Debates

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OsteRio 3 / 02 / 2015| Julia Meneses

OsteRio vira programa de rádio por uma noite

Com a participação de três feras do jornalismo - Haroldo de Andrade Junior, Octavio Guedes e Rodolfo Schneider - o debate sobre o rádio e sua relação com ouvinte foi animado. As histórias dos bastidores deixaram a platéia atenta e participativa na horas das perguntas.

O debate intitulado "Uma cidade no ar: em linha direta com o público, radialistas são os ouvidores informais cariocas", realizado no dia 3 de novembro de 2014, foi uma verdadeira aula de radiojornalismo. O evento foi marcado pelas histórias dos radialistas, que emocionaram a todos e fizeram do OsteRio, por uma noite, um verdadeiro programa de rádio.

O segundo andar do restaurante Osteria dell’Angolo ficou cheio de ouvintes interessados em ouvir o trio feras: Haroldo de Andrade Junior, apresentador da rádio Tupi, filho de um pioneiro do rádio; o titular do CBN Rio, Octavio Guedes e o apresentador da Band News FM, Rodolfo Schneider

Mais do que fornecer informações, o público quer participar, debater e opinar, explica o diretor de jornalismo da Band News FM, Rodolfo Schneider. Rodolfo, que apresenta todo dia o "BandNews Rio 1ª Edição", ao lado do jornalista Ricardo Boechat, falou do prazer de trabalhar em um veículo tão dinâmico. A edição do programa de segunda-feira, por exemplo, ganhou um rumo totalmente diferente do previsto com a notícia de um tiroteio na Maré. Através de telefonemas e do aplicativo whataspp, ouvintes entraram em contato com a redação avisando do conflito. O âncora logo botou o relato de um deles no ar ao vivo com o som dos tiros ao fundo. "Aquele programa que a princípio tinha aquela pauta já discutida mudou completamente. Veio o relato da professora que estava com os alunos deitados no corredor do CIEP. Depois, o Comando da Pacificação trouxe uma informação sobre o porquê daquele tiroteio", lembrou Rodolfo.

Mas do que fornecer informações, o público quer participar, debater e opinar

O rádio, diferente do jornal, é uma "obra viva, que você vai construindo ao longo do programa", opinou Octavio Guedes, que é diretor de redação do jornal Extra. Na primeira vez em que foi chamado para participar de um debate na CBN, onde hoje é locutor do programa matutino, Guedes preparou um "discurso bonito" sobre a importância do debate, a instantaneidade da notícia, e a democracia do meio. Mas, assim que o programa começou, o locutor lhe pediu uma opinião: "Ontem teve uma grande chuva no Rio de Janeiro. Octavio Guedes, que está aqui iniciando nos debates: você acha que o Rio de Janeiro inundou porque o povo não é educado e joga lixo nos bueiros ou por que a Prefeitura não limpa os bueiros?".

A surpresa fez o diretor de redação do jornal O Extra entender a imprevisibilidade e a a concretude do meio. Características que, segundo ele, mesmo com as mudanças através das novas ferramentas de comunicação, permanecem. "A tecnologia vai mudando e nós vamos aperfeiçoando nosso trabalho, mas a essência da rádio é a mesma". Frase que, aliás, foi usada pelos três convidados.

Mas, que essência é essa? Fala ouvinte!

Ninguém melhor que o filho de um dos maiores radialistas do país para explicar a essência do rádio. Haroldinho - como carinhosamente é chamado pelos amigos - filho de Haroldo de Andrade, falou sobre o início da interação com o ouvinte e da criação dos debates populares.

"Tive a oportunidade de ver o meu pai fazer pela primeira vez o rádio interativo. Nos anos 50 e 60, não tínhamos essa facilidade de pegar um telefone celular e ligar para qualquer lugar no planeta. Mas o meu pai teve a ideia de botar o ouvinte no ar". A iniciativa deu tão certo que a Rádio Mauá, do Ministério do Trabalho, ganhou em dois horários das grandes da época: a Rádio Nacional e Rádio Tupi. Dando voz ao ouvinte e tocando músicas a pedido, Haroldo de Andrade criou uma verdadeira febre no Rio de Janeiro. Desde então, a forte relação entre o rádio e seus ouvintes é uma marca deste meio de comunicação. "Por essa capacidade de ouvir e entender o ouvinte, ele acabou criando o programa mais importante na história do rádio moderno - eu estou falando dos Debates Populares, que todo mundo faz parecido hoje em dia".

O surgimento desses debates está situado, segundo Haroldo, na transformação do país durante a ditadura militar, quando a falta de liberdade de expressão e opinião era grande. Percebendo as mudanças e atentado pelo próprio filho sobre o futuro do rádio, Haroldo juntou nomes como Hélio Thys, José Fernandes e Nelson Batinga para trazer atrações e comentar sobre elas. Os ouvintes começaram a ligar para concordar, discordar ou opinar junto com os locutores. Com o sucesso, Haroldo investiu na produção e chamou o filho para elaborar as pautas que seriam discutidas nos debates. "Hoje as emissoras mais ouvidas são exatamente essas baseadas no noticiário, na opinião e no debate, especialmente. E sempre com a participação do ouvinte", afirmou o locutor da Rádio Tupi, que não entra no estúdio sem ter lido todos os jornais.

