10 Perguntas

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10 Perguntas 29 / 03 / 2016| Anabela Paiva

Quando o policial é alvo de sua própria arma

A morte violenta de policiais costuma ser amplamente noticiada. Mas pouco se fala dos que escolhem a si mesmos como o alvo de suas armas. Um drama mais frequente do que se imagina, como afirma a pesquisadora Dayse Miranda, organizadora do livro Por que policiais se matam?, resultado de um estudo que contou com a participação de psicólogas da PM do Rio de Janeiro e pesquisadores da UERJ. O livro será lançado amanhã, quarta-feira, em um seminário com presença do comandante-geral da PM, coronel Edison Duarte. Entre outras informações, a pesquisa mostra que policiais apresentam taxas de suicídio muito mais altas do que as da população em geral.

Coordenadora do GEPeSP (Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção), vinculado ao Laboratório de Análise da Violência (LAV) da UERJ, Dayse se envolveu tanto com a pesquisa que continua a monitorar mortes e tentativas de suicídio e a fazer palestras para conscientizar sobre a importância da prevenção. “A cultura policial é de sempre ser forte como um super-herói. Para mudar, é preciso incentivar o profissional a ser um multiplicador da prevenção, e não banalizar o problema de um amigo”, explica.

[Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil]

  1. O suicídio é um tabu na sociedade. Como foi pesquisar esse assunto? É um tema sobre o qual ninguém quer ouvir, ninguém quer falar. Parece que você está contando uma fofoca, o tom de voz abaixa. Não tem uma base de registro de mortes da polícia. E tanto na polícia como na população em geral, o suicídio é um tipo de morte de que as pessoas não falam. Existe o medo do estigma do suicida. E, na polícia, também existe o medo de perder o seguro. Se a morte for classificada como suicídio, a família perde direito ao seguro e passa a contar só com a aposentadoria. Com isso, o que os amigos [dos policiais] faziam? Eles me contavam que camuflavam a cena da morte, para que fosse considerada acidente ou morte em combate. Antes de começarmos a pesquisa, o comandante da época, o coronel Mario Sergio, chegou a dizer que eles [a Polícia] desconheciam este problema. Então eu pedi para descobrir se isso era verdade. Consegui verba, fui aumentando a equipe. Estou voltando agora para contar o que descobri.
  2. Os casos de suicídios no país estão aumentando? Em 2013, último ano para o qual temos dados do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, o Brasil apresentou mais de 10 mil óbitos. O que a gente sabe é que, nos últimos 20 anos, a taxa aumentou 56%. O último relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2014, informa que o Brasil, entre os países da América Latina, está na oitava posição — mas ainda estamos longe dos países do Leste Europeu, por exemplo. O que me impressiona hoje é o crescimento das mortes envolvendo jovens e envolvendo também jovens mulheres em SP. O psiquiatra José Manuel Bertolote, autor da obra O suicídio e sua prevenção, informa que no Brasil a taxa de suicídio entre adolescentes e jovens cresceu pelo menos 30% nos últimos 25 anos. As pesquisas já realizadas apontam a falta de perspectiva como motivo central das mortes e tentativas. Acreditamos, sem poder demonstrar, que adolescentes e jovens se sintam totalmente desvinculados do que a sociedade pode oferecer para eles. Infelizmente, sabemos muito pouco a respeito. Hoje não temos dados confiáveis sobre o tema, mas somos procurados por eles em nossa página do Facebook. E a palavra mais comum entre jovens é desesperança.

    "Nossa pesquisa verificou que o risco relativo de mortes de policiais militares por suicídio foi 6,6 vezes superior ao da população geral do estado do Rio de Janeiro"

