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OsteRio 30 / 03 / 2016| Isabela Fraga

"Precisamos mudar o CEP do emprego"

Como diminuir as desigualdades gritantes na Região Metropolitana do Rio? No OsteRio desta terça-feira (29/3), um caminho ficou claro: mais centros e oportunidades, menos distâncias e deslocamentos.

Na foto, Vicente Loureiro, diretor-executivo da Câmara Metropolitana (Mauro Pimentel/Vozerio)

Nova Iguaçu e Tanguá; Japeri e Niterói, Rio de Janeiro e Rio Bonito. Por mais diferentes que sejam essas cidades, elas têm algo em comum: fazem parte da Região Metropolitana do Rio, um território com 21 municípios, mais de 8 milhões de quilômetros quadrados e 12 milhões de habitantes. Compartilham problemas, habitantes, modais de transporte público, a baía de Guanabara e, sobretudo, as desigualdades. Afinal, os moradores de Japeri recebem em média R$ 624 por mês; os niteroienses, R$ 2.969; Tanguá tem uma taxa de homicídio de 9,3 por 100 mil habitantes; Queimados, 72,4.

Os dados, todos de fontes oficiais, foram apresentados pelo economista Vitor Mihessen, coordenador de Informação da Casa Fluminense, durante o último OsteRio, realizado nesta terça-feira (29/3) em Ipanema. Vitor mostrou também a versão atualizada da Mapa da Desigualdade, lançado pela Casa em agosto último, que reúne visualmente disparidades da região metropolitana a partir de 23 indicadores. Também participaram do debate o diretor-executivo da Câmara Metropolitana de Integração Governamental, Vicente Loureiro; e o coordenador da Casa Fluminense, José Marcelo Zacchi, que mediou a discussão.

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O economista Vitor Mihessen, coordenador de Informação da Casa Fluminense, mostra mapa da Região Metropolitana do Rio

Vicente lembrou que o Rio foi uma das regiões que mais demorou a reconhecer o "fato metropolitano" — afinal, a Câmara Metropolitana só foi criada no fim de 2014. "A nossa metrópole vem se configurando desde o pós-guerra, e perdemos um tempo importante. Não tenho dúvida de que, quando comparamos dados de desigualdades com outras metrópoles, estamos em desvantagem. E isso tem a ver com o fato de elas terem conseguido mexer um pouco, ainda que timidamente, nessas questões comuns", afirmou Vicente.

Para Vitor, o Mapa da Desigualdade tem o papel de "provocar reflexões e propostas. É para gerar um constrangimento que pode construir e provocar uma reformulação [das políticas públicas]". O constrangimento fica claro ao se analisar os mapas: em Japeri, 54% das pessoas levam mais de uma hora para chegar ao trabalho, apenas 14% das crianças de até três anos são matriculadas em creches e 27% dos habitantes com mais de 18 anos têm ensino médio completo. Niterói, por outro lado, apresenta um cenário oposto: 24% dos moradores levam mais de uma hora para chegar ao trabalho; 40% das crianças são matriculadas em creches e 66% das pessoas com mais de 18 anos têm ensino médio completo.

"Com isso, queremos apresentar uma perspectiva multidimensional da desigualdade", explicou Vitor. Os dados de crianças matriculadas em creches, aliás, são uma novidade, bem como o número de crianças de 4 a 5 anos matriculadas na pré-escola e a porcentagem de casos de gravidez para meninas de 15 a 17 anos (mais uma vez, Japeri tem o pior indicador: 11,1%). Veja todos os mapas ao final desta matéria.

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Um dos novos Mapas da Desigualdades produzidos pela Casa Fluminense, que mostram a porcentagem de crianças de até três anos matriculadas em creche (Reprodução)

Mudar o CEP do emprego
Uma das soluções acordadas para parte dessas desigualdades, segundo Vicente, é uma metrópole mais multicêntrica, menos centralizada na capital, onde as pessoas não precisem se deslocar por tantos quilômetros para chegar ao trabalho ou a um serviço de saúde. "É preciso mudar o CEP do emprego, trabalhar com as centralidades", frisou o diretor da Câmara, acrescentando que esse tipo de planejamento não é impossível. "Tem o exemplo da Barra: antes, as centralidades eram o Centro do Rio, de Niterói, Copacabana e Madureira. Hoje, a segunda centralidade é a Barra da Tijuca. Ou seja, centralidades podem ser inventadas e fortalecidas." José Marcelo fez coro ao otimismo de Vicente: "Uma das coisas boas das cidades é que elas se movem. Olhar para trás é bom pra ver que pode ser diferente no futuro."

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José Marcelo Zacchi, coordenador da Casa Fluminense e associado do Iets, mediou o debate

Em tese, esse é um dos objetivos do "Modelar a Metrópole", plano estratégico de desenvolvimento urbano do Rio licitado em 2015 pela Câmara Metropolitana. O documento deve estar pronto até julho de 2017 e está a cargo do consórcio formado pela Quanta Consultoria e o escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados. A elaboração do plano será acompanhada também por umconselho formado por representantes de empresas, do poder público e da sociedade civil que se reuniu pela primeira vez este mês. "Não vamos resolver tudo colocando mais trem ou trem com dois andares", afirmou Vicente. "Temos que pensar em outro modelo, e o melhor é redistribuir as oportunidades de emprego, trabalho, moradia e, principalmente, os serviços."


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Ao repensar o modelo na metrópole, entretanto, é importante não esquecer do principal elemento que as compõe: o cidadão. Foi o que lembrou o economista Manuel Thedim, diretor do Iets, durante os comentários da plateia. "A principal centralidade da região metropolitana é o cidadão. A gente fala muito de politicas e de infraestrutura, mas sempre a partir da ideia do projeto, de metas, internacionais, desejadas etc. Mas há pouca intercessão das politicas públicas com o desejo do cidadão, com as necessidades desse cidadão. Como desenhar políticas públicas a partir dessa centralidade? Como mudar a logica das políticas públicas dos interesses de governo para os interesses de indivíduos?"

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