Debates

  • Compartilhe:
OsteRio 1 / 02 / 2015| Julia Meneses

Os carros e a cidade são incompatíveis?

Sonho de consumo de muitos brasileiros, mas também responsável pela piora das condições de trânsito nas cidades registrada nos últimos anos, o uso do automóvel foi tema de um animado debate no OsteRio, em 27 de outubro de 2014. O encontro, intitulado "Reduzindo a marcha: Repensando a mobilidade urbana e o uso do carro", teve participação de Clarisse Linke, diretora executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP Brasil); Pedro Rivera, diretor do Studio-X Rio e sócio do escritório Rua Lab; e do irreverente publicitário Glaucio Binder, da Agência Binder. Entre eles, um consenso: para melhorar a qualidade de vida nos centros urbanos, as várias instâncias governamentais precisam atuar firmemente para reduzir o uso de automóveis particulares.

Para isso, será preciso repensar os deslocamentos nas metrópoles, disse Clarice Linke. "Nosso modelo de mobilidade está muito calcado muito calcado no carro. Há muitas décadas o sonho de deslocamento é o carro. Os arquitetos e urbanistas pensam prioritariamente, nele", apontou a diretora do ITDP Brasil. Ela citou números impressionantes: 800 milhões de veículos rodam em todo mundo - e este número irá quadruplicar em 35 anos. No Brasil, a frota tem 42 milhões e dobrou nos últimos dez anos. "Um em cada cinco brasileiros tem carro. São 2,5 milhões só na cidade do Rio. E a expectativa é que dentro de pouco tempo teremos um para cada dois habitantes".

Apesar da taxa de motorização ser ainda relativamente baixa no país, comparada à de países desenvolvidos, ela tende a aumentar em razão da manutenção de incentivos fiscais; o aumento do poder aquisitivo da população e por fatores culturais. Pedro Rivera criticou o intenso estímulo ao consumo, que gera impacto sobre a cidade e o meio ambiente: "Esse nosso modelo de classe média é ultrapassado e insustável".

Um em cada cinco brasileiros tem carro. São 2,5 milhões só na cidade do Rio. E a expectativa é que dentro de pouco tempo teremos um para cada dois habitantes

O uso intenso do carro mudou a própria sociabilidade nas cidades. Deslocar-se dentro de um veículo não gera a experiência de viver a cidade, explicou Pedro Rivera. Para o arquiteto, "a mobilidade não deve ser vista apenas como uma equação distância/tempo, mas como uma experiência vivida cotidianamente", ressaltou. Através da mobilidade é possível viver a cidade, seus espaços e relações. "A cidade se tornou um mar de carros. E a cidade que foi pensada há três mil anos como espaço de troca, interação e experiência; foi, na verdade reinventada para receber o carro. Ela deixa de ser um espaço que gera intimidade para um lugar que dá mais oportunidades a alienação em relação ao outro", concordou Clarice.

Os impactos

Além do isolamento do homem, existem outros efeitos negativos do uso do carro: as chamadas externalidades. A diretora do ITDP, por exemplo, destacou quatro principais. A primeira é o impacto ambiental: "o Brasil já é o 6º maior emissor de gases poluentes. E a expectativa é que nossa emissão aumente em 60% dentro dos próximos 15 anos". Se ela investir na eficiência enérgica, estratégia global lidar com as mudanças climáticas, não resolve em si o problema da mobilidade nas cidades,"teremos ecocongestionamentos com carros elétricos, por exemplo,". Outro impacto é na produtividade econômica. Um recente estudo da Firjan apontou que a região metropolitana do Rio de Janeiro perdeu 29 milhões de reais em função dos congestionamentos.

A saúde pública também sofre o impacto dos poluentes: "segundo um pesquisador da PUC, a emissão desses gases causa a morte de 12 pessoas por dia, sem contar com os acidentes de transito", disse Clarisse Linke. Um estudo do IPEA avaliou que os acidentes custam 40 bilhões de reais ao governo. "Com esse valor podíamos construir mais de 2.500 hospitais atendendo cada um quarenta mil pessoas", continua a especialista.

Por fim, há também o impacto no espaço público e a disputa por ele. "Uma pessoa dirigindo um carro ocupa espaço 75 vezes maior do que um pedestre que fazer o mesmo deslocamento de 1 km". O carro gera um problema não só para o espaço que ele ocupa no estacionamento, mas também para a circulação, apontou Clarisse.

