da história do Brasil". Quase três anos atrás, em 20 de junho de 2013, as manchetes eram parecidas, no ápice do que ficou conhecido como "jornadas de junho".

Embora as dimensões talvez sejam semelhantes, contudo, muita coisa mudou de 2013 para 2016: o perfil dos manifestantes, as pautas reivindicadas e o contexto nacional, com o Brasil deixando uma era de otimismo e mergulhando numa crise econômica e político-institucional gravíssima. Hoje, parte da geração de 2013 se confessa descrente de mudanças na política, enquanto alguns de seus companheiros apoiam as mobilizações pro impeachment de 2016.

Para alguns manifestantes do passado, quase nada restou daquele momento histórico. É o caso do humorista Rafael Puetter, vulgo Rafucko. Ao longo de 2013, ele produziu 32 vídeos exclusivamente com temas políticos, alcançando cerca de 1 milhão de espectadores. Quem o escuta falar hoje, percebe que suas esperanças não são mais as mesmas.

“Eu pensava que, se muita gente se mobilizasse, as coisas iriam mudar. Hoje não acredito mais nisso”, diz. “Quem detém o poder não tem vontade, há uma máquina em funcionamento que não permite as mudanças necessárias. Não vejo mais perspectiva de transformação”.

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“Eu pensava que, se muita gente se mobilizasse, as coisas iriam mudar. Hoje não acredito mais nisso”, diz Rafucko.

A desilusão do artista, um dos nomes mais conhecidos dentre os que tomaram as ruas em junho, revela os impasses daquela geração hoje. Muitos participantes daquele movimento assistem atônitos à maior crise política do Brasil em décadas, sem esperanças de novas transformações. “A experiência [de 2013] foi importante para que eu perdesse a crença na política institucional e também não fosse mais ingênua em relação ao poder real”, avalia a produtora de audiovisual Janaína Alves, 28 anos, que a partir de junho formou um grupo de mídia independente com amigos.

Outros, no entanto, parecem mais otimistas — como o estudante de Relações Internacionais Ciro Oiticica, 27 anos, participante ativo das manifestações de junho e dos meses seguintes. "Apesar de tudo, 2013 ainda lateja. As próprias manifestações mais recentes contra a corrupção de certa forma são uma continuidade [dos protestos daquele ano]. Elas conservam um potencial subversivo subestimado pela esquerda de maneira geral. O ânimo gerado por 2013 serve a todos os matizes ideológicos”, afirma.

A visão de continuidade de Oiticica é compartilhada pelo também estudante Isaac Galvão, 18 anos, aluno do colégio Pedro II do Humaitá. “Ainda tem eco de 2013 hoje”, avalia ele. “Mas hoje temos uma polarização mais reforçada, disputas de poder dentro dos governos. A gente [manifestantes de 2013] fica numa espécie de limbo: não dialogamos com o impeachment, mas não fazemos uma defesa cega do governo.”

A ativista Bia Lopes, da direção da União da Juventude Socialista (UJS), que marcou presença nas ruas em 2013, concorda que a polarização é uma das características mais marcantes do momento atual. "Hoje, o que há é uma disputa, e não as manifestações plurais como 2013. Durante as passeatas daquela época, eu olhava para um lado e via alguém com um cartaz defendendo o material escolar contra a homofobia; e, do outro, uma pessoa gritando contra a PEC37", lembra ela.

“Apesar de ainda ser proibido se manifestar de máscara pela lei do Cabral, hoje não tenho mais problemas com a polícia”, Eron Melo, que frequentou manifestações de 2013 e de 2015 no Rio

"Hoje desisti"
Oiticica, Galvão e outros entrevistados apontam uma diferença entre os dois momentos: o tratamento dado às ruas pelas instituições, sobretudo pela polícia. “As manifestações de 2015 até hoje tiveram um direcionamento por parte do status quo: a cobertura da mídia, a ajuda dos governantes liberando o metrô, a boa vontade da polícia”, diz Oiticica.

Assim como a maioria dos entrevistados pela reportagem, os dois estudantes foram detidos em 2013, em processos depois anulados. Oiticica afirma que foi preso quando estava sentado nas escadarias da Câmara Municipal, em outubro, e passou dois dias detido em São Gonçalo. Já Galvão foi vítima de um flagrante forjado em que PMs puseram três morteiros em sua mochila. O episódio foi filmado e veiculado na mídia e os policiais foram processados (condenados em primeira instância, foram inocentados na segunda; o estudante vai recorrer na terceira).

