Burburinho

  • Compartilhe:
Burburinho 22 / 03 / 2016| Saulo Pereira Guimarães

Planejamento do futuro do Rio desagua na Baia de Guanabara

A região metropolitana do Rio de Janeiro é formada por 21 municípios, tem cerca de 12 milhões de habitantes e muitos problemas a resolver. Nos próximos 16 meses, um conselho formado por representantes de empresas, do poder público e da sociedade civil vai discutir essas questões e buscar soluções, que vão fazer parte de um plano de desenvolvimento que pretende nortear o futuro do Grande Rio

(Foto: Saulo Pereira Guimarães)

Como planejar um futuro integrado para os 21 municípios da Região Metropolitana? Um grupo formado por representantes de empresas, do poder público e da sociedade civil vai se encontrar regularmente nos próximos 16 meses para tentar encontrar respostas para essa pergunta. Batizado de Conselho do Plano Metropolitano, o time realizou sua primeira reunião nesta terça (22) no Palácio Guanabara, em Laranjeiras.

Formado por 110 entidades que monitoram a evolução da área e 50 personalidades com histórico de contribuições sobre o tema, o Conselho será responsável por acompanhar a elaboração do Modelar a Metrópole, plano estratégico de desenvolvimento urbano voltado para a Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ). O documento deve estar pronto até julho de 2017 e está a cargo do consórcio formado pela Quanta Consultoria e o escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados, do ex-prefeito de Curitiba que implantou em 1974 na cidade o BRT (sigla em inglês para sistema de trânsito rápido de ônibus).

O primeiro evento do Conselho Metropolitano foi marcado por intensas discussões sobre o futuro da Baía de Guanabara e pela ausência de prefeitos da maioria das cidades da RMRJ. Entretanto, o entendimento geral é de que o trabalho será importante. "É uma iniciativa praticamente inédita, a primeira do tipo em muitas décadas", afirmou Thereza Lobo, socióloga e diretora da ONG Rio Como Vamos.

Apesar de representar hoje 9,5% das riquezas produzidas no Brasil, o Grande Rio ainda tem quase metade de seus moradores sem acesso a rede de esgoto e 60% dos adultos sem ensino médio completo. Atualmente, o crescimento da região está concentrado nas bordas, em municípios como Itaguaí e Seropédica, no lado oeste, e Cachoeiras de Macacu e Rio Bonito, no lado leste. A principal razão para isso é a falta de espaço nas áreas mais centrais. "A ideia do plano é olhar com mais atenção para esse tipo de fenômeno", afirmou Vicente Loureiro, diretor executivo da Câmara Metropolitana de Integração Governamental.

Confira os melhores momentos do bate-papo no Palácio Laranjeiras

JPEG - 154.4 kb
Rogério Valle, da Coppe/UFRJ, faz pergunta durante reunião do Conselho Metropolitano (Foto: Anabela Paiva)

Vicente Loureiro, diretor executivo da Câmara Metropolitana de Integração Governamental
Há três anos, a Câmara Metropolitana foi criada por decreto com base em uma decisão do STF que indicou que assuntos de interesse comum compartilhados não deveriam ficar a cargo nem do Estado, nem dos munícipios, mas sim de um órgão específico. Após a criação da câmara, foi aprovado no Congresso o Estatuto da Metrópole, que prevê punição por crime de responsabilidade para os governadores que não criarem uma entidade específica para cuidar das questões ligadas às regiões metropolitanas. Pensar o desenvolvimento da RMRJ sem um planejamento é enxugar gelo. Precisamos encontrar um modelo e persegui-lo, independente de mudanças que possam acontecer em função das conjunturas. É sabido que temos poucos recursos financeiros, que o estado passa de tempos em tempos por momentos de instabilidade econômica e, por isso, tem capacidade de investimento limitada. Mas é importante que a gente se entenda e busque convergências em pontos importantes para que tenhamos uma proposta que possa sair do papel.

Jaime Lerner, arquiteto, urbanista e diretor do escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados
A Baía de Guanabara tem possibilidade de ser, e quando os problemas forem resolvidos com certeza será, um exemplo extraordinário. Sempre achei que a baía possui condições para abrigar novas alternativas de transporte, que podem ser criadas com a participação da iniciativa privada. É muito difícil encontrar no mundo uma região com as características da baía. Tenho certeza que a coisa ali pode mudar e bem. Temos de enxergá-la de uma outra maneira. Ela vai ser um ponto fundamental. O Rio pode dar o grande exemplo para o país, que hoje precisa ver alguma coisa que dê certo. Mas é preciso começar. Gosto de participar de projetos que eu sei que vão acontecer. Se sinto que não vão acontecer, nem começo, porque com 78 anos não tenho mais idade para entrar em coisas assim. O segredo da inovação é propor o avanço. Espero que sejamos parceiros de alegria.

