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Prêmio de Ações Locais 20 / 03 / 2015| Anabela Paiva

Produtores de cultura de toda a cidade se reúnem para celebrar prêmio municipal

Edital que beneficia ações locais de cultura selecionou 85 iniciativas de 840 inscrições de artistas e produtores de toda a cidade.

Bega veio da Maré. Leandro, da Rocinha. Victor, de Honório Gurgel. Dilma e Deise, da Praça Seca. De origens e gerações diferentes, eles se juntaram ao grupo numeroso e variado de realizadores culturais que compareceu à Arena Fernando Torres, no Parque de Madureira, na manhã de quinta-feira, para a entrega dos diplomas aos vencedores do Prêmio de Ações Locais, da Secretaria Municipal de Cultura. O edital contemplou 85 produtores de toda a cidade e representa um muito necessário passo para apoiar os anônimos que, no cotidiano, nas ruas, bares e pequenos auditórios, produzem cultura no Rio. Veja aqui a lista de todos os vencedores.

Na chegada à arena, uma olhada já revelava que este edital não tinha beneficiado os grupos tradicionais: negros e mestiços pareciam ser a maior parte da plateia. Sorridentes, vestidos com capricho para a festa ou com camisetas dos seus projetos, eles foram chamados em grupos, de acordo com as APs – as áreas de planejamento em que a prefeitura divide a cidade – em que atuam. O secretário municipal de Cultura Marcelo Calero foi o MC da cerimônia. O secretario executivo de coordenação de governo, Pedro Paulo, sorridente, posou para as fotos com os vencedores. Depois, um microfone foi aberto para quem quisesse se apresentar.

Diana Gomes, 77 anos, e Deise Vieira, 75, foram as primeiras, aplaudidíssimas ao cantar, afinadas, clássicos como "Kalu" (Humberto Teixeira) e "Noite do meu bem" (Dolores Duran). Foi assim também que elas ganharam os R$ 40 mil distribuídos pelo prêmio para cada projeto, a ser usado durante um ano de atividades. O processo de seleção envolvia uma apresentação do candidato a um grupo de avaliadores. Diana e sua parceira soltaram a voz e emocionaram a banca. Com o violonista Ailton Kirath, há 14 anos elas realizam o projeto Leros, leros e boleros, com shows e aulas de canto no Centro Cultural Dyla Sylvia de Sá, na Praça Seca. O público é fiel e, na maioria, acima dos 60 anos. “Com o valor do edital, vamos fazer uma série mensal sobre os grandes nomes do rádio”, disse Deise.

Na sequência, foi a vez de Bhega, que entoou uma composição própria. Lindenberg Cícero da Silva é personagem conhecido da Nova Holanda, comunidade do complexo da Maré. Na sua bicicleta dotada de um alto-falante, Bhega é um arauto moderno e circula anunciando promoções, festas, encontros. Nas horas vagas, realiza o Cinema no Beco, no qual projeta filmes infantis na parede ou em um toldo comprado por R$ 50. “Para quem não tinha nada, vai ser uma grande ajuda. Vou poder, por exemplo, comprar uma tela. E quero também comprar uma bicicleta elétrica para poder me apresentar no Timbau – lá é uma subida danada – e na Vila do João e Conjunto Esperança. Quero chegar a todas as comunidades da Maré”, planeja.

O estudante de jornalismo Leandro Lima, 32, e sua parceira Michele Rocha, 33, pretendem produzir um ciclo de debates na Biblioteca Parque da Rocinha. A ideia é um achado: discutir políticas públicas onde elas são executadas, aproximando a população dos gestores. “Os leitores vão sugerir os temas, dizer o que querem discutir. Se eles quiserem saber, por exemplo, como funciona a UPA, vamos levar o diretor da UPA para conversar com os moradores”. Os debates serão filmados e postados no site Rocinha.com, que a dupla já toca há tempos – olha aí uma iniciativa para ser irmã do Vozerio!

Victor Rodrigues, 22 anos, agitador do Honório Gurgel Coletivo, quer ampliar o trabalho que o grupo faz de criar espaços de convivência e ações culturais no bairro. Em ação desde 2013, o grupo realiza saraus de poesia em um botequim e investe em transformar um espaço degradado em um jardim ao longo da rua Serinhaém. Com o prêmio, o espaço vai ganhar mobiliário feito a partir de materiais reciclados. “A gente não quer levar cultura para Honório; nós queremos incentivar a cultura que é feita lá”, disse Victor, antes de sair para o Mercadão de Madureira para comprar os ingredientes do feijão amigo que vai celebrar os 110 anos do bairro, no domingo.

Simplicidade foi fator de sucesso do prêmio

Os 450 anos do Rio produziram a oportunidade para que se tirasse do papel uma realidade uma antiga discussão no setor de políticas culturais – a de que era preciso reconhecer a produção de pequenos grupos e companhias, valorizar a cultura da rua, feita nas esquinas, praças e botequins. Este é o objetivo do Prêmio de Ações Locais, oficializado hoje em festa em que a Secretaria Municipal de Cultura reuniu os 85 vencedores.

"Essa cena cultural é muito antiga e pela primeira vez é reconhecida." Lia Baron, da Secretaria Municipal de Cultura

O sucesso do projeto se deve à decisão – difícil, quando se fala de ações do poder público – de prescindir de certos tipos de documentação e de processos complicados. Ao invés de apresentar CNPJ e certidões, como na maioria dos editais, os produtores puderam inscrever suas iniciativas apenas usando o CPF. A divulgação não ficou a cargo de anúncios no jornal ou sites: um grupo de 15 articuladores foi encarregado de rodar a cidade para difundir a existência do edital. Um formulário de preenchimento simples, orçamento descomplicado e um processo de seleção não intimidador facilitaram o acesso de quem não conta com contadores, produtores e especialistas em captação.

Ao todo, 840 produtores se inscreveram – um processo que serviu também de mapeamento das iniciativas da cidade. Para concorrer, era preciso comprovar ter ao menos um ano de atividade e impacto no território. “Essas pessoas já estão fazendo seus projetos, com incentivo ou não”, observa Lia Baron, coordenadora de Cultura e Cidadania da Secretaria Municipal de Cultura. Quase 70% dos vencedores se concentram nos bairros das Áreas de Planejamento 3 (Penha, Ramos, Maré...) ,4 (Jacarepaguá e Barra da Tijuca) e 5 (de Bangu a Guaratiba).

Espera-se que este Prêmio seja o abre-alas de mais políticas voltadas para ações locais. Segundo Lia, um outro edital está sendo preparado. “Essa cena cultural é muito antiga e pela primeira vez é reconhecida, institucionalizada. Isso é irreversível.”

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