Para enfrentar tantos problemas, o arquiteto Pedro Rivera acredita que será preciso enfrentar a opinião pública e ir na contramão dos costumes. "Não existem meias soluções. Transformações de verdade precisam peitar, precisam de posições mais radicais. E de certa forma é isso que está acontecendo em São Paulo", disse Rivera. Em visita recente à cidade, descobriu que, segundo pesquisas do Ibope e do Datafolha, 88% dos paulistanos aprovam as ciclovias e 90% as faixas exclusivas para ônibus recentemente implantadas na capital paulista. A respeito de opiniões contrárias que se levantam a cada tentativa de privilegiar o transporte coletivo e por bicicleta, ele garante que "existe, sim, um grande apoio das pessoas pela transformação do jeito que modo nos movemos pela cidade".

É essa convicção que o fez dizer que a derrubada da Perimetral, no Centro do Rio de Janeiro, deveria ter transformado a mobilidade da área: "Não deveria ter túnel; deveríamos ter pensado outras formas de mobilidade no espaço urbano". Clarisse Linke também criticou a quantidade de vagas nos novos prédios comerciais da Zona Portuária: "se o Porto é um novo parâmetro cidade, porque ainda incentivar o uso do carro?".

Incompatibilidade

"Carros e cidades são incompatíveis". A frase dita pelo embaixador Marcilio Marques Moreira foi a origem do debate de segunda do Osterio, contou o diretor executivo do IETS, Manuel Thedim. Convidado a comentar, o ex-ministro da Fazenda explicou que a frase "foi o título de uma reunião em Davos do Fórum Mundial, para a qual foram convidados os prefeitos das principais cidades do mundo e os presidentes das companhias de automóveis. Justamente para entender se são ou não incompatíveis a existência das cidades e o uso dos carros".

Além de Marcílio, também estava presente o Subsecretário de Urbanismo Regional e Metropolitano, Vicente Loureiro. "A crise de mobilidade está presente em todas as cidades do mundo. Existem cidades com sistemas de transporte coletivos muito bons e subutilizados, porque a presença do automóvel na vida das pessoas é muito forte. De fato ele oferece vantagens ao rigor e limitações do sistema de transporte disponíveis", comentou Loureiro. O diretor da Câmara Metropolitana de Integração Governamental mencionou que os sistemas de massa, como trens e metro foram construídos com uma lógica fordista, que se choca com a nossa realidade atual: "Antigamente, as pessoas viviam e trabalhavam em locais definidos e faziam um percurso fixo, com horários marcados. Isso mudou. Com as necessidades da vida contemporânea, fazemos muita coisa ao mesmo tempo e em locais distintos. Pesquisas recentes apontam que a maioria das pessoas que vai num modal, volta em outro", contextualizou Loureiro.

Criando vilões

Mas o que um publicitário pensa de toda essa discussão? Responsável pela conta da General Motors, Glaucio Binder, diretor da agencia Binder, Apesar de reconhecer o acerto de muitos dos argumentos pela redução do uso dos carros, Glaucio alertou contra "um certo exagero" nas posições. De tempos em tempos, ele observou, alguns segmentos da indústria se tornam vilões e sofrem cerceamento legais e sociais. "Já trabalhei para um laboratório farmacêutico, depois atendi por 13 anos uma conta de cigarro e por sete anos a de uma cerveja. Hoje, atendo contas de carros e empreendimentos imobiliários, e cheguei à conclusão que o problema sou eu", brincou Binder.

A crise de mobilidade está presente em todas as cidades do mundo. Existem cidades com sistemas de transporte coletivos muito bons e subutilizados, porque a presença do automóvel na vida das pessoas é muito forte

Segundo Binder, também presidente da Federação Nacional Das Agências De Propagand, a Fenapro, 560 projetos de controle da publicidade estão em avaliação no Legislativo. Segundo ele, o ataque à publicidade é injustificado: "Nossa missão é entregar alterativas ao consumidor e não propriamente estimular o consumidor a escolher essa ou aquela categoria", defendeu Binder. O publicitário lembrou que cada ação contrária a um setor industrial envolve também pessoas: "Por trás de cada projeto, cada segmento, existem as famílias que vivem daquilo. Por isso, acho que a coisa precisa ser um pouco melhor pensada".

Segundo Glaucio, privilégio não é ter carro: é não depender dele.

Caminhos a seguir

Segundo Rivera não existe uma solução única para as cidades, já que são diversas, complexas, com hábitos e culturas diferentes. Mas ele defende que é preciso aprender com a experiência de outras metrópoles. O sócio do Rua Lab elencou algumas propostas e demandas necessárias para a mobilidade urbana, como eliminar os estacionamentos nas vias públicas; estipular um número máximo de vagas; estímulo à conversão do de garagens em espaços de trabalho, lazer e moradia; o fim da isenção do IPI e diminuição da velocidade nas vias urbanas.

