Burburinho

  • Compartilhe:
Burburinho 26 / 02 / 2016| Saulo Pereira Guimarães

Pão e água: agricultores protestam contra barragem

Manifestação neste sábado (27) questiona construção de grande reservatório de água no distrito de Subaio, em Cachoeiras de Macacu. Plantadores de milho e aipim querem evitar alagamento de suas terras por represa que abasteceria São Gonçalo e acusam o Estado de falta de transparência nas negociações

(Foto: Reprodução/Facebook)

Os moradores do distrito de Subaio, em Cachoeiras de Macacu, estão no centro de uma polêmica. Planejada pelo governo estadual, uma barragem no rio Guapiaçu ameaça uma comunidade de agricultores num canto ainda verde da Região Metropolitana. Neste sábado (27), a partir das 9h, esses vizinhos farão um protesto com o objetivo de impedir a obra. A expectativa é que cerca de 3 mil pessoas participem do evento, que pretende parar as rodovias BR-116 e RJ-122 e conta com apoio oficial. "O prefeito e a Câmara de Vereadores também estão contra a barragem e vão participar do protesto com a gente", diz Rosilene Melo, agricultora e integrante da associação de moradores local.

Há pelo menos três anos a barragem é apresentada como uma solução para reduzir o déficit de abastecimento de água em Niterói, São Gonçalo e outras cidades próximas, hoje já dependentes do Guapiaçu. Ao custo estimado de R$ 200 milhões, a obra permitiria armazenar cerca de 90 milhões de litros, evitando assim o desabastecimento na época de seca. O empreendimento é apresentado no Plano Estadual de Recursos Hídricos como a "única alternativa viável em curto prazo para aumentar a capacidade do Sistema Imunana/Laranjal".

Os moradores de Subaio acusam as autoridades de não considerar o impacto social da obra nos seus relatórios. As terras que serão inundadas estão entre as mais produtivas do Cachoeiras, município responsável por 85% da produção de milho verde e metade da produção de aipim do estado do Rio de Janeiro. "O processo tem sido arbitrário, sem espaço para discussões", afirma Rolf Dieringer, secretário do Sindicato de Produtores Rurais de Cachoeiras de Macacu.

Números levantados pela entidade indicam que 6 mil pessoas seriam diretamente afetadas pela construção do reservatório. Mas o Estudo de Impacto Ambiental da obra, enviado em 11 de dezembro para a prefeitura de Cachoeiras de Macacu, a quantidade de moradores é estimada em 998.

De acordo com o Instituto Estadual do Meio Ambiente (Inea) a construção da barragem asseguraria a regularização do abastecimento na região de Niterói até 2035. O órgão informou que vem mantendo o diálogo em aberto em relação às questões sociais e ambientais relacionadas ao projeto com a comunidade.

No ano passado, o relatório final da CPI da crise hídrica da Alerj já recomendava que o Governo do Estado avaliasse alternativas à barragem e fosse mais transparente nas negociações. "O clima aqui na região é de indignação", resume Rolf.

Esta CPI entende que não há mais condições para que o Governo do Estado tome decisões sem esgotar, adequadamente, os estudos das possíveis alternativas para qualquer empreendimento que pretenda implantar, no caso a Barragem do Rio Guapiaçu, de modo a deixar o mais claro e transparente possível para a sociedade a
razoabilidade e a fundamentação da solução que vier a escolher
(Relatório final da CPI da crise hídrica da Alerj)

Direito de protestar

Especialistas que acompanham o caso também se posicionam contra a conduta adotada pelo Estado. "É um problema para ser encarado de frente e com soluções que causem o menor dano possível a essas pessoas, que tem todo o direito de protestar", afirma Paulo Carneiro, engenheiro do Laboratório de Hidrologia da Coppe/UFRJ.

De acordo com Paulo, a ausência de barragens nos rios Guapiaçu e Macacu (que formam o sistema Imunana-Laranjal) permite que o fluxo de abastecimento de água varie sensivelmente de acordo com o regime de chuvas. O engenheiro explica que a construção da barragem em Cachoeiras de Macacu, de fato, resolveria o problema de abastecimento. No entanto, o ritmo do crescimento populacional da região vai exigir que novas providências sejam tomadas no futuro.