  3. E entre os policiais? O suicídio é um fenômeno predominantemente masculino. Como a polícia militar é majoritariamente masculina, tem um viés aí, que é necessário controlar. Nossa pesquisa verificou que o risco relativo de mortes de policiais militares por suicídio foi 6,6 vezes superior ao da população geral (homens e mulheres) do estado do Rio de Janeiro, no ano de 2009. Neste ano, a taxa de suicídio entre policiais militares chegou a 13 por 100 mil. Ao mesmo tempo, a taxa na população do estado do Rio de Janeiro era de 2 por 100 mil. Mas há variações inexplicáveis nos registros. Um dado nos chamou atenção, por exemplo. No ano de 1995, a taxa de suicídios entre policiais chegou a 39 por 100 mil. No mesmo ano, cresceu a letalidade policial no estado do Rio. O que aconteceu neste ano? Policiais mataram mais e se mataram mais também? Depois, em 2004, vai para zero. O que é isso? Quando você levanta essa questão para o profissional de saúde da polícia ele simplesmente não sabe explicar. Diante dessa situação, eu fui buscar o responsável por classificar essas mortes. E ele assumiu: “Nós não temos como controlar isso, pois depende do colega e do familiar informar. E ninguém quer dizer que um policial se matou”.
  4. Como foi o processo de pesquisa? Eu tinha dados não confiáveis e taxas instáveis. No começo, ninguém queria falar comigo. Então tive um insight: realizar palestras e rodas de conversas em diferentes batalhões. Como já havíamos feito uma pesquisa sobre o tema, eu usei relato das vítimas da população civil para trazer o debate sobre o sofrimento de pessoas que passaram por um trauma. Pessoas que viveram um trauma e tiveram contato com a violência, guerras ou confrontos teriam maior vulnerabilidade de desenvolver sintomas de desordem de estresse pós-traumático. Foi aí que aquelas pessoas, que antes não queriam falar, passaram a se mobilizar. Eu tive cerca de 1.500 ouvintes, e deles conseguimos 409 pessoas que concordaram em dar um depoimento. Priorizamos os casos de ideação suicida declaradas e tentativa [de suicídio]. Aplicamos um questionário a 224 pessoas e comparamos as motivações desse grupo de policiais que participou das entrevistas com os relatos de familiares de 58 casos de suicídio identificados entre 1995 e 2009.
  5. O que descobriu? Quem são esses policiais que se matam? O que faz com que desistam da vida? Todo mundo quer saber o que torna os policiais mais vulneráveis do que o resto da população. Insatisfação profissional? Isso também acontece fora da esfera policial. Problema familiar? Também ocorre no quadro geral dos casos. Outros fatores citados são falta de reconhecimento profissional, maus tratos verbais, abuso de autoridade combinados com perdas constantes de amigos em confronto, e o dado principal: acesso a armas de fogo. Não há como separar a dimensão psicológica dos fatores organizacionais. O policial reproduz a lógica profissional dele dentro de casa. Ele é agressivo, autoritário, silencioso. E, como passa a maior parte do tempo fora, é um estranho dentro de casa. Quando ele volta, não é acolhido, e quando vai para a polícia também não recebe acolhimento. Também mostram ter vínculos familiares e religiosos mais frágeis.
  6. Alguns casos te impressionaram mais? Um caso mexeu muito comigo, fiquei dias sem dormir, mesmo não tendo qualquer ligação com aquele policial. A história dele é muito complicada. Ele entrou na polícia jovem, já tinha um problema de saúde. Passou nos exames, não sei como aquele jovem pode ter sido aprovado. Ele já tinha uma tendência a agressividade. Isso era nítido. Entrou no crime. Acabou virando traficante e exercendo essa função dupla, policial e traficante. E fala disso com o maior orgulho. Eu tive que ficar com esse entrevistado na casa dele. Ele contou quando entrou no tráfico, quando saiu, como foram os casos de corrupção dentro da polícia, quem eram os corruptos e como recebia a propina… E também de quando isso virou uma doença. Ele passou a consumir drogas. Depois foi para o grupo Renascer [grupo de apoio aos dependentes químicos da PM], uma organização que tem mais de 20 anos, mas com pouca visibilidade na polícia. Ele contou depois como foi difícil sair, se tratar. Num determinado momento da conversa, perguntei quando ele havia percebido que estava doente. Ele respondeu: “Quando eu atirei na minha filha, pensando que eu estava matando uma galinha”. [Chora] Isso marcou a minha vida. Eu chorei, passei mal. E ele começou a surtar. A dor dele foi tão grande que ele surtou dentro de casa. Começou a tentar justificar, me mostrando as coisas dentro da casa e falando que tinha dado tudo de bom para os filhos. Foram seis tentativas de suicídio. A vida dele foi destruída. A mulher não aguentou e se separou, os filhos não querem saber dele. E não trabalha mais na polícia.
  7. Qual a sua proposta de prevenção para evitar que esses casos ocorram? Não existe hoje na PM um controle do uso da arma de fogo. Se um policial está doente, ao dar entrada na junta médica por depressão ou ansiedade, a PMERJ não tem como controlar o uso da arma de fogo do policial. Por que? Porque a polícia não tem um regulamento sobre isso. Entra também a resistência do policial. Muitos deles pedem licença para se tratar, quando na verdade vão ganhar dinheiro fora. E é padrão do doente mental ter uma resistência. Ainda mais sobre algo que gera identidade para ele, como a arma. No Rio de Janeiro, então, ele não vai à padaria sem estar armado. Até chegar ao episódio definitivo, existem vários sinais e a possibilidade de fazer a prevenção: brigas no trabalho, uso abusivo do álcool, dizer várias vezes que vai se matar, brigas familiares. Tem um caso registrado no livro no qual o policial falava que ia tirar a própria vida para a esposa. Esse policial tinha todos os sintomas, mas a família protegia e os amigos também. Ele já tinha histórico de morte por suicídio na família, era agressivo, altamente perfeccionista. A mulher dele já havia comentado várias vezes que ele brincava com a arma de roleta russa. Nós perguntamos para ela: “A senhora nunca teve vontade de pedir ajuda?” “Eu achei que ele estava brincando”, respondeu ela. Essa falta de percepção, de saber conhecer um quadro suicida, é geral. Hoje a polícia militar tem 95 psicólogos, mas não existe um serviço especializado para atender esse público, no que dizem respeito às manifestações suicidas. No momento, a PMERJ possui um psiquiatra no atendimento de PMs pensionistas, ativos e seus dependentes. E dois lotados na Junta Médica. Como um psiquiatra pode atender 50 pessoas numa semana? Parece um estado de guerra.

