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Pacote de austeridade 16 / 11 / 2016| Saulo Pereira Guimarães Bibiana Maia

"Não somos black blocs"

Policiais e outros servidores enfrentam bombas de gás e spray de pimenta em protesto contra pacote de medidas de austeridade enviado à Alerj. Picciani se reúne com lideres e promete que votação será em dezembro

Fotos de Bibiana Maia e Saulo Pereira Guimarães

Atualizada às 16h56

Policiais enfrentaram policiais no protesto em frente à Assembleia Legislativa hoje, no Centro do Rio de Janeiro, contra o pacote de austeridade enviado pelo governador Luis Fernando Pezão para votação pela Alerj. Agentes de segurança estavam entre os mais revoltados no movimento, dirigindo vaias e gritos de “traidores” aos colegas fardados.

"Temos de estar unidos. Estamos lutando por vocês também", dizia um.

" Aqui tem colega de turma! Vocês vão se ferrar junto com a gente" gritava outro.

"Por que tem agentes que se prestam a isso, a jogar bomba na gente, a fazer essa trincheira ? Pagaram nosso salário integral com medo da gente vir pra cá. E o resto dos servidores? E nosso 13º?", disse um PM da reserva, de 53 anos.

Por volta de 11h25, a rua e a calçada em frente à Alerj se encontravam tomadas por policiais civis e militares, professores, bombeiros, servidores da saúde e até estudantes. "Estamos em defesa da educação e em apoio aos servidores. Nós ocupamos nossa escola em abril e desde então nos mobilizamos. São cerca de 30 alunos de várias escolas hoje aqui", disse Igor Castro, 18 anos, do Colégio Estadual Visconde de Cairu, no Méier

Lideranças faziam discursos do alto de um trio elétrico. Pela rua Dom Manuel, nos fundos, a reportagem do Vozerio entrou na Alerj e se deparou logo com cinco policiais na entrada e mais alguns no interior. O presidente da Alerj, Jorge Picciani, estava reunido com representantes de sindicatos para decidir quem poderia acompanhar no plenário as discussões, que começariam às 15h. Na sala de imprensa, o assunto era a prisão do ex-governador Anthony Garotinho pela Polícia Federal.

Zito, Bebeto, Flávio Serafini, Chiquinho da Mangueira, Paulo Melo, Marta Rocha: o entra e sai de deputados não parava na sala da presidência, onde Piccianni explicava o esquema de segurança à mesa diretora da Alerj e aos líderes de bancada. Na reunião, ficou decidido que os deputados poderiam convidar 280 pessoas para ocupar o plenário durante as discussões da tarde. Vigilantes de terno controlavam o acesso à sala. Policiais do Batalhão de Ações com Cães estavam dentro da Alerj. A reportagem do Vozerio viu pelo menos dois animais.

Do lado de fora, manifestantes soltavam fogos. Por volta das 12h, a multidão começou a ficar impaciente e o confronto teve início com a derrubada de algumas das grades colocadas para isolar o prédio da multidão. Um grupo de PMs veio dar reforço aos que faziam a segurança da entrada principal. No trio elétrico, um dos líderes do movimento tentava contar os ânimos. "Gente, o protesto é pacífico, vamos ter calma. Desencostem da grade por favor". E acrescentava: "Não pode ter confronto. Polícia não bate em polícia".

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Grades não impediram o avanço dos manifestantes, que tentaram invadir o prédio

Com a difícil tarefa de evitar a divisão da categoria, outra liderança continuava: "Nós não estamos aqui para rachar os servidores. O nosso inimigo se chama PMDB, na figura de Piccianni, Pezão e Dornelles. Esse tipo de confronto só serve ao PMDB. Todos nós somos servidores", gritou, do alto do trio. Os manifestantes chegaram a fazer um cordão de isolamento para evitar a invasão da Alerj.

Apesar da tentativa de manter o movimento pacífico, o clima era aguerrido. “Vamos acampar até o Picciani sair”, prometia um dos líderes. Ele acrescentou que os policiais que têm participado dos protestos firan ameaçados e chamados a prestar depoimento. "Acabou o amor, isso aqui vai virar o inferno", começou a cantar um dos homens no trio.

Às 12h50 os ânimos voltavam a se agitar. “Não somos black blocs”, gritavam policiais, pedindo que a grade de contenção fosse retirada para que pudessem entrar. Sem sucesso, houve uma nova tentativa de derrubar as grades. Os policiais que guardavam a Alerj responderam com spray de pimenta e bombas de gás lacrimogênio. Nuvens se formaram. Muitos começaram a passar mal. Funcionários correram para fechar as janelas da Alerj. Policiais orientavam os manifestantes, pedindo que tivessem calma, não esfregassem os olhos e esperassem passar o efeito do gás.

