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Burburinho 21 / 12 / 2016| Saulo Pereira Guimarães

Que tal aterrar a Lagoa?

Recém-lançado pela Editora Cidade Viva, livro Lagoa Rodrigo de Freitas - Uma discussão centenária reúne soluções mirabolantes já propostas para os problemas de um dos principais cartões-postais do Rio. Entre elas, o projeto de aterrar completamente o espelho d’água por conta do risco representado pelo espaço para a saúde pública e a ideia de construir moinhos de vento para bombear água do mar para dentro do acidente geográfico

Foto: Vista aérea da Lagoa (Divulgação/Vitor Marigo)

A Lagoa é um dos locais mais bonitos do Rio. Entretanto, seu ambiente originalmente hostil à ocupação inspirou ideias extravagantes ao longo do tempo - incluindo a de aterrar completamente o espaço. É o que revela o livro Lagoa Rodrigo de Freitas - Uma discussão centenária, lançado no último mês pela Editora Cidade Viva. Na obra, o engenheiro e ex-presidente da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema) Victor Coelho aborda as características, a história e pesquisas envolvendo o corpo d’água localizado na zona sul do Rio.

A proposta de acabar com a Lagoa é de 1905. Seu autor é o médico Saturnino Nicolau Cardoso. Para ele, a medida se justificava por conta do local representar um grande risco para saúde pública, devido à imensa concentração de mosquitos - entre outros motivos. "Aterrar é mais fácil e econômico do que tratar, mas definitivamente não é uma solução", comenta Victor. Outro projeto inusitado previa a construção de 40 moinhos de vento com a finalidade de bombear água do mar para dentro da Lagoa. Sugerida pelo Barão de Tefé em 1880, a iniciativa também não saiu do papel. "Havia um grande incômodo com os chamados miasmas, que são os gases emanados pela Lagoa", diz Victor.

Por trás das ideias que hoje causam estranhamento, está o desafio representado pela dinâmica natural da Lagoa. Para existir, o corpo d’água depende de trocas constantes com o mar. São elas que garantem a oxigenação e outros fatores que interferem no equilíbrio do ecossistema. Sem a água salgada, o número de algas no local cresce rapidamente. O lançamento de esgoto sem tratamento estimula ainda mais esse crescimento, que tem consequências negativas. As algas consomem oxigênio para se decompor e terminam criando uma camada morta no fundo da Lagoa. Quando uma ventania ou outro fenômeno movimenta as águas, o nível de oxigênio cai também na parte mais superficial, matando os peixes e gerando as chamadas mortandades. Por isso, é importante manter a Lagoa em contato com o oceano.

Do remo ao stand up paddle

Com cerca de 2 quilômetros quadrados, a Lagoa é relativamente rasa. Seus pontos de maior profundidade tem quatro metros. "Um deles fica na altura da curva do Calombo", revela Victor. Entretanto, o local reúne mais de 6 milhões de metros cúbicos de água. Hoje, uma população de 160 mil pessoas vive no entorno do acidente geográfico. Habitada por capivaras, garças e macacos, a região é uma das áreas preferidas dos cariocas para práticas esportivas. Elas vão desde o remo, que começa às 5h30, até o stand up paddle. Diferentemente das praias, a Lagoa não é (nem nunca foi) lugar para se tomar banho. "Isso acontece porque, quando chove, ela recebe água contaminada por fezes de animais e outros detritos. Essa carga orgânica se dilui na Lagoa, mas impede que as pessoas mergulhem nela", explica Victor.

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Na imagem da revista Fon-fon de 1922, as obras na Lagoa

Como se sabe, a Lagoa não foi aterrada. Mas foram feitas outras obras menos drásticas com o objetivo de facilitar a ocupação de seu entorno. A maior delas data do começo da década de 1920. Tocada pela firma Lafayette, Siqueira & C, a intervenção iniciada em abril de 1921 usou cerca de 300 mil metros cúbicos de pedra e mais de 2 milhões de metros cúbicos de aterro para dar vida à avenida Epitácio Pessoa e a um sistema criado para garantir a circulação de água salgada na Lagoa. Pelo projeto do engenheiro Saturnino de Brito, as correntes marítimas entrariam por meio do canal da avenida Delfim Moreira no corpo d’água, de onde saíriam seguindo um caminho que atravessa as ruas General Garzon e Visconde de Albuquerque. "A ideia era que o fluxo reencontrasse o oceano no Leblon, na altura do Vidigal. Mas não funcionou porque a entrada do sistema fica constantemente entupida pela areia", conta Victor.

O canal da avenida Delfim Moreira já está pronto. É todo ele de cimento armado, com poderosas comportas de aço. Também o da praia do Vidigal se acha em franca construção, estando bastante adiantados os respectivos trabalhos (...) Graças a essas comunicações artificiais, que o homem vai abrindo, desaparece por completo a insalubridade da Lagoa Rodrigo de Freitas, cujas águas, deixando de ser focos permanentes de moléstias, serão sempre renovadas pelo oceano (Gazeta de Notícias, 07/03/1923)

Pesquisas mostram que os primeiros agrupamentos indígenas na região da Lagoa surgiram no século VI. Porém, o início da colonização da área só acontece em 1575, com a criação do Engenho D’El Rei no local do atual Jardim Botânico. O nome Rodrigo de Freitas é uma homenagem ao esposo de Petronilha Fagundes, que casou com a herdeira das terras em 1702. Entre os visitantes ilustres que a Lagoa já recebeu, está o cientista inglês Charles Darwin. Em 25 de junho de 1832, ele descreveu em seu diário o encanto com as "águas manchadas de púrpura pelos últimos raios do crepúsculo". Algumas décadas depois, em 1889, a fábrica da Companhia Fiação e Tecidos Corcovado se instalou no entorno do corpo d’água, dando começo à sua industrialização. "A Lagoa já concentrou um grande número de laboratórios, indústrias e favelas nas suas margens", lembra Victor.

Últimos tempos

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Vista aérea da Lagoa a partir da praia do Leblon (Ricardo Zerrenner/Divulgação)

A configuração atual do espaço começa a surgir na década de 1950, com o fechamento das fábricas que existiam na região. No fim dos anos 1960, Praia do Pinto, Ilha das Dragas e outras favelas são removidas, antecipando o boom imobiliário verificado na década seguinte. No livro, Victor revela que a construção dos edifícios que hoje existem à beira da Lagoa muitas vezes envolveu o aterro de locais sem a autorização da prefeitura. O resultado foi a perda de quase metade da área original do corpo d’água. "Nos últimos anos, foram construídas elevatórias e galerias que melhoraram a qualidade da água", afirma ele. Além disso, o engenheiro destaca a criação de um centro de controle pela Cedae e o acompanhamento diário da temperatura e outros indicadores pela prefeitura como medidas positivas.

Como o problema do equilíbrio interno da Lagoa ainda não está resolvido, novas propostas continuam a surgir. Uma delas prevê o prolongamento do canal do Jardim de Alá dentro do mar, com o aprofundamento do seu traçado. Outra, a instalação de quatro tubos com mais de 3 metros de diâmetro na mesma região. Os dois projetos têm em comum o objetivo: injetar água salgada no espelho d’água. "Hoje, os investimentos nisso estão parados. Temos de esperar tempos melhores para novas experiências", diz Victor. Não acabando de vez a Lagoa, qualquer solução é válida para que o Rio tenha um cartão-postal ainda mais bonito no futuro.

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