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Burburinho 14 / 09 / 2015| Daniel Gullino

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Seminário realizado na Biblioteca Estadual Parque valorizou a participação de crianças na gestão das cidades e apresentou iniciativas realizadas no Brasil e no exterior.

(Foto: Nazareth Salutto)

Era fácil perceber que o evento realizado na última sexta-feira (11/9), na Biblioteca Parque Estadual, era diferente. Os mestres de cerimônia eram dois palhaços. Os debatedores eram crianças com idades entre 9 e 13 anos, que, ao invés de sentar em cadeiras, acomodaram-se em confortáveis pufes coloridos. Os assuntos tratados, no entanto, eram coisa de gente grande.

Os sete meninos eram convidados da segunda edição do seminário internacional ’A Criança e sua Participação na Cidade’. Organizado pelo Centro de Criação de Imagem Popular (Cecip), o evento também reuniu representantes da sociedade civil, do poder público e ONGs. O assunto: o papel das crianças na transformação dos espaços urbanos.

Entre os debatedores, estavam Ana Izabel Barbosa, de 12 anos, e Yasmin Carvalho, de 11. As duas são frequentadoras dos projetos da Fundação Xuxa Meneghel localizada em Pedra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio.

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Criança participam de oficina durante o seminário, na Biblioteca Parque Estadual (Foto: Gabriel Savary/Divulgação)

Ana Izabel e Yasmin falaram sobre suas visitas a uma área de proteção ambiental (APA) do bairro, a APA das Brisas. Lá, as meninas constataram uma série de problemas, como poluição, falta de segurança e de locais de lazer e até animais mortos. “Ninguém liga para lá”, lamentou Yasmin. “Os lugares que têm pessoas pobres não são bem cuidados."

As duas apresentaram um cartaz, com um desenho de um pé de feijão, onde propostas para melhorar a APA pareciam brotar do caule. “O pé de feijão vai crescendo cada vez mais, e as propostas das crianças vão crescendo junto com ele”, explicou Ana Izabel. O cartaz era maior do que os próprios alunos.

As propostas foram dividas em três grupos: na parte de baixo do cartaz, estavam aquelas que as crianças podem fazer sozinhas. No meio, ações que precisam da ajuda de adultos. No topo, ficavam as propostas para as autoridades. As reivindicações incluem desde campanhas educativas em escolas até a instalação de placas no local sobre a história da APA. As duas meninas querem participar de uma reunião de Conselho Municipal do Meio Ambiente e entregar as propostas para o secretário, Carlos Alberto Vieira Muniz. O encontro já está sendo agendado.

Alice Eleotério, de 11 anos, e Renan Silveira, 12, falaram sobre o Projeto Portinari, na Gávea, onde aprendem habilidades artísticas. "É muito bom porque, ao evitar ficar na rua, podemos aprender”, opina Alice. “A gente aprende a ser responsável”, completa Renan.

O evento também contou com representantes do exterior: Franz Alexander, 13 anos, e Camila Vela, 9, vieram do Peru. Eles integram o Instituto de Formação de Adolescentes e Crianças Trabalhadores (Infant, na sigla em espanhol). A lista de iniciativas que eles já realizaram inclui uma campanha contra a violência doméstica e um festival para combater a poluição da água. “[Esses projetos] nos ajudam a ter confiança em nós mesmos”, comemora Franz.

Yasmin Pereira contou sua experiência na Fundação Casa Grande, que fica em Nova Olinda, no Ceará. A menina, de apenas 10 anos, é uma das administradoras do local, gerido principalmente por crianças. Elas têm seus próprios programas de rádio, produzem histórias em quadrinhos e têm aulas de empreendedorismo, sustentabilidade e museologia. “Tudo o que a gente faz é brincando”, garante Yasmin.

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Foto tirada por uma criança para a atividade ’Passeio Fotográfico’, realizada no morro Santa Marta em 2012

Protagonismo infantil

Para Moana Van de Beuque, coordenadora do projeto ’Criança Pequena em Foco’, do Cecip, e uma das organizadoras do seminário, a intenção do evento foi destacar o potencial das crianças. “Queremos mostrar que é possível transformar a cidade com a participação delas”, explica.

Segundo ela, alguns princípios básicos precisam ser respeitados nesse tipo de atividade, como utilizar uma linguagem acessível e apostar em atividades lúdicas. A partir daí, diversas metodologias podem ser empregadas. “Não acreditamos em um passo a passo. Apresentamos apenas algumas ideias, e as pessoas recombinam”, explica Moana.

Em 2013, por exemplo, o projeto realizou uma ação experimental em uma escola do Complexo do Alemão. Os alunos, que em média tinham 6 anos, tiveram de apontar o principal problema que encontravam no deslocamento entre suas casas e o colégio. O desrespeito aos sinais de trânsito, sobretudo por motos, foi a questão mais mencionada.

Como solução, os alunos sugeriram uma placa que reforçasse a importância de não ultrapassar o semáforo. A CET-Rio, parceira da iniciativa, foi comunicada e levou as crianças para um fábrica de placas, onde elas ajudaram a escolher a sinalização, instalada no local sugerido.

O Cecip também realizou o “Passeio Fotográfico” no morro Santa Marta, em 2012. Cada criança recebeu uma câmera e fotografou o que queria em um determinado trajeto. Depois, elas analisaram as fotos na companhia de adultos, e explicaram o que queriam retratar.

Em outra metodologia, elas são convidadas a apontar aspectos bons e ruins sobre a região em que moram. Mais tarde, é realizado um debate para explorar as causas, os efeitos e as possíveis soluções dos problemas.

Na tentativa de ampliar essas práticas, Moana explica que é preciso tanto multiplicar os espaços institucionais de participação como garantir que as medidas sugeridas pelas crianças sejam realizadas. “A maior dificuldade é convencer o poder público”, destaca. Um exemplo bem sucedido é o da cidade de Santo André, em São Paulo, que possui um conselho mirim. Composto por alunos de escolas públicas, o órgão costuma apresentar demandas à Prefeitura.

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