Mauro Osório, economista
A criação de uma agência metropolitana que seja ágil é algo fundamental. O Estado precisa modernizar sua estrutura. Mas há alguns outros problemas que também precisam ser solucionados. Não há, por exemplo, linhas de pesquisa no Rio voltadas para o próprio estado, como acontece em São Paulo e outros locais. A pouca reflexão contribui para o surgimento de equívocos e boatos. Ampliar a reflexão e ter planos nesse sentido é algo absolutamente fundamental. Outra questão é a desigualdade social, que é maior que a média na nossa região metropolitana. E um ponto-chave é o debate sobre a integração metropolitana na Alerj. Sei que há muitos interesses e medos envolvidos e que a qualidade dos políticos no Rio também é pior que a média. Mas precisamos de uma agência metropolitana bem aprovada na Alerj.

Luiz Paulo Corrêa da Rocha, deputado estadual (PSDB) e engenheiro
Quarenta anos atrás, trabalhei com o Jaime Lerner na Fundrem, onde ele era presidente. Tínhamos grande entusiasmo em relação à instituição. Mas, infelizmente, a Fundrem acabou, por ter sido considerada lixo autoritário pela Constituição de 1988. Quando Sérgio Cabral assumiu o Governo do Estado, fiz um projeto de plano diretor metropolitano. Nove anos depois, nada aconteceu. Isso porque o Estado só planeja o orçamento e não seu crescimento. O resultado são gastos sem planejamento estratégico, sem o respaldo de estudos sérios. Não dá para salvar a baía sem planejar o saneamento da RMRJ. Por isso, sou entusiasta desse projeto, desejo que ele entre na pauta da Alerj o quanto antes e tenho trabalhado para isso. Acredito também que é importante que seja criado um fundo contábil da RMRJ, para que a adesão dos prefeitos à ideia da integração metropolitana aumente. Nesse sentido, o passo que estamos dando hoje é muito importante.

Paulo Protásio, presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro
Estamos empolgados com esse projeto há muito tempo. Vejo nessa iniciativa uma enorme oportunidade de integração com outras regiões metropolitanas do Brasil, principalmente a de São Paulo. Entendo que, no futuro, são as regiões metropolitanas, e não mais os países, que vão trocar mercadorias e informações entre si. Sendo assim, queremos não só fazer parte desse debate, mas abraçar a realização de funções que possam acelerar esse processo. Somos soldados dessa causa da qual vocês carregam a bandeira.

Flávio Almada, presidente da Metrô Rio
O que a gente mais sente quando planeja ações de mobilidade não é a falta de recurso, mas a falta de esforços conjuntos e de uma visão alinhada. É impossível continuarmos transportando multidões por longos percursos nas regiões metropolitanas do Brasil. Em outros países, já há décadas, as pessoas são levadas a morar perto de onde trabalham. No Rio, é fundamental que o Centro também seja um local de habitação, de uso racional do solo e de maior qualidade de vida.

Sérgio Besserman, presidente do Instituto Pereira Passos (IPP)
Apesar da região metropolitana ser uma área muito heterogênea, nós termos aqui no Rio a vocação de nos unir para fazer coisas. Esse é um traço que nos distingue e que faz toda a diferença nesse momento. Não podemos nos paralisar por conta de dificuldades. A RMRJ tem três grandes eixos: a baía, os trilhos e as políticas públicas. Desses três, a baía é o desafio mais incontornável. Se daqui a 20 anos, quando todas as grandes cidades do mundo tiverem suas baías limpas, nós não tivermos despoluído as águas da Guanabara, nossa marca vai para o ralo.

Pedro da Luz, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB)
O IAB defende há muito tempo a ideia da integração metropolitana. Entendo que a baía é um elemento fundamental da nossa paisagem e não só do ponto de vista ambiental, mas de balneabilidade mesmo. O carioca gosta do mar. Além disso, precisamos de uma cidade com mais equidade e menos desigualdade entre Ipanema e São Gonçalo, por exemplo. Então, é fundamental que esse plano seja algo palpável. E a presença da baía ajuda muito nesse sentido. Ela integra Ramos, Ilha do Governador, Caxias, Niterói e outras regiões. Creio que é essencial que o plano apresente resultados num curto espaço de tempo para, com isso, mobilizar ainda mais a sociedade. A despoluição é um projeto de longo prazo, mas ações com esse caráter são importantes.

Rogério Valle, coordenador do Laboratório de Sistemas Avançados em Gestão da Produção da Coppe/UFRJ
Se quisermos melhoria na Baía de Guanabara, temos que olhar para a questão do saneamento básico na Baixada Fluminense. Esse é um ponto fundamental. O outro ponto é o entendimento de que não há solução que não seja de longo prazo. Por isso, é essencial dar logo esse primeiro passo, vencer a paralisisa em relação ao tema, e caminhar, no ritmo que for possível. Para isso, precisamos das diretrizes que o plano estratégico vai trazer. É bom lembrar que o Rio só existe por conta da Baía de Guanabara.