A ofensiva se estendeu a Rafucko, preso por dançar diante de uma viatura e que também foi vítima de acusações falsas, novamente esclarecidas graças a um vídeo. Para Janaína, essas situações foram uma das razões da atual desilusão. “Se em 2013 a gente tinha esperança de mudar algo por nós mesmos, depois de tantas prisões, perseguições e processos criminais, hoje desisti. Tenho agora certeza de que o Brasil é um país com raízes autoritárias muito profundas", comenta.

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Preso em 2013 por se manifestar fantasiado, Eron Melo hoje vota não tem mais problemas com a polícia [Foto: Eron Melo].

Mesmo manifestantes das jornadas de junho que atualmente frequentam as passeatas pró-impeachment observam que o tratamento dado pela polícia mudou. É o caso do protético dentário Eron Melo, que em 2013 notabilizou-se por ir a manifestações vestido como Batman. O uso da fantasia o levou a uma detenção, há dois anos, por violar a lei que proíbe o uso de máscaras em manifestações. Melo continua a ir atos de homem-morcego, mas agora, a favor do impeachment, não é mais incomodado. “Apesar de ainda ser proibido se manifestar de máscara pela lei do Cabral, hoje não tenho mais problemas com a polícia”, diz ele.

O cineasta João Gabriel Paixão, que foi a um único protesto em 2013, justamente no dia 20 de junho, na Presidente Vargas, também não escapou de ser preso. “Após a multidão quebrar as coisas na rua, ela retrocedeu e se dispersou. Fiquei sozinho e primeiro fui para a Praça Mauá, mas então resolvi seguir para a Alerj. No caminho, cruzei com a tropa de choque, e então um policial me pegou por trás, me pôs no chão e me algemou. Fiquei três horas preso”, conta.

Paixão e Melo hoje se dizem eleitores de Jair Bolsonaro, posições que não sustentavam em 2013. O primeiro, que desde então passou por uma conversão religiosa e aproximou-se de grupos de tendências monarquistas, afirma que gosta do deputado federal porque “ele é honesto. Passa confiança”. Já para Melo, Bolsonaro se qualifica por ser “um deputado que não tem escândalos, com muitos créditos”.

Segundo Melo, indivíduos como ele já estavam presentes em 2013 e encontraram válvula de escape nos movimentos atuais. “Em 2013, houve uma mistura de grupos, principalmente de esquerda, e também anarquistas. Mas havia também cidadãos comuns, como eu — foram eles a maioria no dia 20 de junho, até haver a polêmica envolvendo vandalismo, quando então se retiraram. Hoje a população comum está de volta, sem aceitar os escândalos do governo federal”, afirma.

A preferência de muitos manifestantes atuais por um candidato com posições de extrema-direita é o que mais preocupa a maioria dos que tomaram as ruas outrora, mesmo dentre aqueles que então agiam de forma radical.

O advogado M., 29 anos, em vários protestos foi adepto da tática black bloc, lançando pedras contra policiais e depredando agências bancárias. Para ele, foi a repressão que o levou ao radicalismo: antes de atuar como black bloc, o advogado já fora preso e sofrera abusos uma vez, ao tentar bloquear uma via . “Eu e mais dez pessoas nos sentamos no asfalto. Menos de 10 minutos depois, policiais começaram a tacar bombas e nos arrastaram. Dentro da viatura, um policial jogou gás de pimenta na minha cara, quando eu nada fazia. Foi então que decidi reagir”.

M., que voltou às ruas nesta sexta (18/3) no ato contra o impeachment, afirma possuir interesses em comum com os protestos atuais, mas que se descola cada vez mais deles. “Eu achava a Lava-jato muito importante, por desmantelar sistemas arraigados na democracia brasileira há muito tempo. Apesar disso, subitamente o procedimento começou a promover um espetáculo para criminalizar um grupo específico e gerar clamor público de ódio, usando meios ilegais. Isso pra mim é aterrorizante. Lutávamos por mais democracia, acreditávamos que nosso sistema democrático era uma farsa. Hoje vejo usarem o mesmo discurso, mas propõem botar algo pior no lugar”.

A apropriação de palavras de ordem de junho por movimentos atuais também é percebida por Rafucko, que afirma que se limitam a isso as semelhanças entre os dois momentos. “Há agora um movimento chamado Ocupa Brasília, formado por pessoas que sempre foram contra ocupações”, diz. “O mais assustador é a proximidade com a polícia. As pessoas sempre tentaram ocupar a Avenida Paulista e foram retiradas sob porrada. Ontem à noite 20 pessoas puderam fazer isso, enquanto a Globo reforçava que o protesto era pacífico”.

Rafucko se diz assustado por tudo isso, mas garante que, apesar de tudo, não pretende ir a protestos que defendam o governo federal. “Não quero mais apanhar, não botaria meu corpo à prova para defender o PT. Hoje só me arriscaria para defender minha felicidade. Acredito apenas em revolução pessoal”.

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