Burburinho

  • Compartilhe:
Burburinho 27 / 01 / 2016| Isabela Fraga Saulo Pereira Guimarães Laís Jannuzzi

Protesto contra violência reunirá grafiteiros este domingo na rua da Alfândega

Grupos se organizam para protestar contra a agressão a três jovens negros por cinco seguranças do Saara na última sexta (22). Os agressores registraram a sessão de tortura em vídeo, que vazou na internet e mostrou que violência contra grafiteiros e pichadores é frequente.

Grafiteiros e pichadores estão se organizando para protestar contra o caso de agressão de três jovens grafiteiros na última sexta (22) por cinco seguranças do Saara (Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega). O episódio foi gravado por um dos agentes. O vídeo foi recebido por adeptos da arte de rua e começou a ser divulgado nesta terça (26), gerando revolta nas redes sociais.

Até agora, está programada uma manifestação na rua da Alfândega, no Saara, no próximo domingo (31). "Vamos nos reunir nesta sexta [29] para decidir como vai ser o protesto", explicou ao Vozerio Marcio Graffiti, um dos organizadores do evento no Facebook, batizado de "Graffitaço da Paz no Saara".

Também na sexta, os grafiteiros pretendem elaborar um manifesto com o objetivo de esclarecer os profissionais de segurança sobre o que é grafite e como abordar os artistas. "Nossa intenção agora é fazer um trabalho grande de esclarecimento. Violência gera violência. A gente não pode se igualar a eles", declarou o grafiteiro Dante. "Uma parada dessas não pode acontecer numa cidade que vai ser sede de olimpíada", afirmou.

Publicado por Dante Urban em Terça, 26 de janeiro de 2016


De acordo com o relato de um dos jovens agredidos, ele e mais dois amigos voltavam de um evento de grafite em Santa Tereza quando tudo aconteceu. Na altura da Central do Brasil, o grupo foi abordado pelos seguranças do Saara, que encontraram latas de tinta nas mochilas dos jovens.

Os seguranças obrigaram os adolescentes a tirar as roupas e os pintaram de branco. Além disso, espancaram os grafiteiros com uma barra de ferro. "Desculpa é o caralho", afirma um dos seguranças em certo momento do vídeo, batendo com a barra de ferro no jovem. Um dos agredidos informou no Facebook que teve duas fraturas na perna em função das agressões (veja a foto abaixo).

Embora os agressores acusem os adolescentes de pichadores no vídeo, eles afirmam que não estavam pichando. Dante corrobora essa versão: "Pichador não sai com lata de tinta de parede", esclareceu o grafiteiro.

O caso gerou revolta entre os artistas do Rio ligados ao grafite e ao picho. "A tortura é um crime muito maior do que a arte de rua", afirmou a grafiteira carioca Panmela Castro, em entrevista ao Vozerio.

PNG - 147.8 kb
Um dos rapazes agredidos postou a foto da perna engessada nas redes sociais após a agressão (fonte: Facebook)

As imagens impactantes do vídeo chocaram mesmo quem convive com a violência. "Não consegui ver o vídeo inteiro. Fiquei com vontade de chorar, me deu muita raiva", desabafou ao telefone o pichador XLMX. Ele contou também que as agressões a grafiteiros e pichadores por parte de seguranças e até da PM são frequentes. "Uma vez tomei uma dura quando estava descendo a rua de casa. Fui parado pela polícia, que me colocou dentro do carro, me levou para um ponto um pouco mais afastado e me bateu, além de jogar minhas tintas na Dutra", contou XLMX, morador de São João de Meriti.

O pesquisador Gustavo Coelho, professor da Faculdade de Educação da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), foi outro que se indignou com a história. "O Rio é uma cidade que valoriza muito mais o muro do que a vida", defendeu ele, que desenvolveu teses de mestrado e doutorado sobre arte de rua. Segundo Coelho, agressões acontecem com frequência com pichadores, mas são mais raras no meio do grafite.

O grafiteiro Meton Joffily concorda. "É mais comum esse tipo de situação acontecer com a pichação, ou quando se faz grafite num lugar proibido à noite. Por isso que evito", contou ele. Joffily disse já ter sido pego pro seguranças, mas que não foi agredido. "Mas dava para saber que eles estavam armados. Um deles falou: ’Quase dei um tiro no meio das tintas para ver se vocês se ligavam’".

Para Joffily, a legitimação de certos nomes da arte de rua é um dos "perigos" que acarretam situações de violência para os pichadores e grafiteiros. "Alguns são eleitos como bons; vão para galerias, para os tênis, são aceitos pelo mundo das ’coisas oficiais’. Então se você se expressa de uma forma é aceito na galeria; caso se expresse de outra é espancado?", questiona o grafiteiro.

Além da cor, do bairro e da renda, o gênero é outro fator de discriminação no mundo da arte de rua. "Ser mulher é problema em qualquer lugar. A gente sofre machismo de todo lado: de polícia, de grafiteiro. O mundo do graffiti é muito masculino ainda, temos poucas grafiteiras", opinou a artista urbana Lya Alves, idealizadora do Projeto Philosoffitti, em Niteroi.