"O rádio me ajudou muito a entender o que é o jornalismo popular: o jornalismo ligado à vida real das pessoas", contou Octavio Guedes. Durante a preparação para o lançamento do jornal Extra, Octavio era responsável pelo treinamento de 100 jovens jornalistas. Tinha um grande desafio nas mãos: treinar jovens que sonhavam em trabalhar nos veículos de elite, como Jornal do Brasil e O Globo, a exercitar uma abordagem popular. Determinou uma tarefa para os focas: ouvir diariamente o programa do Haroldo de Andrade e comparar os assuntos abordados com o que era noticiado Globo e no JB. No final da experiência, perceberam que as notícias que ganhavam espaço no debate de Haroldo eram as que afetavam a vida cotidiana dos ouvintes. "É a notícia com nome e sobrenome, aquela muito bem usada pela Band News, quando o ouvinte conta a história. Você se vê naquela notícia, você sabe que tem um ser humano ali".

Humanidade que está presente também nas denúncias dos ouvintes. Emocionado, Rodolfo Schneider falou sobre o telefonema anônimo que levou ao corpo do menino Juan Moraes, morto em 2011 por policiais militares numa operação na Comunidade Danon, em Nova Iguaçu. As primeiras informações dos investigadores garantiram que o corpo seria de uma menina. Mas, 29 dias, em uma coletiva de imprensa, foi divulgado que o corpo era mesmo de Juan. "Se a gente não olhasse para o ouvinte e não visse nele realmente uma fonte de informação...Não tenho a menor dúvida que não só o ouvinte percebe essa confiança e com o tempo você conquista e constrói uma relação de credibilidade com ele", contou Schneider.

Tecnologia: ajuda, armadilha ou concorrência?

O rádio é o meio mais democrático que existe. No jornal você edita; no rádio a pessoa fala ao vivo, sem cortes

O contato com ouvinte, que antes era pelo telefone, agora é pelo Whatsapp. Uma tecnologia que vem se mostrando um aliado poderoso na apuração de informações. Além da notícia, "o ouvinte manda uma foto ou um vídeo que comprova o que está falando", lembra Rodolfo Schneider. O diretor de jornalismo da Band News FM deu um exemplo: "Outro dia uma moradora de Paquetá enviou uma foto de uma tartaruga morta, muito antes de todo mundo falar sobre a mortandade de peixes [na Baía de Guanabara]. Mas eu falei ’Gente, vamos apurar isso direito’. Sempre temos que ter cuidado. Foi então que ela enviou uma foto com o jornal daquele dia e a tartaruga do lado".

"A gente tem que ter cautela sim, mas não tem o menor sentido ter o público que temos, construir essa relação e a tecnologia na mão deles, e não dar a possibilidade de se comunicarem e ajudarem o próximo", defendeu Rodolfo. Para ele a internet e suas facilidades ao mesmo tempo em que permitiram a ampliação do espectro da emissão, trouxeram um compromisso ainda maior com agilidade da informação.

A agilidade tem de ser combinada ao rigor na apuração, lembraram os palestrantes. Em abril de 2011, o twitter da Lei Seca foi um sucesso ao divulgar em tempo real as condições da cidade em meio a chuvas torrenciais. Em 2012, entretanto, as redes sociais ajudaram a espalhar o medo com boatos de ataques de bandidos. ?Essa experiência com as novas tecnologias é muito bom, mas é uma armadilha também?, questionou Octavio Guedes. Mas, para ele, a concorrência com a instantaneidade de milhares de pessoas com celulares na mão durante a época das chuvas, abriu portas para um novo olhar para a rede social. O jornal O Extra enfrentou a crise de segurança pública lançando nas redes sociais as hastags "#é verdade" e "#éboato", que checavam as informações divulgadas na rede.

"O ouvinte hoje é cada vez mais interativo e está sempre te comunicando, seja por um telefonema, uma mensagem por e-mail ou facebook. Eu recebo uma infinidade de informações assim. Falta de água, onde tem buraco, onde o médico não foi trabalhar", disse Haroldo de Andrade. Mas que respostas as rádios costumam obter das ações do poder público, das concessionárias de serviços e até da iniciativa privada? "Elas acompanham mesmo. Muitas vezes antes mesmo de acabar o programa já estou recebendo retorno das assessorias, informando que o problema está sendo resolvido", disse Haroldo.

O apresentador da Rádio Tupi causou polêmica ao afirmar que a difusão de informações no rádio não é completamente livre. Segundo Haroldo, o fato de que no Brasil as rádios são concessões do poder público limita a difusão de informações políticas, por exemplo. Colunista da Folha de S.Paulo, Elena Landau discordou enfaticamente: "A concessão do serviço público não é uma chantagem. A obrigação da imprensa é falar a verdade. Se a imprensa se dobra a chantagem, ela perde seu papel".

O fato, disse Octavio, é que o meio favorece o debate e a democracia. "O rádio é o meio mais democrático que existe". "No jornal você edita; no rádio a pessoa fala ao vivo, sem cortes". Concordando com Elena, Rodolfo completou: "Temos que saber da noção da responsabilidade que temos no microfone. No caso da relação entre nós e as concessionarias ou órgãos públicos, por exemplo, o público tem de estar em primeiro lugar".

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Convidados

Octavio Guedes

Apresentador do programa CBN Rio

Haroldo de Andrade

Radialista, apresentador do "Programa Haroldo de Andrade"

Rodolfo Schneider

Diretor de jornalismo do Grupo Bandeirantes no Rio de Janeiro.

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