Ele ainda citou quando espaço poderia ser aproveitado com o uso das garagens para outros fins. "Eu não consigo passar pela cidade e não ficar olhando esses espaços. Eu fico imaginando que aquilo podia ser uma loja, uma pequena confecção. E são espaços mortos. Temos déficit de espaço atualmente, devíamos aproveitar".

Clarisse Linke defende "criar uma infraestrutura mais atrativa para o ciclista e o pedestre, fazendo com que dirigir o carro não seja a opção mais viável". Aumentar os custos é fundamental, com a cobrança pela circulação e estacionamento. Ela citou estratégias usadas em algumas cidades, como o pedágio urbano em Londres, que diminuiu a entrada de 60 mil veículos no centro, uma redução de 20%. Estocolmo e Cingapura possuem o mesmo esquema. Outra solução é o rodízio de placas presentes na Cidade do México, Santiago e Bogotá, exemplos mais próximos da realidade brasileira. Mas o rodízio tende a se diluir com o aumento da frota ao longo dos anos. "É uma questão que está sendo discutida em São Paulo. O Plano diretor da cidade já traz atenção para a mobilidade e sobre o papel do carro na cidade. Inclusive no respeito ao estacionamento: ele define um número máximo de vagas para áreas de proximidade de ônibus, metro e trem".

Um exemplo interessante é o da Cidade do México. Lá um programa de politica de estacionamento, reverte o valor arrecadado com as taxas em investimentos, juntamente com as organizações de moradores. "Um subsídio cruzado, capaz de planejar e transformar a cidade em mais detalhes", avaliou a diretora.

Além da revisão da politica de estacionamentos e das vagas em empreendimentos, Clarrise citou a importância da mobilidade compartilhada, em carros e taxis; e a diminuição da velocidade. Em Nova York, a velocidade foi reduzida para 40 km em toda a cidade. A iniciativa faz parte de um programa chamado Visão Zero, que pretende levar o número de fatalidades a zero.

Em resumo, repensar o espaço urbano, fazer as pessoas caminharem mais e usarem a bicicleta; e deixar de priorizar o carro são tarefas essenciais para uma mobilidade mais sustentável. "Sair da posição de que o carro é a única solução. Não precisar do carro para ser feliz", concluiu Linke, que não tem automóvel.

  • Compartilhe:

Convidados

Clarisse Linke

Diretora executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento, o ITDP Brasil

Pedro Rivera

Diretor do Studio-X Rio e um dos sócios do escritório Rua Lab

Glaucio Binder

Sócio e diretor-geral da Agência Binder.

Mais OsteRio

"Precisamos mudar o CEP do emprego"

Como diminuir as desigualdades gritantes na Região Metropolitana do Rio? No OsteRio desta terça-feira (29/3), um caminho ficou claro: mais centros e oportunidades, menos distâncias e deslocamentos

OsteRio discute as fronteiras da desigualdade no Rio metropolitano

No evento, serão apresentadas as atualizações do Mapa da Desigualdade, produzido pela Casa Fluminense, que mostra as disparidades da região a partir de 21 indicadores sobre 7 temas-chave

Eduardo Paes faz balanço de seus oito anos como prefeito

Prefeito responde a perguntas da plateia sobre sua gestão, em encontro promovido pelo Vozerio em parceria com Iets

Ouça as vozes do Rio

Preencha o formulário abaixo para assinar o boletim do VozeRio

Mais sobre mobilidade

Nova lei divulgada nesta segunda (28) quase vetou operação do aplicativo no Rio

Os reis do Uber

Motoristas veteranos no aplicativo investem em frotas para alugar aos que não têm condições de comprar seu próprio carro

Cinco desafios para o próximo prefeito do Rio

Especialistas em saúde, educação, mobilidade, segurança e economia apontam os principais problemas que o novo gestor da cidade vai precisar resolver

Lugar de bike é na rua

No Méier, com os ativistas do Bike Anjo, repórter do Vozerio testa como é pedalar em ruas sem ciclovia. Bairro tem debate hoje sobre o tema
Realização:
Iets
Patrocínio:
Universeg
Apoio:
Biblioteca Parque Estadual Biblioteca Parque Estadual
 
Licença Creative Commons
Desenvolvido em SPIP pela Calepino