Luís Costa Leite, secretário de habitação de Caxias
Vocês centraram muito no problema da Baía de Guanabara. Mas ela é só a face mais visível de um problema ainda maior, que é a desigualdade social na RMRJ. Para resolvermos o problema da baía, temos de focar na questão do esgoto e do lixo na Baixada Fluminense. Em Caxias, não há um metro de esgoto com rede separadora. Vai tudo para a rede pluvial e valões. Até temos estação de tratamento, mas o esgoto hoje não chega lá. Outra questão é o lixo. Empresas privadas com contratos arranjados e sem controle coletam hoje pensando em ter o menor custo possível. Sem um sistema de coleta de lixo e de esgoto eficiente, continuaremos nessa situação catastrófica.

Manuel Thedim, diretor executivo do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade
Entendo que é fundamental que o processo que estamos começando prestigie as pessoas, o cidadão do Rio. A cidade é um local de encontro e, por isso, a centralidade de tudo deve ser a população e o seu território. Não basta ter um plano com excelentes ideias de mobilidade e habitação se isso não promover o bem-estar, criar um bom ambiente de negócios, uma cena cultural interessante e outros aspectos que são aspirações das pessoas.

José Marcelo Zacchi, coordenador da Casa Fluminense
Quando falamos do Rio de Janeiro, o que vem à mente são seus cartões-postais e terminamos não enxergando a cidade como sua região metropolitana. Nosso desafio é ver o Rio assim, como um espaço de pessoas que compartilham moradia, habitação, mercado de trabalho e outras áreas de interesse. A RMRJ é uma cidade só e isso será um desafio após o ciclo de grandes eventos que recebemos e se encerra agora com a Rio 2016. Qualquer visão de desenvolvimento do Rio no século XXI terá que considerar a região metropolitana. O plano se insere nesse contexto e a Casa Fluminense vem tentando colaborar nesse sentido, aglutinando ideias e atores.

  • Compartilhe:

Mais Burburinho

Parque Madureira não tem data para chegar à avenida Brasil

Prometida por Eduardo Paes para o ano passado, obra depende agora do aval de Marcelo Crivella

CCBB é palco de protesto após episódio de lesbofobia

Visitante acusa namorado de funcionária de discriminação durante ida ao local na última sexta (30)

Que tal aterrar a Lagoa?

Livro reúne soluções mirabolantes já propostas para os problemas de um dos principais cartões-postais do Rio

Ouça as vozes do Rio

Preencha o formulário abaixo para assinar o boletim do VozeRio

Mais sobre mobilidade

Nova lei divulgada nesta segunda (28) quase vetou operação do aplicativo no Rio

Os reis do Uber

Motoristas veteranos no aplicativo investem em frotas para alugar aos que não têm condições de comprar seu próprio carro

Cinco desafios para o próximo prefeito do Rio

Especialistas em saúde, educação, mobilidade, segurança e economia apontam os principais problemas que o novo gestor da cidade vai precisar resolver

Lugar de bike é na rua

No Méier, com os ativistas do Bike Anjo, repórter do Vozerio testa como é pedalar em ruas sem ciclovia. Bairro tem debate hoje sobre o tema

Mais sobre Baixada Fluminense

Livro aborda transformações da Baixada Fluminense durante a ditadura

Novo projeto vai mapear subsolo da região metropolitana

Batizado de Geovias Metropolitano, trabalho iniciado nesta sexta (16) será coordenado pela Câmara Metropolitana

Prefeito eleito de Caxias é condenado a 7 anos de prisão por crime ambiental

De acordo com STF, Washington Reis (PMDB) se envolveu na criação de um loteamento ilegal quando era prefeito da cidade

Novo endereço para criar e empreender

Espaço de ’coworking’ Gomeia surge como centro de articulação entre grupos atuantes em cultura na Baixada Fluminense

Mais sobre infraestrutura

Conduzido pelo Iets, projeto Centralidades fará um raio X de qualidades e deficiências das áreas mais importantes da Região Metropolitana fluminense

Paraíba do Sul: torrente de ameaças

Debate na Biblioteca Parque Estadual reúne engenheiro e realizadores de cinema para conversar sobre estado atual do rio que abastece o Rio

Segunda no parque

Gente de todos os tipos e idades ocupou o Parque de Madureira neste Dia das Crianças — quando foram inauguradas três cascatas d’água, chamadas pela prefeitura de "Praia de Rocha Miranda"

Evento discute alternativas à crise de habitação

Ciclo de palestras no Studio-X debate modelos alternativos de moradia no Brasil e no mundo, como a autoconstrução e a habitação multifamiliar

Mais sobre Região Metropolitana

Curso de idiomas ajuda refugiados a tentar um recomeço na região metropolitana do Rio

Estudo aponta centralidades emergentes na região metropolitana do Rio

Campo Grande e Taquara foram áreas citadas em pesquisa, apresentada nesta terça (06) em evento no Centro do Rio

Um diagnóstico sobre a região metropolitana do Rio

Evento nesta segunda (24) marcou a divulgação dos resultados da primeira fase do plano metropolitano

Os últimos a serem os primeiros

Problemas em candidaturas atrasam resultado do 1º turno em Nova Iguaçu, Itaguaí e Rio Bonito
Realização:
Iets
Patrocínio:
Universeg
Apoio:
Biblioteca Parque Estadual Biblioteca Parque Estadual
 
Licença Creative Commons
Desenvolvido em SPIP pela Calepino