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Baía de Sepetiba: no caminho do sacrifício 25 / 06 / 2015| Isabela Fraga

População de botos de Sepetiba: declínio causado pela pesca

Ameaçado de extinção, boto-cinza tem sofrido cada vez mais com a pesca predatória na baía de Sepetiba. Encontramos um deles por lá — morto, infelizmente —, além de um pinguim enrolado numa rede de pesca. A criação de uma área de proteção marinha pode ajudar a controlar a exploração na baía.

Listado como espécie vulnerável e em extinção, o boto-cinza (Sotalia guianensis) ainda encontra na baía de Sepetiba um refúgio. Embora abrigue a maior população dessa espécie do mundo, a região tem visto cada vez mais botos morrerem: só este ano, já foram encontrados 34 cadáveres — mais de quatro vezes superior ao número máximo de mortes por causas não naturais aceitável por ano.

Segundo o biólogo Leonardo Flach, coordenador científico do Instituto Boto Cinza, sediado em Mangaratiba, estima-se que ainda haja entre 600 e 1.000 botos-cinza vivendo na baía de Sepetiba. Um número bem maior que o da baía de Guanabara (onde há menos de 40!), mas em rápido declínio.

Enquanto fazia a reportagem em Itacuruçá, a equipe do Vozerio acompanhou biólogos do instituto no recolhimento de uma carcaça de boto (a 34ª do ano), avistada por pescadores. "Ele já está em estágio avançado de decomposição, por isso não podemos estabelecer a causa da morte", explicou a bióloga Kátia Silva ao observar o cadáver. De qualquer maneira, segundo os biólogos, as causas mais frequentes de morte entre os botos é a pesca predatória.

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Os estudantes Bruno Santana, 16 anos, e Roberto de Santana, 20 anos, estagiários do Instituto Boto-Cinza, medindo a carcaça de boto encontrada no mar (foto: Mauro Pimentel)

Quando esteve na região, a equipe do Vozerio conversou com funcionários de um barco do tipo traineira (proibido de pescar dentro da baía) que estava atracado na Ilha da Madeira. Segundo os pescadores, o peixe que estavam entregando era sardinha-boca-torta, usada apenas para enlatados. Quando perguntados onde a pesca era realizada, alguns disseram "aqui dentro da baía" e outros explicaram que era na parte de fora.

Os pescadores artesanais têm uma participação importante na observação dos botos na baía: são eles quem quase sempre avisam o Instituto sobre carcaças avistadas pela região. O Instituto Boto Cinza funciona graças a um patrocínio da Petrobras Socioambiental (no projeto "Abrace o Boto-Cinza"), que está prestes a terminar. "Até ano que vem, não temos perspectiva de conseguir outro patrocínio. Vamos ter que reduzir nossas atividades", alerta Leonardo.

Atualmente, os botos-cinzas mortos recolhidos são enviados para o Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores (Maqua), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Lá, biólogos os analisam para identificar, quando possível, as causas das mortes.

O resgate do pinguim
Junto com o boto-cinza morto, havia um pinguim-de-Magalhães (Spheniscus magellanicus) — vivo! —, encontrado embolado numa rede de pesca. Embora fraco, o animal estava bem. O Vozerio o levou até o Centro de Recuperação de Fauna de Animais Silvestres (CRAS), na Faculdade de Veterinária da Estácio, em Vargem Pequena. Lá, o veterinário Jefferson Pires, responsável pelo Centro, está cuidando do animalzinho. "Ele só está muito magro, mas passa bem", avisa o veterinário.

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O pinguim-de-Magalhães resgatado que a equipe do Vozerio levou até o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS) da Estácio (foto: Mauro Pimentel)

Junho é o mês em que os pinguins começam a aparecer na costa brasileira. "Em 2008, resgatamos centenas de pinguins aqui pela baía", contou Leonardo, do Instituto Boto Cinza. Em muitos dos casos, o instituto leva os animais resgatados até algum centro de tratamento como o da Estácio. Contudo, com a falta de patrocínio, talvez isso não aconteça mais.

A "temporada de pinguins" na baía começou para valer. Na última segunda-feira (22/6), o instituto resgatou mais dois animais. Com ajuda de voluntários, os bichinhos foram levados ao CRAS.

Uma área de proteção ambiental dentro do mar
Em abril deste ano, a prefeitura de Mangaratiba instituiu a Área de Proteção Ambiental (APA) Marinha Boto-Cinza, fruto de pressões do Instituto Boto-Cinza e de outras entidades. Segundo Leonardo, a prioridade da APA é a fiscalização de atividades. "É claro que não podemos reverter toda a exploração já realizada até agora. Mas podemos estabilizá-la, evitar que ela se agrave", explica o biólogo.

A APA tem 240 km² de extensão no espelho d’água. No momento, a secretaria de Meio Ambiente de Mangaratiba está fazendo estudos para delimitar as áreas onde determinadas atividades serão permitidas. A pesca predatória será uma das atividades mais vigiadas. A principal área da APA fica na entrada da baía, onde há bastante circulação de embarcações.

Acompanhe as outras matérias da série "A baía de Sepetiba no caminho do sacrifício:

- O sacrifício da baía de Sepetiba
- Resgatando o Plano de Desenvolvimento Sustentável (amanhã, 26/6)

Conheça os pontos-chaves da baía de Sepetiba para entender a dinâmica da região:

Conheça a baía de Sepetiba em imagens na nossa galeria do Flickr.

Portfólio

  • O pescador Ciraldo em sua lancha (foto: Mauro Pimentel)
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