Alves lembra que a pichação no Brasil é considerada crime ambiental, com pena de detenção de três meses a um ano, além de multa. "Mas não está previsto na lei que a polícia ou qualquer ’segurança’ possa fraturar a perna de um jovem", provocou a artista. Já o grafite foi regulamentado pela Prefeitura do Rio em 2014, com o decreto GrafiteRio.


Atualização: o protesto que iria ser realizado no dia 21/02 foi transferido para domingo próximo, 31/01.

  • Compartilhe:

Mais Burburinho

Parque Madureira não tem data para chegar à avenida Brasil

Prometida por Eduardo Paes para o ano passado, obra depende agora do aval de Marcelo Crivella

CCBB é palco de protesto após episódio de lesbofobia

Visitante acusa namorado de funcionária de discriminação durante ida ao local na última sexta (30)

Que tal aterrar a Lagoa?

Livro reúne soluções mirabolantes já propostas para os problemas de um dos principais cartões-postais do Rio

Ouça as vozes do Rio

Preencha o formulário abaixo para assinar o boletim do VozeRio

Mais sobre cultura

Visitante acusa namorado de funcionária de discriminação durante ida ao local na última sexta (30)

Biblioteca Parque amanhece fechada no Centro

De acordo com Governo do Estado, fechamento é excepcional e prefeitura deve manter espaço aberto em 2017

’Sem cultura é barbárie’

Artistas e gestores pedem que o Governo do Estado não acabe com a Secretaria Estadual de Cultura, e de quebra criticam o município por falta de transparência em Fomento às Artes

Novo endereço para criar e empreender

Espaço de ’coworking’ Gomeia surge como centro de articulação entre grupos atuantes em cultura na Baixada Fluminense

Mais sobre manifestações

Em meio às retenções no trânsito causadas pelas manifestações de taxistas contra o Uber no Rio, mototáxis levam passageiros para o aeroporto do Galeão

Onde está junho? Manifestantes de 2013 olham para as ruas hoje

Da atuação da polícia à desesperança: como a geração de 2013 enxerga as mobilizações de 2016

O circo vai ao metrô

Em resposta a casos de repressão violenta a músicos no metrô carioca, produtor cultural sugere ocupar os trens com atividades circenses

Em protesto pacífico, moradores do Alemão pedem fim da violência

Manifestantes caminharam até sede da Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) em uma passeata pequena, mas simbólica. Há atos programados para o mês inteiro

Mais sobre violência

Testemunhas contam o que viram de um dos anos mais agitados dos últimos tempos

Guerra ao fuzil

Como o combate a uma arma se tornou a maior prioridade do novo secretário de segurança do Rio

A nau sem rumo da segurança pública

Para o sociólogo Renato Sérgio de Lima, vice-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da FGV, lideranças do Rio precisam parar de reduzir a segurança pública a uma mera gestão da legislação penal e das instituições policiais

Favelas do Rio amargam abril violento

Apenas no último mês, PM e traficantes mataram pelo menos 15 pessoas no Jacarezinho, na Mangueira e em outras comunidades

Mais sobre juventude

Para Clarisse Linke, diretora do ITDP Brasil, transporte de alto custo e má qualidade é um fator de exclusão dos jovens nas cidades brasileiras

Conselho da Juventude convida jovens a pensar políticas públicas

Para Rafaela Marques, coordenadora do programa, o conselho preenche lacunas da participação da juventude no governo

"A crise pode aumentar o cuidado e o interesse pelo voto", afirma cientista político

Para o professor da UFRJ Jairo Nicolau, crise vivida pelo Brasil pode atrair mais atenção da juventude para a política eleitoral

No último dia para obter o título de eleitor, jovens cariocas demonstram apatia

Estudantes na porta 163ª Zona Eleitoral do Rio, no Catete, dizem não ter a menor ideia em quem votar nas próximas eleições e que só tiram o título "por obrigação"

Mais sobre arte

No projeto "Banco dos Irreais", o mexicano José Miguel Casanova quer estimular a troca direta de tempo, serviços e experiências entre as pessoas sem a intermediação de dinheiro

Um Rio de azulejos na Maré

Painel formado por centenas de azulejos pintados por crianças da Maré será inaugurado na casa de moradora neste sábado (30/4); projeto pretende colorir ruas do bairro

Conheça os projetos cariocas que participarão da Bienal de Veneza deste ano

Nove dos quinze projetos brasileiros selecionados para o Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza são do Rio; iniciativas selecionadas vão de Madureira a Ipanema

"Será que a pichação é apenas uma atitude irresponsável?"

Gustavo Coelho é professor da Uerj e estuda pichação, bate-bolas e outros fenômenos cariocas sob o olhar da estética

Mais sobre mobilização

As 24 horas iniciais do primeiro colégio ocupado por estudantes no Rio, na Ilha do Governador

A saga de quem faz cultura nas ruas do Rio

Organizadores do Sarau do Escritório mostram como vencer o vilão da burocracia em 11 fases

Esquerda pop se reúne no fórum Emergências

Em clima de festa, encontro na Lapa reúne hackers, índios, intelectuais e ativistas do Brasil e do estrangeiro

Mais sobre grafite

Realização:
Iets
Patrocínio:
Universeg
Apoio:
Biblioteca Parque Estadual Biblioteca Parque Estadual
 
Licença Creative Commons
Desenvolvido em SPIP pela Calepino