Pensatas & paixões

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Paixões 21 / 07 / 2015|

Pedalar no Rio: um esporte radical

Entre o desafio de galgar as montanhas e a agressividade dos motoristas cariocas, o sociólogo Ignacio Cano diz que ciclovias na cidade são “ficção”.

(Foto: RioTur)

Por muitos anos mantive um namoro com a bicicleta. Em metrópoles como Madri, hostis aos ciclistas, o namoro precisava ser platônico ou clandestino. Mas em outros lugares onde morei, como Guildford na Inglaterra ou Tucson no Arizona, era possível praticar o prazer de se deslocar pedalando. Mas só casei mesmo com a bicicleta quando me mudei para o Rio de Janeiro, em 1996, e ganhei uma Caloi de aniversário. Sobre duas rodas, comecei a explorar as montanhas da cidade até me apropriar de todas as estradas da Floresta da Tijuca.

Devo confessar que já mantive algumas relações ardentes fora desse casamento, como quando cruzei os Andes pedalando a mais de 5.000 metros de altitude, entre os vulcões da Bolívia e do Chile, mas no final dessas breves paixões sempre retorno à gratificante relação conjugal com a minha bicicleta carioca.

Para quem gosta de atividade ao ar livre, o Rio de Janeiro é realmente uma cidade maravilhosa, onde é possível remar, nadar, correr, escalar ou pedalar no meio do tecido urbano. E para quem gosta de pedalar subindo ladeiras, o Rio tem um cardápio de luxo: a fantástica Vista Chinesa, as deliciosas Paineiras, às vezes coroadas com uma inclemente ascensão ao Cristo Redentor, o eterno e solitário Sumaré, a exigente Estrada das Canoas, a breve escalada do Joá ou, se você estiver muito em forma, a insana tentativa de subir os paralelepípedos que levam à Pedra Bonita.

Não são muitas as cidades onde o ciclista sai de casa e, em 15 ou 20 minutos, já está subindo uma ladeira íngreme numa floresta. Num tempo relativamente curto, é possível fazer um trabalho aeróbico intenso rumo a um visual inspirador. A minha história na cidade está marcada por todos esses lugares e outros tantos. Nos fins de semana, quando treinava corridas de longa distância, costumava pedalar até bem mais longe, como a praia do Grumari. Uma vez cheguei até Muriqui.

Com frequência me perguntam se gosto de morar no Rio. Depende, tudo depende. Quando, às 7 da manhã, estou no meio do verde pedalando rumo a uma vista que meio mundo paga milhares de dólares para contemplar, me sinto um verdadeiro privilegiado. Já às 8 e meia, depois de levar várias fechadas no trânsito, seja na bicicleta ou no meu próprio veículo, meus sentimentos pela cidade são bem menos doces e eu me sinto, no melhor dos casos, um sobrevivente.

A bicicleta é uma forma rápida de ganhar intimidade com a cidade, pois nos oferece de cara o que ela tem de melhor e de pior. De um lado, a beleza das vistas, a paz da pedalada na floresta, a solidariedade entre os ciclistas com pneus furados. De outro lado, a tremenda agressividade do trânsito carioca. Aliás, só num lugar muito hostil as pessoas precisam se lembrar umas às outras constantemente, em paredes e camisetas, de que gentileza gera gentileza. No Japão, onde os carros param ao menor sinal de que o pedestre pretende cruzar a rua, ninguém necessita repetir o óbvio.

Se o trânsito carioca poderia fazer Jó perder a paciência, que dirá no caso dos ciclistas, esses seres estranhos e híbridos, metade pedestres, metade motoristas? Sabemos que muitos motoristas nos odeiam e, do alto da sua elevada posição na cadeia alimentar, desejariam nos devorar e desterrar os intrusos de duas rodas das ruas. Mas nós também precisamos fazer autocrítica quando pedalamos na contramão ou aterrorizamos pedestres nas faixas compartilhadas.

Poderia contar muitas histórias pessoais sobre a agressividade contra os ciclistas, algumas cômicas, outras trágicas. Há poucos meses, eu pedalava de volta a casa, na subida de um dos morros da Zona Sul, quando um taxista me jogou o carro em cima. Quando reclamei, o taxista disse: "tu vai pedalar na Vista Chinesa ou no Leblon, aqui tu não tem o menor direito". Seguiram-se intercâmbios pouco agradáveis e uma denúncia por ameaça na delegacia. O sistema de justiça criminal parece ter mostrado, por uma vez, sua eficácia, pois o taxista já pediu perdão e, quando o encontro na rua, me pergunta educadamente pela futura data da audiência de conciliação no Juizado Especial.

Uma colega foi atropelada quando pedalava na ciclofaixa rumo à Urca. O motorista ainda a xingou, caída no chão. Mas o melhor estava por vir. Ela chamou um guarda municipal para socorrê-la e quando ele chegou, curtindo o seu Toddynho, sentenciou: "a culpa é do governo. O governo pinta essa faixa, diz que é ciclovia e aí acontece isso”. Depois seguiu com o seu caminho e o seu Toddynho, largando a minha colega no chão. Compreensivelmente, ela está agora com medo de pedalar.

Dizem que o Rio de Janeiro é o campeão de ciclovias no Brasil, com centenas de quilômetros de malha cicloviária. Na verdade, só uma parte desta rede, a que passa ao longo da orla, é realmente adequada para o ciclismo. O resto é pouco mais do que ficção: faixas que ninguém respeita, pouca manutenção, invasões por carros estacionados ou em movimento, percursos que sobem calçadas ou rodeiam obstáculos. A cidade não investiu para valer nas ciclovias, muitas das quais parecem feitas “para inglês ver” ou “para inglês imaginar que poderia pedalar nelas”.

Para que a bicicleta possa ser usada como meio de transporte, é preciso transformar a cidade e a mentalidade, para além da construção de ciclovias. Por exemplo, criar serviços para que as pessoas que escolherem ir de bicicleta ao trabalho possam tomar banho antes de começar a sua jornada. E facilitar o acesso a bicicletários para os que chegam a uma instituição ou a uma loja. Para dar só um exemplo, o Banco Itaú patrocina o projeto Bike Rio, que fomenta o uso de bicicletas. Mas quando você chega pedalando a uma agência desse banco, os seguranças não permitem entrar com a bicicleta e, se você quiser deixá-la do lado de fora, ninguém quer garantir que ela estará lá quando você acabar suas gestões. Se no auge do culto ao automóvel foram criados os serviços drive-through, está na hora de inaugurarmos lojas, lanchonetes e agências bancárias cycle-through. Do jeito que anda o trânsito carioca, a bicicleta será logo o meio mais rápido para andar pela cidade.

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Convidado

Ignacio Cano

Coordenador do Laboratório de Análises de Violência (LAV), da UERJ

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