Na confusão, as grades finalmente foram derrubadas. Houve um princípio de invasão. Mas a Polícia Legislativa se posicionou na entrada para impedir.

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Ruas impedidas e comércio fechado: manifestantes prometem continuar protestos

Dentro da Alerj, Piccianni continuava reunido com representantes de 16 entidades representativas de setores do governo, com Justiça, Ministério Público, Segurança e Educação. Cada uma das entidades apresentava suas demandas ao presidente da assembleia. No começo do encontro, ele já havia anunciado que nada seria votado sem que as lideranças sindicais fossem ouvidas. Ele também informou ser contrário à instalação de grades no entorno do prédio. Explicou que havia aceitado a decisão da Secretaria de Segurança e do comando da PM após a invasão da última terça-feira. Picciani disse também que vai ser reunir com outras lideranças amanhã, quinta-feira, às 12h.

Enquanto isso, do lado de fora, mais bombas. Às 13h19, o prédio foi invadido pelos manifestantes. Agentes do Batalhão de Choque correram para conter a invasão. Além dos manifestantes, dois integrantes da Polícia Legislativa precisaram ser socorridos. Caminhões com jatos de água aumentavam a confusão e expulsaram os militantes para as ruas vizinhas. Houve relatos de feridos. Segundo o Jornal Extra, um policial civil da 27ª DP ficou ferido no braço e rosto após ser atingido por agentes do Batalhão de Choque na tarde desta quarta-feira, em frente a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). De folga, o servidor protestava com colegas contra o pacote de medidas anticrise proposto pelo governador Luiz Fernando Pezão. Na confusão, pelo menos quatro manifestantes ficaram feridos nesta tarde.

Com o fim da reunião, às 13h30, Picciani falou aos jornalistas. "Esperamos que esse ambiente diminua e que a gente possa ter um processo de discussão tranquilo, sereno, democrático. Essa sempre foi uma casa aberta, democrática e que nunca deixou de discutir nenhuma questão. Ouvindo os líderes, devolvi a matéria que era a mais dura do pacote e envolvia os 30% [de contribuição previdenciária para os que eram isentos]. É preciso ter calma. Todas as 21 medidas do pacote serão discutidas. Espero que a temperatura baixe. ", prometeu. Segundo Picciani, não haverá votações até dezembro.

Picciani também comentou a situação financeira estadual. "O estado e o país vivem um momento difícil. Essa questão de salários atrasados sem garantia de décimo terceiro tem aumentado a temperatura. As pessoas vivem de seus salários. Evidentemente, isso não justifica violência, mas há um certo desespero no funcionalismo. Espero que o governo federal nos ajude e que o estado reduza suas despesas para que possamos sair dessa situação", afirmou.

Repercussão entre deputados

Às 15 horas, foi aberta a sessão, mas sem a presença das lideranças dos servidores. A justificativa é que, com a confusão, não era possível fazer a revista necessária para que as 280 pessoas pudessem entrar. Meia hora depois de iniciada a sessão,ddeputados conhecidos como Carlos Osório, Flávio Bolsonaro e Wagner Montes ainda não tinham aparecido. Por email, assessoria de Osório informou nesta quinta (17) que, apesar do painel da Alerj indicar que o parlamentar se encontrava ausente da sessão, ele está de licença até a próxima sexta (18). Entre os presentes, muitos críticos do pacote e à condução da votação."Querem jogar a bomba no colo do Parlamento. E o Parlamento que se exploda junto com o Executivo", disse Zaqueu Teixeira (PDT), que defende mais discussões sobre as medidas propostas.

O deputado Marcelo Freixo (PSOL) classificou o pacote de "covarde" e se disse contrário a discutir o assunto sem a presença dos servidores. "É lamentável que essa sessão esteja acontecendo enquanto os servidores são tratados com bomba e bala de borracha. Aqui, segue tudo tranquilo. Lá fora, temos uma praça de guerra", afirmou Freixo. Ele informou que a bancada do PSOL se reuniria hoje para discutir alternativas para superar a crise. "Uma delas é a ampliação da cobrança da taxa de herança no estado, que hoje está abaixo do limite permitido pelo Senado", disse o parlamentar.

Já Cidinha Campos (PDT) posicionou-se contra o fim da discussão: "Nós temos de assumir as nossas responsabilidades. É preciso acabar com essa demagogia de deputados que defendem determinados setores. Nós fomos eleitos para isso, para decidir o que fazer".

Por volta das 16h, muitos servidores começaram a ir embora, porque começou a chover no Centro do Rio. Fora da Alerj, às 16h40, o jornalista da TV Globo Caco Barcellos foi expulso pelos manifestantes, aos gritos de "golpista". Garrafas de água foram atiradas contra o âncora do "Profissão Repórter".

(Texto atualizado em 17/11/2016, às 11h35)

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