    "Como um psiquiatra pode atender 50 pessoas numa semana? Parece um estado de guerra"

  8. Então, o que pode ser feito? Propomos recomendações dirigidas aos gestores para fazer uma prevenção integrada. Não adianta investir apenas em medicamento se não tiver uma política de atenção ao policial em situações de risco. Por exemplo, depois de sair de um conflito armado, esse policial deve ser ouvido. Se ele perde um amigo, o normal hoje é voltar a trabalhar na mesma hora. Não há um acolhimento. Para mudar, é preciso incentivar o profissional a ser um multiplicador da prevenção. O problema de um amigo/colega policial não pode ser banalizado. Segundo a cultura policial, o PM é sempre considerado um super-herói. Estamos em uma sociedade que só espera resultados positivos das pessoas dentro de suas competências, mas isso tem que estar alinhado à "ética do cuidado do policial militar", expressão citada pelo coronel Carballo Blanco nas reuniões de trabalho na PMERJ.
  9. O GEPeSP continua a realizar as palestras. A pesquisa conseguiu dar visibilidade à questão? Hoje somos convidados pela cúpula administrativa e representantes da Diretoria Geral de Saúde e das unidades operacionais para a falar sobre o problema na instituição. Nós vimos que a prevenção é importante, mas também é necessário trabalhar com um protocolo sobre como agir em situação de crise, envolvendo policiais militares.
  10. São Paulo está mais avançado neste aspecto? Muito mais, nem se compara. São Paulo hoje é o meu sonho para o Rio. Lá eles têm um atendimento para o grupo de ideação, o grupo de tentativa, grupo que sofreu um tipo de trauma envolvendo perda de amigos em combate, algum tipo de questão proveniente de tiroteios, o grupo dos dependentes químicos, o grupo que é preparado para inatividade. Enfim, são programas integrados, interdependentes e que se comunicam por um sistema. Isso vem sendo desenvolvido há mais de 15 anos. Tudo começou com um psicólogo da PMESP, que criou o projeto de valorização da vida dentro da polícia. Contudo, infelizmente, os programas não são sistematicamente avaliados, então não sabemos se eles realmente são eficientes em salvar vidas.
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Convidado

Dayse Miranda

Doutora em Ciência Política pela USP, é professora e pesquisadora do Laboratório de Análise da Violência (LAV), da UERJ, onde é responsável pelo GEPeSP- Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e (...)

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