Os moradores do distrito de Subaio defendem o uso de três reservatórios menores na região para evitar a construção da barragem. Porém, Paulo afirma que, infelizmente, essa não seria uma solução eficiente. "Esses reservatórios tem menos capacidade de armazenar água do que uma grande barragem", diz ele. Com o sistema em operação, eles funcionariam como copos que precisariam ser constantemente preenchidos, enquanto a barragem seria como um grande balde, capaz de guardar mais água nos períodos de seca.

"É preciso que haja uma negociação que minimize as perdas dos agricultores", afirma o engenheiro. Carneiro defende que os moradores sejam compensados de forma justa pelas perdas sofridas e acredita que o problema não seja fruto de mudanças climáticas ou escassez de água, mas sim de falta de planejamento.

"A expansão da região metropolitana do Rio têm exercido pressão sobre outras atividades que precisam da terra, como a agricultura, e esse caso é um exemplo", afirma Paulo.

(Atualizado com informações do Inea em 29/2/2016, às 10h45)

  • Compartilhe:

Mais Burburinho

Parque Madureira não tem data para chegar à avenida Brasil

Prometida por Eduardo Paes para o ano passado, obra depende agora do aval de Marcelo Crivella

CCBB é palco de protesto após episódio de lesbofobia

Visitante acusa namorado de funcionária de discriminação durante ida ao local na última sexta (30)

Que tal aterrar a Lagoa?

Livro reúne soluções mirabolantes já propostas para os problemas de um dos principais cartões-postais do Rio

Ouça as vozes do Rio

Preencha o formulário abaixo para assinar o boletim do VozeRio

Mais sobre Água

Grupo Executivo de Gestão Metropolitana divulga em junho proposta unificada de saneamento básico para 21 municípios

Em São Gonçalo, estrada divide Petrobras e prefeitura

Via construída pela empresa é acusada de agravar o problema dos alagamentos no Jardim Catarina

PPPs em saneamento básico: uma luz no fim do túnel?

Alternativa é vista como uma solução possível para o problema crônico da Região Metropolitana do Rio, mas ainda não é unanimidade

Paraíba do Sul: torrente de ameaças

Debate na Biblioteca Parque Estadual reúne engenheiro e realizadores de cinema para conversar sobre estado atual do rio que abastece o Rio

Mais sobre meio ambiente

Livro reúne soluções mirabolantes já propostas para os problemas de um dos principais cartões-postais do Rio

Soluções para as cidades no século 21

Fazendas urbanas e reformas planejadas para favelas são algumas iniciativas que pretendem tornar mais equilibrado o crescimento das metrópoles brasileiras

Investidores já podem comprar ações do futuro

Títulos de impacto social oferecem mecanismos de financiamento para projetos de saúde, redução do desemprego e reincidência de presos

Caminhos do mar

Grupo no Facebook promove ciência cidadã sobre fauna marinha no Rio

Mais sobre Região Metropolitana

Curso de idiomas ajuda refugiados a tentar um recomeço na região metropolitana do Rio

Novo projeto vai mapear subsolo da região metropolitana

Batizado de Geovias Metropolitano, trabalho iniciado nesta sexta (16) será coordenado pela Câmara Metropolitana

Estudo aponta centralidades emergentes na região metropolitana do Rio

Campo Grande e Taquara foram áreas citadas em pesquisa, apresentada nesta terça (06) em evento no Centro do Rio

Um diagnóstico sobre a região metropolitana do Rio

Evento nesta segunda (24) marcou a divulgação dos resultados da primeira fase do plano metropolitano

Mais sobre Protestos

Após 30 anos de trabalho na rede estadual, aposta nos salgados para comprar comida e pagar dívidas que ultrapassam R$ 600

Repórter, profissão de risco

Segurança de jornalistas que cobrem protestos e acompanharão Rio 2016 preocupa Repórteres Sem Fronteiras

Mototáxis transportam passageiros em engarrafamentos causados por protesto de taxistas contra Uber

Em meio às retenções no trânsito causadas pelas manifestações de taxistas contra o Uber no Rio, mototáxis levam passageiros para o aeroporto do Galeão

Fora das salas, aula prática de política

As 24 horas iniciais do primeiro colégio ocupado por estudantes no Rio, na Ilha do Governador
Realização:
Iets
Patrocínio:
Universeg
Apoio:
Biblioteca Parque Estadual Biblioteca Parque Estadual
 
Licença Creative Commons
Desenvolvido em SPIP pela Calepino