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Saídas para a crise no Alemão 10 / 04 / 2015| Anabela Paiva

Paz com voz

Moradores do Alemão, policiais, pesquisadores e gestores públicos discutem a crise de segurança pública no Complexo. Denúncias, momentos emocionantes e propostas marcaram o encontro. Assista a alguns trechos.

[Foto: Fernando Souza, cortesia Agência O Dia]

Tensão e expectativa estavam no ar ontem à noite, 9 de abril, quando, a partir das 18h30, cerca de 200 pessoas se reuniram no auditório da sede do Instituto de Estudos da Religião (ISER) para o Fórum “Alemão: caminhos para a crise”. Uma semana depois da morte do menino Eduardo de Jesus, de 10 anos, atingido por uma bala de fuzil quando brincava em frente à sua casa, cerca de 30 moradores do Complexo foram até a Glória para dialogar com oficiais da PM, incluindo o chefe do Estado-Maior, o Coronel Robson Rodrigues, gestores públicos e especialistas em segurança.

Muitos dos que se aglomeravam na sala lotada temiam que o encontro – promovido pelo jornal O Dia em parceria com o ISER e o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) – descambasse para um improdutivo bate-boca. De fato, não foram poucos os momentos de tensão, como quando lideranças do Alemão fizeram denúncias de sequestros e ameaças por parte de policiais das UPPs do Complexo. Leonardo Souza, do Ocupa Alemão, rejeitou a proposta de um diálogo de jovens PMs e ativistas feitas por um major e defendeu ardentemente a saída da PM das comunidades.

Os jovens de coletivos como o Papo Reto saíram em bloco quando o subsecretário de Segurança, Pehkx Jones Gomes da Silva, começou uma fala protocolar. Voltaram quando o gestor foi duramente questionado pelo agitador cultural Junior Perim, que cobrou decisões práticas do governo, apoiado por moradores do Alemão.

Alam Brum, do Raízes em Movimento, descartou pactos com a polícia

A presença da Secretária de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, Teresa Cosentino, não foi suficiente para evitar que muitos usassem o microfone para condenar a ausência do governador Luis Fernando Pezão. Alam Brum, do Raízes em Movimento, foi aplaudido quando descartou fazer pactos com a polícia, por entender que a política de segurança em vigor não é ditada pela PM.

Curiosamente, foi daí que surgiu um ponto de aproximação entre os grupos: vários depoimentos do evento, que se estendeu até 21h30, frisaram a precariedade e o isolamento do trabalho dos policiais. Robson Rodrigues pediu desculpas pelos erros de integrantes da PM – mas ressaltou que só a cooperação entre “pessoas de boa vontade” poderá produzir resultados.

Em vários momentos da noite, a mesa formada por Silvia Ramos, coordenadora do CESeC; pelo secretário-executivo do ISER, Pedro Strozenberg e pelo jornalista André Balocco, do Dia, destacou a importância de que o encontro produzisse acordos para a obtenção de resultados práticos. E de fato foram feitas propostas, tanto por moradores do Alemão, quanto por outros participantes. Coordenador do Instituto Raízes em Movimento, Alan Brum, leu no encontro uma lista de reivindicações assinada por mais de uma dezena de organizações locais.

Robson Rodrigues pediu desculpas pelos erros de integrantes da PM

Uma delas é a liberação pela prefeitura de um terreno no Alemão, para que seja construída uma universidade – projeto antigo e que já conta com fundos do governo. O vice-prefeito Adilson Pires se comprometeu a buscar solução para o caso. A secretária Teresa Cosentino propôs a criação de um fórum permanente para solucionar os problemas da área, unindo as secretarias de Assistência Social, Cultura, Educação, Saúde, Segurança, entre outras instituições, e lideranças locais. Pedro Strozemberg convocou os moradores do Alemão a participar da criação de uma “oficina de propostas”, para pactuar e detalhar as reivindicações dos moradores.

Ao fim da noite, a coordenadora do Educap, Lucia Cabral fez um balanço: “O encontro mostrou que estamos unidos coletivamente e nos potencializou para a escuta do poder público. Foi importante porque a mídia acompanhou tudo e mostrou que o Alemão não está calado. Acho que nos fortaleceu e mostrou ao público que não é marginalizando que se vai resolver a segurança no Rio de Janeiro”.

Ontem, alguém lembrou que há uma semana os tiroteios haviam cessado no Complexo. A morte do menino chamado Jesus — em plena Semana Santa — silenciou as armas. Em compensação, as ruas das comunidades estão tomadas por forças de elite. Há notícias de que policiais exigem que o fechamento do comércio à noite; um espaço cultural e uma escola estão servindo de abrigo a policiais, para irritação de moradores. O caminho para a desejada #paznoalemão promete ser longo.

Assista a alguns trechos do fórum:


Leia a continuação: Entre desabafos e embates, um consenso: PM não pode ditar debate político

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